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O dilema das trocas: franquias x atletas

O mercado de trocas na NBA muitas vezes poder ser cruel. Seja por decisão da franquia ou do próprio jogador, uma troca pode mudar o patamar de uma equipe e ser um verdadeiro divisor de águas na dinâmica da liga. São decisões tomadas que podem impactar a carreira de um jogador e a história de uma franquia, o que torna uma troca algo detalhadamente discutido entre os general-managers responsáveis.

Nos últimos dias, Cleveland Cavaliers e Detroit Pistons decidiram afastar Andre Drummond e Blake Griffin, respectivamente, enquanto estudam possíveis novos destinos para ambos. Caras conhecidas e estrelas veteranas na NBA, os bigs viram suas carreiras se encaminharem para cenários menos competitivos, em franquias focadas na reconstrução de seus elencos. Em Cleveland, adquirido via troca em janeiro de 2020, Drummond viu a chegada de Jarrett Allen trazer um novo pivô para o presente e futuro da equipe. Já Griffin, em Detroit desde 2018, parece estar perdendo a luta contra o tempo e vendo seu jogo cair de nível ano após ano. Ambos dominaram garrafões durante a última década – Drummond liderou a liga em rebotes quatro anos seguidos e foi duas vezes all-star, enquanto Griffin encantou o mundo com suas enterradas e seis participações no jogo das estrelas.

Andre Drummond e Blake Griffin atuando pelos Pistons (AP Photo/Carlos Osorio)

Andre Drummond e Blake Griffin são nomes que já tiveram seus auges na carreira, mas que ainda podem contribuir em times que brigam por algo além na temporada. Drummond ainda tem 27 anos e segue sendo uma máquina de duplo-duplos, tendo médias de 17 pontos e 13 rebotes nesta temporada. Griffin, 31, revolucionou seu jogo físico de garrafão para um basquete mais moderno, evoluindo bastante seu arremesso e virando um bom playmaker. Em reformulação, Cleveland e Detroit optaram por efetivar seus jovens em quadra e não utilizar mais os veteranos. Rumores de novos destinos já surgem ao redor da liga, mas não há nada concreto até aqui.

O cenário reascendeu a polêmica sobre a diferença de tratamento entre franquias e jogadores quando o assunto é o mercado de trocas. Draymond Green, do Golden State Warriors, veio à público na última segunda-feria (15) apontar hipocrisia na relação diretoria-atleta. O jogador usou o exemplo recente de James Harden para mostrar seu ponto. Harden, recém trocado pelo Houston Rockets para o Brooklyn Nets, foi duramente criticado pela decisão de exigir a troca. “Quando Harden pediu uma troca e foi perseguido por isso, todo mundo destruiu aquele homem”, disse Green, que ainda completou dizendo que “mas um time pode vir e dizer que quer trocar alguém e o afasta, e esse alguém deve se manter profissional senão é um câncer, é ruim para o vestiário, é o problema.” Green ainda lembrou o caso de Anthony Davis, que foi multado em 50 mil dólares por pedir troca publicamente quando atuava pelo New Orleans Pelicans.

O principal ponto é que, ao contrário dos jogadores, as franquias podem fazer o que bem entendem sem receber as mesmas represálias. Green apontou a troca de seu antigo companheiro Harrison Barnes, ocorrida em 2019, quando este ainda atuava pelo Dallas Mavericks. Barnes teve sua troca para o Sacramento Kings anunciada na imprensa durante a partida contra o Charlotte Hornets, sendo retirado do jogo no meio do terceiro quarto. Há outros casos marcantes de trocas que impactaram a NBA: em 2017, o Boston Celtics mandou sua estrela Isaiah Thomas para Cleveland em troca do armador Kyrie Irving, que havia pedido troca. Thomas, recém all-star pela primeira vez, não reencontrou seu basquete em outras equipes e hoje está fora da liga. Irving também já deixou Boston, após passagem sem muito sucesso. Em 2018, quando o Toronto Raptors trocou o franchise-player de dez anos DeMar DeRozan por Kawhi Leonard, muito se discutiu sobre a facilidade que franquias têm de desapegar inclusive de seus melhores e mais identificados jogadores. No fim, os Raptors foram campeões pela primeira vez. Nessa, valeu a pena.

 Harrison Barnes é trocado durante Mavs x Hornets

Draymond Green encerra seu desabafo dizendo “como jogadores, nos dizem que não podemos falar isso, fazer aquilo, mas os times podem? Chega um ponto que nós temos que ser respeitados nessas situações.” Franquias, em trocas, costumam não se importar com a vida pessoal dos atletas envolvidos. Independente de adaptação à cidade, gosto da família e/ou vontade pessoal, quando uma diretoria puxa o gatilho de uma troca ela está passando por cima de todas essas variáveis. DeRozan morava há uma década em Toronto e foi despachado para San Antonio. Derrick Rose, MVP pelo Chicago Bulls e nativo da cidade, foi mandado para Nova Iorque da noite para o dia. É compreensível que a NBA seja um negócio onde as franquias buscam sempre melhorar suas equipes a qualquer custo. Mas é justo que os atletas também tenham voz e opiniões respeitadas quando se trata de suas vontades pessoais. Afinal, sem os jogadores, a NBA não seria nada. São eles as principais estrelas do show.

 

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