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Um Kevin Durant assim é assustador para o resto da liga

FOTO: Brad Penner-USA TODAY Sports

Se a pandemia fez e faz parecer que 2020 foi séculos atrás, 2019 então foi parte de uma outra era. Foi ali que vimos Kevin Durant em ação pela última vez antes da atual temporada. E de forma triste. A memória que vem é a da frustração de ver um dos maiores da História prejudicado por uma lesão que costuma ser devastadora. No horizonte, a incerteza sobre o futuro era acompanhada da necessidade de ser paciente com a lenta recuperação. De volta a 2021, a realidade inspira um grande suspiro de alívio: o KD que conhecemos não está morto – e passa muito bem. Para os adversários, isso é desesperador. E se o Brooklyn Nets, novo time de Durant, é quase um elenco de reality show de tão espalhafatoso, o discreto (em quadra) craque é a arma mais letal que a equipe tem à disposição.

Segundo estudos,  atletas de alto nível da NBA raramente retomam o patamar de produção que tinham antes de uma ruptura no tendão de Aquiles. É bom lembrar que o jogo exige altas capacidades atléticas, como correr e saltar, muito dependentes do correto funcionamento do tendão. Privado disso, o jogador dificilmente consegue ser o mesmo. Durant, até agora, tem sido surpreendente. No teste de olho e nos números, nada ou quase nada parece ter mudado. Algum desavisado que não saiba o que aconteceu pode pensar que ele ficou de fora de uma temporada inteira porque tirou um ano sabático para encontrar a paz interior ou ficar mais tempo no Twitter.

Já começo deixando claro que são apenas 11 jogos até agora, mas supostamente esse deveria ser o período mais complicado para Durant, sem ritmo de jogo e com um corpo desacostumado às exigências de uma temporada regular da NBA. É praticamente impossível não se animar com o que ele tem mostrado, mesmo com o lembrete tradicional de ‘é começo de temporada, cara’.

 

Durant sempre teve como maior virtude o fato de ser um pontuador nato, uma aberração da natureza, um ser cuja missão na Terra era colocar a bola na cesta. Com 2,08 de altura e 2,25 de envergadura, tem um arremesso praticamente intocável (um doce para quem perceber a ambiguidade basquetebolística dessa palavra). Combinando a aptidão física com a habilidade e a agilidade, Durant é um jogador como nenhum outro que tenha aparecido no planeta.

O padrão de pontuação de KD é alto. Afinal, são quatro títulos de cestinha da temporada na carreira. Agora pense nisso: a média atual dele (30.6 pontos por jogo) é a segunda mais alta da carreira, atrás apenas da temporada de MVP em 2013-14. No momento, ele é o segundo maior pontuador de 2020-21, atrás apenas de Bradley Beal*.

A grande maioria das estatísticas de Durant não tem sido afetada pela lesão. O tempo de quadra está um pouco abaixo da média, mas maior do que, por exemplo, todas as três temporadas em Golden State. Com 34.9 minutos por partida, KD é, inclusive, o jogador que mais fica em quadra por Brooklyn (estou deliberadamente excluindo Harden, que foi loucamente utilizado nos dois jogos do qual participou).

Durant nunca foi tão eficiente nos arremessos de quadra como agora, independente do recorte que você queira fazer (field goaleffective field goal, true shooting, pode abusar das ferramentas).

E ele tem se mantido consistente. Abriu a temporada com onze jogos seguidos acima dos 20 pontos (a única sequência maior que essa? Ele mesmo: Jerami Grant, que você já conheceu aqui no blog). Com um elenco em constante mudança, com lesões e transações a rodo, Durant trouxe estabilidade e se testou contra adversários fortes também, como Boston, no Natal e, mais recentemente, Milwaukee.

Ele acabou de receber o prêmio de jogador da semana na Conferência Leste, pelo papel decisivo que teve na semana perfeita de Brooklyn (não contando com a partida contra o Bucks).

