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Clippers e Bucks têm o que é preciso para destronar o Rei?

FOTO: Stacy Rivere/Getty Images

Antes do início da temporada 2019-2020, a maioria das casas de apostas colocavam Clippers, Lakers e Bucks – nessa ordem – como os mais prováveis campeões. No andamento do campeonato, muita gente se impressionou com a campanha avassaladora de Milwaukee, a melhor da temporada regular pelo segundo ano seguido, que viria a culminar no segundo prêmio de MVP seguido de Giannis Antetokounmpo. A premissa de um elenco forte – que dificilmente vinha com força total – também atraiu muita gente para o lado Clipper da força. Enquanto isso, o Lakers, visto como LeBron, AD e nada mais, foi colocado para trás, como terceira força.

Estamos a duas semanas do início da temporada seguinte e o panorama é ironicamente invertido. O Lakers, recém-coroado campeão da bolha, é o maior favorito. Depois de sequer chegarem às finais de conferência, Clippers e Bucks não têm apenas as desconfianças para superar. O relógio já está correndo e quando esse ciclo, ou melhor, essa temporada, chegar ao fim, talvez não exista nem um nem outro como conhecemos agora. Os dois times vivem agora o outro lado da moeda: com expectativas altíssimas e riscos igualmente elevados, o tombo pode ser grande. E doloroso.

O caso do Clippers chama a atenção porque pode ser uma das trajetórias de ascensão e queda mais rápidas que já vimos. O front office fez a franquia se reposicionar da era Lob City para um time operário, que seduziu Paul George e principalmente Kawhi Leonard com a proposta de deixá-los mais perto de casa (os dois são da região de Los Angeles) enquanto brigavam pelo título com um elenco de suporte que dava o sangue toda noite. Mas a armadilha estava pronta: Kawhi assinou um contrato com apenas os dois primeiros anos garantidos, que se alinhou perfeitamente ao que PG já tinha assinado com OKC antes de ser trocado. 

A primeira temporada foi desastrosa para todos os envolvidos. Conforme o tempo foi passando, surgiram histórias de bastidores que davam conta de que o vestiário daquele time não era dos mais unidos. Os já falados “operários” – notoriamente Patrick Beverley, Lou Williams e Montrezl Harrell – teriam começado a se incomodar com as benesses concedidas às novas estrelas. 

As últimas informações (do The Athletic) são de que PG e Kawhi tinham autoridade para determinar locais e frequências dos treinos. As supostas mordomias de Kawhi são estarrecedoras. A franquia teria permitido que ele vivesse em San Diego, a cerca de 180 km de Los Angeles, o que volta e meia fazia com que ele se atrasasse para viagens. Além disso, Kawhi exigia um espaço privado para se preparar antes dos jogos e em alguns casos, para conseguir esse luxo, usava o vestiário feminino dedicado a funcionárias do staff do time. 

Em quadra, lesões e a aparente falta de química minaram qualquer continuidade. Más escolhas de Doc Rivers transformaram a série contra o Nuggets em uma das maiores amareladas da história. A derrota por 4 a 3 depois de estar liderando por 3 a 1 custou o cargo ao técnico e escancarou a dura realidade: o time que parecia tão forte e profundo só tem a certeza de contar com suas duas estrelas por mais um ano. E se não está legal com eles, imagina sem. 

Nesta offseason, o Clippers não se movimentou como uma franquia desesperada, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque, por exemplo, resistiu a dar dinheiro demais para Montrezl Harrell, cujas limitações defensivas foram determinantes para a eliminação na bolha. Ele acabou assinando com o Lakers. Por outro lado foi ruim porque, embora tenha trazido bons nomes, como Serge Ibaka e Luke Kennard e substituído Doc por Tyronn Lue, ainda não existe a peça que ao mesmo tempo seja um líder técnico e emocional da equipe.

Beverley é o espírito do time, mas a essa altura ele mais late do que morde. A franquia renovou com Reggie Jackson, na esperança de que ele possa ser um primeiro armador mais competente. (Narrador interrompe: Ele não será). Existe uma lacuna no setor de criação da equipe, já que Beverley, Jackson, Kawhi, George, Kennard, todos esses são bons criadores de jogadas…quando funcionam como peça secundária. 

Lou Williams é quem mais chega perto disso, mas ainda assim é um scorer por definição. Marc Stein, do New York Times, especulou que há expectativa na liga de que ele seja movido no decorrer da temporada, num movimento que pode aliviar os atritos entre as diferentes tribos dentro do elenco e talvez trazer esse criador principal que a equipe tanto precisa.

Seria importante, porque por mais forte que o time continue sendo, certamente não é o principal favorito. Mais um ano de insucesso pode fazer com que as duas principais estrelas mudem um pouco de ideia sobre o prazer de jogar na terra onde nasceram. PG já andou dizendo que quer se aposentar no Clippers. Kawhi, por outro lado, não falou muito sobre planos (não que seja novidade). A própria chegada dos dois a Los Angeles foi uma prova de como eles sabem manipular as peças no tabuleiro para conseguirem o que querem. Uma nova mudança não seria nada surpreendente. 

Um Clippers sem os dois seria um cenário desolador. A franquia entregou todo o futuro nas mãos do Thunder (Shai Gilgeous-Alexander e mais cinco escolhas de primeira rodada do draft). E o que parecia assustador para os adversários pode acabar como um pesadelo para a própria equipe. Tudo isso em dois anos.

