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Embiid, Jokic e o poste

FOTO: Yong Kim/ Philadelphia Inquirer

 

Pelo título, pode parecer um conto literário ou uma piada de tiozão. Mas é só uma história de sucesso de dois (literalmente) grandes jogadores desse primeiro quarto de temporada da NBA. Joel Embiid e Nikola Jokic não têm simplesmente dominado. Eles têm feito isso de forma incomum para os padrões atuais da liga. Se os dois são candidatíssimos ao prêmio de MVP, é muito por conta do jogo de post up, ou em português, no poste, principalmente baixo.

Para quem não sabe o que é um post up, eu recupero este belo vídeo de Marc Gasol, em 2011, explicando o significado da expressão no basquete – e um pouco mais.

Simplificando para quem não quis assistir: é o chamado jogo de costas para a cesta, uma marca registrada da NBA por décadas, quando o esporte não tinha um caráter tão inventivo, então tentar colocar os caras mais altos e fortes – geralmente pivôs – para chegar o mais próximo possível da cesta, mesmo demorando um pouquinho mais, era a coisa mais lógica a se fazer.

Conforme o jogo evoluiu e a quadra passou a ser explorada centímetro por centímetro, o jogo de post up caiu cada vez mais em desuso, por ser em tese mais fácil de prever – e, consequentemente, marcar – e também pouco efetivo.

Mas dois pontos são dois pontos. Se for possível alcançá-los de forma eficiente, sem atrapalhar o fluxo de jogo, ninguém vai ser contra um bom post up. É exatamente isso que acontece no caso de Embiid e Jokic, os salvadores da pátria dos pivôs esquecidos.

O curioso é que os dois têm o jogo de costas para a cesta como característica marcante, mas utilizam essa arma de forma destacadamente diferente. Pelas stats da própria NBA, Embiid (com 12.9) e Jokic (com 11.0) são os dois jogadores com mais post ups por jogo na liga. Nenhum outro chega a 10. Aliás, só seis times na liga – já incluindo o Sixers e o Nuggets – praticam 10 ou mais post ups por jogo. Ou seja, os dois fazem mais a jogada do que 24 times inteiros (ou 26, se preferir).

Para Embiid, a jogada é uma boa fonte de lances livres, parte importante da pontuação dele. O camaronês é quem mais vai para a linha em toda a liga (11.3 por jogo) e também quem mais consegue esses pontos fáceis a partir de um post up (3.3). Já Jokic é quem mais produz assistências a partir de post ups, com 1.5 por jogo. Não é difícil encontrar vídeos que comprovam a precisão dos passes do sérvio nessa situação.

Mas os dois não são apenas quantidade. Entre os atletas com pelo menos cinco post ups por jogo, Jokic e Embiid são, respectivamente, o segundo e o terceiro com melhor aproveitamento nesse tipo de jogada. Eles só ficam atrás de Zion Williamson, que, com 5.9 por jogo, usa a jogada com muito menos frequência que eles dois. (Aliás, para quem gosta de ler em inglês, uma boa leitura é esse texto do Ringer sobre a forma diferente como Zion usou os post-ups no começo de carreira na NBA).

Embiid explora o post up em 37% das posses de bola, enquanto Jokic faz um pouco menos, 25%. Em termos de eficiência, eles também se garantem. Embiid consegue 1.09 pontos por posse de bola, enquanto Jokic crava 1.00. Para se ter uma ideia, a comparação dos números dos dois com a dos times é gritante: o site da NBA divide as jogadas em 11 tipos, quase todos mais frequentes e mais eficientes do que o post-up. O time que mais “gasta” posses de bola com esse tipo de jogada é o Lakers, com apenas 10.5% do total. Em termos de eficiência, a diferença é ainda mais assustadora: só 6 times conseguem 1 ponto ou mais por posse em um post up. Ou seja, os dois são tão ou mais eficientes do que 75% das equipes nesse quesito.

Ir para o poste é bom para quem se garante

Um prêmio de MVP ou um titulo ou até mesmo uma final seriam certamente uma conquista significativa para qualquer um dos dois, que tiveram muito mérito de marcar posição na NBA em uma época pouco amigável para esse estilo de jogo. Embiid vem tendo as melhores médias de aproveitamento de quadra na carreira, além de estar entre os 5 principais cestinhas da liga. Jokic subiu a produção em pontos, rebotes e assistências e inclusive flerta com o inimaginável feito de ser o primeiro pivô a liderar a liga em assistências desde Wilt Chamberlain.

Mas não vamos nos enganar: esse não é o renascimento do post up. Não tentem isso em casa. Pelo menos não de qualquer jeito. E de preferência não em casa também, mas em uma quadra.

Como vimos nos números, muita gente não usa o post up porque não sabe fazer isso bem. E não é demérito. Com o jogo tão voltado para o perímetro, até mesmo os atletas mais altos acabam não trabalhando essa parte do jogo. Ou trabalham e mesmo assim não conseguem tirar proveito, por exemplo, de receber uma marcação de um jogador mais baixo em situação de post up.

Um caso que teve repercussão relativamente recente foi o de Kristaps Porzingis, que é inclusive mais alto do que Embiid e Jokic (o letão tem 2,21, Embiid tem 2,13 e Jokic tem 2,11). Porzingis atua muito mais como arremessador, longe da cesta, usando a estatura de uma forma completamente diferente. Quando ele recebeu críticas de Shaq e Charles Barkley por não ser usuário do post up, o técnico Rick Carlisle logo veio em defesa, destacando a ineficiência da jogada e o valor que Porzingis teve para o ataque de Dallas com os pontos fortes que tem.

O sentimento de O’Neal e Barkley é compreensível, afinal os dois se ressentem de uma liga que conceda maior protagonismo a caras como eles, que em tese faziam o trabalho sujo, que aperfeiçoaram o uso da força física e do trabalho de pés. Mas não existe fórmula mágica no basquete que seja imune à ação do tempo e ao contexto.

O sucesso na NBA não necessariamente obedece a um modelo. O jogo no poste já foi o mapa da mina? Já. LeBron James já se aproveitou do intensivão do Hakeem Olajuwon para evoluir em um momento chave da carreira. Mas hoje essa abordagem, por si só, não garante nada.

Nos últimos anos, a boa fortuna do Golden State Warriors fez muita gente acreditar que investir na bola de três era o pulo do gato. O engraçado é que caras como Charles Barkley passaram anos duvidando de que seria possível ser campeão da NBA com um esquema tão dependente de arremessos de média e longa distância. Os títulos do Warriors desmentiram isso, mas é bom destacar que arremessadores como Curry e Klay são a exceção da exceção, não a norma.

Talvez Embiid e Jokic sejam isso também e os dinossauros possam se deleitar com uma final entre Philadelphia e Denver nos próximos anos. Mas ainda é cedo para acreditar numa revolução de volta ao passado. Por enquanto, o jogo dos gigantes, o camaronês e o sérvio, parece mais o poste mijando no cachorro.

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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