Blog do Souza

Jerami Grant é o melhor jogador que você não está vendo

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FOTO: Raj Mehta – USA TODAY Sports

Três semanas é pouco tempo para voltar atrás de um palpite, mas certamente eu já olho com arrependimento para alguns chutes no nosso bolão, já que coloquei fichas em jogadores que agora estão machucados (e jogam no Hawks). Mas nada me fez coçar a cabeça mais do que a aposta em Blake Griffin, também registrada neste blog. Só que nem tudo é notícia ruim: se Griffin mal lembra um jogador em atividade, Jerami Grant tem sido muito mais do que se imaginava em Detroit. Você provavelmente não tem acompanhado, mas a evolução dele é uma das surpresas mais agradáveis da temporada até agora.

Quando o Pistons chegou despejando dinheiro na mesa de Grant, foram muitos narizes torcidos por um investimento tão alto (60 milhões em três anos) para um jogador que nunca chegou perto de ser protagonista em lugar algum. Aparentemente, não era o que o Denver Nuggets, ex-time dele e finalista do Oeste na temporada passada, pensava, já que fez proposta igual para renovar com ele. Grant quis o papel principal em Detroit e aí todo mundo se preparou para dizer “eu te disse que não ia dar”.

Até agora, em dez jogos, Grant tem mais que justificado a confiança, não só pelos números mas também pelo que os olhos de quem assiste aos jogos do Pistons veem. Lógico que a amostra ainda é pequena, mas o salto é considerável.

Ele tem registrado as médias mais altas da carreira em pontos, rebotes e assistências. O aumento mais significativo é na média de pontos, que é quase o dobro do nível mais alto que ele já havia alcançado antes (25.1 agora contra 13.6 em 2018-19).

Muito disso se explica porque Grant agora tem ficado mais tempo em quadra (36.6 minutos por jogo). Mas se a expectativa era de que ele se tornasse um jogador que consegue os pontos de forma ineficiente com mais responsabilidades e mais arremessos, ele vem calando os críticos.

Os 18.5 arremessos que Jerami tenta por jogo representam um acréscimo de 8.2 chutes em relação à maior marca anterior, de 10.3 por partida, também em 2018-19, pelo Thunder. Só que a esticada na pontuação vem acompanhada de eficiência semelhante à que ele mostrou nos outros anos, mesmo com uma pequena alteração no perfil ofensivo do jogador.

Durante muitos anos, desde que entrou na liga para defender o Philadelphia 76ers na Era do Processo até as primeiras temporadas em Oklahoma City, Grant se caracterizou por correr a quadra de forma incansável e fazer seus pontos pulando mais alto que os adversários nos arredores da cesta.

Mais e melhor: a síntese de uma evolução surpreendente

Grant continua tendo essa capacidade atlética, como Daniel Theis pôde ver bem de perto recentemente. Mas essa própria jogada já mostra um jogador mais confortável com a bola nas mãos, para bater para cima ou arremessar. Ele melhorou muito da linha dos três pontos, mesmo que muitas vezes em arremessos em que está parado. Mas para quem era uma negação nesse sentido, acertar respeitáveis 37,5% em 7.2 tentativas por jogo (quase o dobro das 3.7 que ele tentava por Denver) é uma super evolução.

Alguns outros números corroboram a tese. Ele ainda não é nenhum Jokic, mas agora aparece entre os 60 jogadores com mais toques por jogo (60.8), sendo o segundo de Detroit, atrás de Blake Griffin. Grant agora fica com a bola o dobro do tempo que registrou nas duas últimas temporadas (2.3 minutos por jogo contra 1.1) e também subiu o número de dribles por toque (1.41 por jogo, contra 0.75 no ano passado e 0.41 há dois anos).

Só que, ao contrário do esperado, ele tem uma relação pontos por toque melhor do que nos anos em que era menos exigido. São 0.413 pontos a cada toque em 2020-21, contra 0.271 em Denver e 0.328 na última temporada em OKC.

