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Enfim, qual o valor de Russell Westbrook?

FOTO: Mike Ehrmann/Getty Images

Uma das sequências mais icônicas de Friends é quando Ross compra um sofá e dispensa o serviço de entrega para que ele mesmo leve o produto para casa. Chegando lá, ele vê que, mesmo com a ajuda de Rachel e Chandler, é impossível subir com o sofá pela escada. Seja qual for a posição que eles tentem, ele não encaixa. Não tem esforço que resolva a situação

Essa cena me fez lembrar de Russell Westbrook e o contrato dele. Com a informação de que ele quer zarpar de Houston o quanto antes, temos visto como é difícil movê-lo, por mais ginástica que se faça. Chega a ser melancólico se nos dermos conta de que se trata do MVP de 2016-17. Mas como as coisas chegaram a esse ponto? Qual o valor de Russ na NBA atual?

O processo aconteceu de forma rápida mas não completamente inesperada. Já faz tempo que se sabe que o estilo de jogo de Westbrook é muito dependente do vigor físico e que se o corpo dele cedesse um pouquinho que fosse, a produtividade estaria ameaçada. 

Russ teve a fama de Wolverine nos primeiros anos de carreira, quando subiu ao estrelato pela forma insaciável como disputava cada jogada em cada partida, raramente ficando de fora de um jogo. Nos playoffs de 2013, na série contra o Houston Rockets, uma jogada boba contra Pat Beverley iniciava um período de tormento para o armador.

Depois disso, Westbrook passou por três procedimentos no joelho em menos de um ano. Ele retomou o nível e até superou, como foi visto na campanha de MVP da liga, depois da saída de Kevin Durant. Mas depois de cinco anos livre de maiores problemas, Russ passou por novo procedimento antes da temporada 2018-19 e novamente antes de 2019-20. Só os médicos podem dizer o tamanho do impacto que eles tiveram na performance do armador, mas os números ajudam a escancarar que houve estrago, sim.

Westbrook sempre foi conhecido pela explosão. Vejam esse delírio de atleticismo da temporada 2014-15:


Por outro lado, arremessar de média e longa distância sempre foi o calcanhar de aquiles dele. O melhor aproveitamento na carreira de Westbrook da linha dos três pontos foi de 34,3%, justamente na temporada de MVP. Só que esse número já é abaixo da média da liga, que costuma ficar em torno dos 35%. 

No entanto, Russ nunca pareceu se importar em balancear virtudes e fraquezas, seja investindo mais no que fazia bem ou se aprimorando no que fazia mal, tentando achar um equilíbrio. Mesmo sendo ele próprio o maior conhecedor de seu mau arremesso longo, continuou dedicando boa parte do seu jogo a disparar bolas de três. 

De 2016-17 a 2019-20, em 597 oportunidades um jogador chutou ao menos 200 bolas de três em uma temporada regular. Russ fez isso em todas as quatro temporadas. Eis as posições que cada uma das últimas três temporadas dele ocupam nessa lista, pelo critério de aproveitamento:

582º lugar – Russell Westbrook em 2017-18: 29,8%
584º lugar – Russell Westbrook em 2018-19: 29%
595º lugar – Russell Westbrook em 2019-20: 25,8%

Além disso, Westbrook mantém o mau hábito de tentar resolver tudo, centralizando as ações. Na última temporada, 7 jogadores tiveram média de pelo menos 20 arremessos por jogo. Westbrook foi o pior deles em effective field-goal. Expandindo o escopo para as últimas quatro temporadas, entre esse mesmo grupo dos arremessadores de grande volume, as performances de Westbrook estão todas lá embaixo no mesmo critério. No último ano, a média da liga foi de um effective field-goal de 52,9%.

Essa imagem acima na verdade é uma isca para outro dado alarmante. Veja de novo e você vai perceber que o armador arremessou mais do que James Harden no ano passado! Podemos achar monótono o estilo de jogo do Barba, mas se tem uma coisa que ele sabe fazer é pontuar de forma eficiente. Ele NÃO deve ter um companheiro de time que arremessa mais do que ele.  

