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Lucas Bebê e a saúde mental no esporte

O psicológico humano é um assunto cada vez mais presente na sociedade. No entanto, em muitas ocasiões não recebe a devida atenção no âmbito esportivo, por conta do mito de que a vida de um atleta é perfeita. Hoje, no Blog do Souza, discutiremos sobre Lucas Bebê e a saúde mental no esporte.

Contratado com grande expectativa pelo Fortaleza Basquete Cearense para a disputa do Novo Basquete Brasil (NBB), o pivô Lucas Bebê Nogueira retornou a seu país natal com o discurso de “voltar a ser feliz”.

Contudo, o pivô não conseguiu alcançar seu objetivo e pediu desligamento do clube no dia 27 de janeiro. Em sua passagem pelo NBB, Lucas não conseguiu se livrar das lesões e, além disso, ainda sofre com sua saúde mental.

Confusão e problemas físicos

Um exemplo a respeito do desequilíbrio psicológico de Bebê aconteceu na confusão entre o jogador e o técnico Alberto Bial, na derrota do Fortaleza para Franca em 21 de dezembro de 2020. Na ocasião, Bebê se desentendeu com o treinador, partiu para cima dele e precisou ser apaziguado pelos companheiros de time.

Após o ocorrido, a relação não foi mais a mesma e seus minutos em quadra diminuíram. Na última semana, de acordo com o próprio jogador, voltou a ter problemas com lesões. Isso teria motivado o pedido de desligamento. Desta forma, a passagem de Bebê pelo NBB se encerrou após dez jogos, nos quais teve médias de 3.5 pontos, 4 rebotes e 2.8 assistências por partida.

Após a notícia de sua saída do Fortaleza, o pivô postou uma nota em suas redes sociais explicando a situação.

“Escrever essa nota foi muito difícil para mim, pois o basquete sempre fez parte da minha vida. Nele tive momentos muito felizes e marcantes, mas também alguns momentos de tristezas. Com certeza os momentos tristes eram aqueles que me afastavam das quadras por conta de lesões. Sempre soube que o retorno às quadras após quase dois anos seria muito difícil e desafiador. Mas estava disposto a mais esse desafio na minha carreira. Porém na última terça-feira isso ocorreu mais uma vez, e por isso tomei essa difícil decisão e pedi o desligamento do Fortaleza BC. Vou agora descansar, ficar mais próximo dos meus familiares e amigos, e pensar em novos rumos para o futuro.” – diz parte da nota publicada por Bebê.

Na última quarta-feira, 3 de fevereiro, Lucas anunciou sua aposentadoria das quadras através de um vídeo no Instagram.

É válido lembrar que o atleta de 28 anos sofreu com depressão após deixar a NBA. Por conta disso,  já havia cogitado encerrar sua carreira no esporte durante o período.

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A saúde mental no esporte

De longe, temos a falsa impressão de que um atleta profissional possui uma vida perfeita. Status, fama e dinheiro são coisas que colaboram com isso. No entanto, até mesmo os jogadores de mais alto nível estão sujeitos a ter problemas mentais.

Na NBA, por exemplo, jogadores como DeMar DeRozan e Kevin Love já se manifestaram publicamente alegando problemas com a depressão. O psicólogo norte-americano William Wiener, que atende atletas de alto nível nos Estados Unidos, falou sobre o assunto.

“Jogadores relutam em dar voz a essas preocupações por medo que isso seja interpretado de forma negativa. Que possa tirá-lo do time, ou que isso não seja bom para os contratos que eles poderiam ter. Olhando pra trás, sempre se tratou isso de maneira escondida nos registros. Às vezes, como um tipo de lesão. Então, jogadores trabalharam para deixar isso escondido” – disse Wiener em entrevista ao SporTV, em 2018.

Além disso, o psicólogo falou a respeito do estigma imposto sobre o status dos atletas profissionais, que faz com que a pressão seja ainda maior.

“Sim, existe uma tremenda exigência em aparecer sempre muito bem. Ninguém gosta de se mostrar depressivo. Como alguém pode estar deprimido ganhando tanto dinheiro, sendo pago para jogar basquete?! Esse é o pensamento. Então existe muita pressão” – completou.

Carregar o fardo de ter chegado à NBA com a fama de melhor defensor do basquete espanhol e, mesmo assim, não ter vingado como o esperado colaborou para a depressão de Lucas Bebê.  Fica aqui o desejo para que o pivô consiga encontrar paz, recuperando seu corpo, mente e, por consequência, retomar a carreira dentro das quadras.

Para aprofundarmos neste assunto, o Blog do Souza entrou em contato com Mariana Moura, psicóloga do BRB/Brasília Basquete, que falou sobre a saúde mental no esporte.

Como é feita a observação da saúde mental dos atletas?

Cada psicólogo tem seu estilo de trabalho, eu gosto de realizar um trabalho mais próximo aos atletas e comissão técnica, principalmente para que haja formação de vínculo. Dessa maneira, estou presente na maioria dos treinos e competições. O treino é um local onde é possível coletar muitos dados, ali os atletas estão entregues. Essa observação facilita muito as sessões individuais, onde posso pontuar momentos do treino e intervir não só pelo que é verbalizado pelo atleta ou pontuado pela comissão técnica, tem também o que foi visto por mim.

Como os jogadores lidam com o tema?

Alguns atletas são muito resistentes e faz parte, não é nada pessoal comigo. É uma resistência criada pela sociedade, que diz erroneamente que “psicólogo é coisa de maluco”. Felizmente, a maioria tem procurado um psicólogo visando não apenas a melhora da performance, mas também não levar para a quadra os problemas pessoais; que inegavelmente afetam. O ideal é não negar a necessidade e muito menor o que afeta a performance, passar por cima das coisas pode ter uma consequência negativa na vida pessoal e profissional do atleta.

Qual a importância de um atleta de alto nível cuidar da saúde mental?

O acompanhamento psicológico vem como o quarto componente na performance esportiva, além do físico, técnico e tático. A importância para o atleta de alto rendimento está em não negar esse componente que afeta de forma direta seu comportamento em uma competição. Ter alguém para verbalizar suas insatisfações e buscar soluções, vai muito além do bate papo com amigos ou com outros membros da comissão técnica. Já chegou a hora dos times reconhecerem a importância de ter um psicólogo esportivo próximo aos atletas, para que sejam trabalhadas todas as demandas.

Lucas Ardito Ver tudo

Tenho 18 anos e sou estudante de jornalismo na PUC-Campinas. Falo sobre basquete, futebol e o que mais vier!

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