Bucks a um passo do abismo: é despencar ou aprender a voar

FOTO: Jeff Hanisch/USA TODAY Sports

Em Milwaukee, a situação é parecida mas não é igual. 2020-21,  muito provavelmente, é tudo ou nada para a franquia. Um fracasso não vai simplesmente deixar a trajetória parada, mas representar muitos passos atrás. E uma tentativa de recomeço não vai ser nada fácil. Só que o Bucks caminhou muito para chegar até aqui. 

Em 2013-14, na primeira temporada de um certo grego com braços e pernas mais compridos que os do Dhalsim, o time fez a pior campanha da liga. Ficou com a segunda escolha no draft seguinte. Podia ter escolhido Joel Embiid, mas depois de Andrew Wiggins ir para Cleveland com a pick número 1, Milwaukee pegou Jabari Parker, que hoje mal consegue se manter na liga. 

Desde então, o time evoluiu aos poucos conforme Giannis Antetokounmpo cresceu como jogador e como homem nos Estados Unidos. Maturou sob o comando de Jason Kidd e com Mike Budenholzer virou de fato uma aberração. No embalo dele, um time com elenco profundo mas que tem Khris Middleton como segunda melhor peça foi o terror dos adversários na temporada regular e uma decepção nos playoffs. 

Aos (recém-completados) 26 anos, Giannis tem dois prêmios de MVP mas não sabe nem qual é o cheiro daquele bordado escrito “FINALS” na camisa. Depois de sete anos de serviços prestados pacientemente a uma franquia localizada em um dos menores mercados da NBA, ele agora tem a oportunidade de essencialmente escolher onde quer passar o auge da carreira: se é nesse mesmo lugar ou em outro, mais ensolarado ou estrelado. 

Antetokounmpo cumpriu a cartilha dos jogadores que estão prestes a ser agentes livres. Não falou nada de ruim da cidade e do time, disse que adora o lugar e não tem por que sair…mas já vimos esse filme. Recentemente, o grego andou falando que gostaria de ter LeBron, Kevin Durant e Anthony Davis junto a ele em Milwaukee, mesmo que isso signifique que ele não seria a estrela principal. Pode parecer um bom sinal para o Bucks, mas a real interpretação é de que ele deixou bem claro que topará o que for preciso para conseguir um título, no lugar onde isso for mais viável. Lealdade não deve ser o norte principal dele. 

Giannis tem até a véspera do início da temporada, dia 21, para assinar uma extensão de contrato e tranquilizar o pessoal em Milwaukee, mas a julgar pela demora, não parece que vai fazer isso agora. 

Pelo menos nos últimos dois anos, para buscar o sucesso, Milwaukee tentou também agradar Giannis. Acontece que para ser vencedor isso não é suficiente. Nos playoffs, jogadores que eram confiáveis para ele na temporada regular deixaram de ser. Fórmulas que eram feitas para maximizar os atributos dele ficaram expostas diante de adversários mais bem preparados. Toronto num ano e Miami no outro montaram muros que não pararam, mas combateram Giannis com eficiência, enquanto o resto do time não sabia muito o que fazer.

Para esta temporada, Milwaukee foi atrás de Jrue Holiday, um dos mais cobiçados caras para serem a segunda ou terceira melhor opção. Adiciona uma ótima defesa de perímetro e individual a um time que já era muito forte usando uma defesa coletiva que afunilava os ataques adversários para o garrafão. Holiday é um criador e pontuador mais incisivo do que Eric Bledsoe, mas continua não sendo o nome que você quer com a bola na hora decisiva. É um cara no qual você confia, mas prefere que esteja em outra função. 

A franquia tentou fortalecer o elenco preenchendo uma das lacunas – a de arremessadores realmente confiáveis na hora H – trazendo Bogdan Bogdanovic de Sacramento. Era alguém que Giannis admirava. Porém, os times foram apressadinhos demais e agora são investigados por tampering, enquanto Bogdanovic já superou tudo e foi para Atlanta. Ele queria ir para Milwaukee, mas segundo o The Athletic, muito porque desejava jogar com George Hill, que seria enviado na troca que nunca aconteceu. 

O reforço que “sobrou” mesmo, Holiday, eleva o teto e o piso de Milwaukee, mas não coloca a equipe como favorita. Ainda não se sabe se Giannis usou as derrotas como motivação para melhorar o jogo de média e longa distância e se Budenholzer entendeu que um jogo de basquete é vencido por quem faz mais pontos e não quem termina a partida mais descansado para a próxima. Esses seriam passos mais fundamentais para fazer o time ser de fato favorito.

Assim como em Los Angeles, se mais uma temporada termina sem avanços concretos, Giannis pode ir parar bem longe de Wisconsin em 2021. E o que vai restar para o Bucks é juntar os cacos e começar não do zero, mas do menos um. Na troca por Holiday, a equipe enviou Bledsoe, Hill e mais três escolhas de primeira rodada. 

É curioso ver onde Bucks e Clippers estão agora, depois de um ano em que Giannis se autocoroou rei em uma partida contra o Lakers e o Clippers provocou todo mundo antes mesmo de justificar em quadra essa marra toda. LeBron mesmo se disse surpreso de ver o time eliminado tão cedo depois que Beverley e cia falaram tanto ao longo do ano. Damian Lillard teve um prazer especial em vê-los eliminados.

Agora, enquanto o Lakers observa seus supostos principais rivais passarem a temporada toda suando frio, eles próprios têm a tranquilidade de pensar nos próximos passos enquanto tomam uma taça de vinho. No último ano, a urgência de um LeBron que corre atrás de MJ acabou sendo a melhor aposta.  Resta ver se os adversários deles, Bucks e Clippers, funcionam melhor sob pressão também. Façam suas apostas. 

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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