Durant entrega, mas o desafio é saber o quanto o Nets precisa

FOTO: Nathaniel S.Butler/Getty Images

Não restam dúvidas: ninguém tem um elenco mais estrelado do que Brooklyn. Mas no momento esse plantel tem duas carências evidentes: profundidade e defesa.  Com três vagas desocupadas, o time ainda pode correr atrás de peças secundárias, especialistas que só vão ter um trabalho, que é não atrapalhar.

Não é humanamente recomendável, mas Durant pode arcar com algumas dessas responsabilidades. A realidade é que KD nunca colocou o arsenal completo para todo mundo ver porque sempre se contentou em ser o cara que se encaixa no que o time precisa, mesmo que ele faça isso enquanto é também o melhor jogador do time.

Durant não é um criador em volume, mas em qualidade. A atual temporada é a segunda com maior média de assistências na carreira, perdendo para a última no Warriors (5.9 contra 5.7). Por outro lado, ele nunca teve tanta participação nas assistências do time enquanto está em quadra quanto agora (27.6% do total).

Só que Durant não cria apenas para os outros. Em 2020-21, ele tem criado para si próprio como nunca. Apenas 40.7% dos arremessos que ele converteu foram assistidos, disparado o índice mais baixo da carreira. Antes, a menor média foi em 2013-14, novamente a temporada de MVP, com 47.2%.

Existe uma explicação para isso. Naquele ano, Kevin Durant atingiu níveis insanos de produção porque Russell Westbrook ficou fora, por lesão, de grande parte da temporada. Esse comecinho de ano tem repetido um pouco isso, já que Durant só dividiu a quadra com Kyrie Irving em quatro partidas e com Harden em outras duas. Mais bola na mão dele tem significado também mais turnovers, mas no geral a engrenagem funciona melhor.

Vale investir nesse lado de Durant, que mais uma vez tem menos a bola do que outros companheiros que são craques, mas não melhores do que ele.

Um Durant que fica mais em quadra não apenas para pontuar é uma forma de adicionar profundidade ao elenco. É quase como se ele fosse dois ou três jogadores ao mesmo tempo.

Na defesa, ainda não se percebe nenhuma grande perda de mobilidade ou atleticismo. Se isso se confirmar, Durant pode ser útil também. As temporadas mais bem-sucedidas de KD, em termos de títulos, foram justamente aquelas em que os poderes dele foram, digamos, realocados. Em Golden State, continuou um ótimo pontuador, mas o sistema – e principalmente o acúmulo de talento – permitiram que ele pudesse empregar mais energia na defesa.

É claro que números não provam tudo, mas mesmo que não tenha físico de pivô, Durant foi muito bem na proteção ao aro. Seus dois melhores anos em média de tocos foram no Warriors – 1.6 em 2016-17, 1.8 em 2017-18. Em ambos, terminou no top 10 da liga, sendo o terceiro em 2018. Coincidentemente ou não, foi campeão nos dois.  No segundo título, Durant foi um dos jogadores com maior diferença entre o aproveitamento habitual dos adversários em arremessos e o aproveitamento quando defendido por ele.

No atual elenco, com as saídas causadas pela troca por James Harden, KD é o segundo jogador mais alto, atrás de DeAndre Jordan, que nem sempre justificará a escalação. KD na posição 5, além de ser um small ball falso no ataque, é uma possibilidade de testar o potencial defensivo do craque, permitindo quintetos com mais jogo de perímetro e arremessadores. Vale pelo menos tentar.

O estímulo a esses pequenos experimentos, que não são tão experimentos assim, pode trazer grandes frutos na hora que importa. Durant é o quarto maior cestinha da história dos playoffs, em média de pontos. Pontuar não vai ser problema para ele. Mas a forma como ele impacta as outras partes do jogo de Brooklyn podem ser muito mais venenosas para os adversários. E se eles estão prestando atenção ao craque agora, já devem estar preocupados.

*dados antes da rodada de 19 de janeiro

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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