Westbrook, porém, ainda faz muitas coisas bem e o Rockets na realidade ajudou a destacar isso. O aproveitamento da linha de 3 foi pífio? Foi, mas com 3.7 tentativas por jogo, Russ fez o nível de delírio pela bola longa baixar ao menor patamar em sete anos. Mike D’Antoni, inteligentemente, passou a usá-lo como um infiltrador, o que o tornou mais eficiente no geral. Russ aparece no top 5 de várias estatísticas de pontuação próxima à cesta: foi o terceiro em field goals e pontos na área pintada, o primeiro em média de infiltrações e novamente o terceiro em pontos de contra-ataque por jogo. 

Com isso, embora pareça paradoxal, o pior aproveitamento dele em bolas de 3 na carreira foi acompanhado pelo melhor aproveitamento em arremessos no geral. Isso porque finalmente alguém colocou nele a ideia de que menos pode ser mais. Russ voltou a ser um dos cestinhas da liga. 

Só que contexto importa. Nos playoffs, voltamos a ver Westbrook assumindo o controle desnecessariamente (Harden também se escondeu, é verdade). Voltamos a ver Russ entrar em joguinhos mentais com adversários que pareceram ocupar espaço demais na cabeça dele. Ele falou – e se deu mal – quando enfrentou Ricky Rubio em 2018 e Damian Lillard em 2019, e em 2020 foi mais fundo ainda. Caiu em provovação de quem nem estava jogando. No caso, o irmão do Rajon Rondo.

Mas o pior de tudo não é isso. Quando o The Athletic publicou que Westbrook queria sair de Houston, a informação é de que o armador não apenas achava que a cultura do vestiário do Rockets não era saudável, mas de que ele também queria voltar a ser O cara que controla as ações como em Oklahoma City.

Isso mostra como talvez Westbrook não tenha aprendido tanto assim em Houston. Como talvez ele nunca tenha pensado na possibilidade de precisar melhorar outras partes do jogo dele que o ajudariam a suportar uma queda na vigor físico. Como talvez ele ainda não tenha percebido que as evidências mostram como ele estará mais próximo de um título da NBA se aceitar ser o fiel escudeiro de alguém e não o salvador da pátria que o adotar. E falo isso sendo um grande fã dele, que sempre admirou esse jeitão “do contra” dele.

É aí que voltamos ao dilema do início do texto. Qual o valor de Westbrook? O preço para se ter o camisa 0 nós já sabemos: 41 milhões nessa temporada, 43 na próxima e 46 em 2022-23 (uma player option que eu du-vi-do que ele rejeite). Mas o que ele realmente vale?

Para começar, um contrato desse tamanho é difícil de mover simplesmente por ser MUITO grande. Além disso, os times sabem o que espera por eles: um jogador que não se encaixa em qualquer lugar numa NBA sedenta por espaçamento de quadra e que não se encaixa em qualquer vestiário por todo o status que adquiriu ao longo da carreira. Não à toa as opções são poucas e mesmo assim têm suas ressalvas. 

Charlotte já não parece ter nem espaço nem interesse, com as chegadas de Gordon Hayward e LaMelo Ball. Washington tem uma bomba-relógio na mão chamada John Wall, mas parece que Houston quer algo a mais por um dos contratos considerados piores que o de Westbrook. E o Knicks…bem, nunca se pode duvidar. Mas não seria exatamente um grande negócio.

O desfecho dessa história pode ser muito semelhante ao da cena de Friends. Depois de muito forçar e não conseguir subir com o sofá, Ross tenta devolver o produto na loja…cortado ao meio. Ele acaba se contentando com um vale-troca de 4 dólares. Talvez a resposta para a pergunta sobre o valor de Russ esteja aí. Falta calcular juros e correção monetária e adaptar para a realidade da NBA.

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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