Resumindo para quem achou chato: Jerami Grant está fazendo mais coisas e de um jeito tão ou mais eficiente em Detroit do que fazia em outras equipes. É surreal pensar que ele também está entre os 15 principais pontuadores da liga e os 10 que mais converteram lances-livres.

Além disso, o camisa 9 vem somando marcas consideráveis em uma franquia que tem uma história extensa. Recentemente, ele se tornou o segundo jogador com mais pontos em suas oito primeiras partidas pelo Pistons (atrás de Adrian Dantley, 195 contra 192). Isso pode não dizer muita coisa às vezes, como Will Bynum já mostrou. Mas no caso de Grant, é sinal da evolução e de que ele confia no próprio taco. Pelo visto, com razão.

Nas seis primeiras temporadas na NBA, Jerami teve 25 jogos de 20 pontos ou mais. Nesta temporada, em só dez partidas disputadas, ele já acrescentou mais nove (em sequência que está em vigor no momento). Nunca tinha alcançado os 30 pontos e já conseguiu duas vezes só em 2021. E na mais recente, mostrou que pode carregar o time, com 7-12 FG no segundo tempo e na prorrogação do duelo contra o embalado Phoenix Suns, duelo esse que Jerami Grant matou com essa bola de três com o cronômetro de posse de bola perto do fim:

E isso que estamos falando só da parte ofensiva.

Grant permanece sendo um jogador com muitas aptidões defensivas, frequentemente tendo que marcar o principal jogador adversário, especialmente se for um dos chamados wings. Nos playoffs da bolha, segundo dados da NBA, os principais match-ups dele foram Donovan Mitchell (check), Kawhi Leonard (check), LeBron e AD (ok, nem tanto, mas foi decisivo na única vitória de Denver contra o Lakers).

Ele é bom no 1 contra 1 (o suficiente para dar dois tocos em Luka Doncic na mesma posse) e bom na recuperação (o suficiente para compensar o espaço perdido no corta-luz e ir frear Kawhi mesmo assim).

Com tantos predicados, Jerami Grant pode se estabelecer como um nome que vale pesquisar no Google e não apenas por ser filho de Harvey Grant e sobrinho de Horace. Ele tem jogado 83% do tempo na posição 3, na qual, ao longo da carreira, Jerami só atuou em cerca de 30% dos minutos que recebeu. Ele produz ainda mais como ala de força e pode acabar se tornando o PF titular do Pistons em breve, não porque Blake Griffin foi trocado, mas simplesmente porque ele vem jogando muito mais do que o camisa 23.

Não parece absurdo enxergar Grant como forte candidato ao prêmio de jogador que mais evoluiu, mesmo levando em consideração que ele joga no time de pior campanha da liga.

Sair de Detroit, no momento, parece improvável
FOTO: Carlos Osorio/AP Photo

Olhando pela perspectiva atual, o tão criticado contrato que ele recebeu na abertura da off-season até parece uma pechincha. Jerami Grant também poderia render um bom negócio para Detroit, caso algum contender bata à porta. Mas no momento isso não parece tão provável. Pelo lado de Detroit.

Na última semana, o The Athletic publicou uma entrevista em que Grant coloca mais argumentos para ter optado por Detroit. Não foi apenas a oportunidade de crescer como jogador, mas também as conexões criadas. Jerami, um ávido estudante da História Negra dos Estados Unidos, destacou o papel que pode cumprir em uma das cidades com maior proporção de população preta ou marrom no país, em uma das cinco franquias que têm, ao mesmo tempo, um GM (Troy Weaver) e um técnico (Dwane Casey) negros.

Quando o contrato com o Pistons acabar, Jerami ainda vai ter 29 anos, dentro da janela considerada o auge físico e técnico de um atleta. Assim, parece palpável a possibilidade de que ele passe os próximos anos evoluindo na defesa das causas em que acredita e também na quadra. Tudo em Detroit, enquanto muita gente não está prestando atenção.
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