Ir para conteúdo

Cada pequeno sucesso de um é uma conquista de todos

Foto: Divulgação / FCB

O ano era 2016 e eu estava cobrindo meu primeiro jogo de basquete como jornalista. Era uma etapa de Jogos Abertos de Santa Catarina em uma cidade do interior do estado e, depois de passar o dia em outras modalidades com uma câmera fotográfica e meu bloquinho, fui fazer o jogo com dois times da região, uma partida bem disputada e de clima amistoso entre os atletas. Fora de quadra, a torcida lotou o pequeno ginásio, apoiando seus atletas e colocando bastante pressão nos adversários e na arbitragem.

Infelizmente um grupo pesou nos xingamentos e dois eram os alvos principais: o primeiro árbitro da partida e o capitão adversário, ambos negros. “Levanta Vera Verão, não foi nada”, “a gente sabe porque você tá protegendo ele, juiz”, “tá com pena?! Leva o Lafond para casa”. Eu estava acompanhando tudo de perto e com aquela gana de um cotista recém formado em uma universidade federal… não fiz nada. Quis fazer, claro, mas me escondi atrás da câmera e continuei com as fotos e anotações. Até hoje me estranha a normalidade com que todos levaram a situação, a organização, a arbitragem, os outros torcedores, os alvos do xingamento e os atletas negros do time da casa. Talvez eles também estivessem indignados, mas deixaram passar como eu fiz.

Antes que a gente caia em regionalismos, aquele foi de longe o clima mais hostil dos 200 jogos que já cobri por aqui – e logo na estreia. Confesso que achei que passaria por aquilo mais vezes, afinal, Santa Catarina é o estado com menos negros do país (aproximadamente 19%), com a menor representação política negra do país com um deputado federal e um estadual, de casos famosos como o de células nazistas no estado, ao pouco falado feriado de 20 de novembro em Florianópolis, lei desde 2009, que nunca foi celebrado por ser julgada inconstitucional em uma ação proposta pelo sindicato dos lojistas. Tenho ciência dos problemas do estado, mas apesar disso tudo, é importante falar que a minha experiência no basquete catarinense tem sido bem diferente.

Isso ficou ainda mais evidente quando li o texto do Felipe Souza que abriu a Semana da Consciência Negra no Blog, da elitização dos clubes com suas restrições sociais e aquilo me trouxe muitos pensamentos sobre as dificuldades que as crianças, principalmente mais pobres, têm para se apaixonar pelo jogo.

Tudo começa no contato como espectador, pois a principal liga de basquete do mundo ficou sem transmissão em TV aberta por 18 anos (obrigado pelo retorno, Band) e ter as pessoas assistindo e falando é o que gera interesse na prática. Depois, é importante ter os espaços para praticar a modalidade o que requer a estrutura mínima de uma quadra, uma cesta e uma bola adequada. Parece pouco – e deveria ser –, mas é difícil encontrar lugares do país com quadras em cada bairro abertas à população. E não é com uma base fundada em clubes sociais que isso vai acontecer, principalmente como os descritos naquele texto.

Nesse ponto voltamos ao exemplo de Santa Catarina que mostra resultado ao massificar o basquete pelo estado, especialmente dos times que desenvolvem a modalidade em escolas e projetos sociais, pois fica evidente a participação maior de meninas e meninos negros. Além de desenvolver valores, saúde, disciplina, integração social e todos os benefícios já conhecidos do esporte, o basquete vai proporcionar oportunidades para muitos, mesmo que seja em outras carreiras.

Curiosamente, meu caso é o contrário, as minhas oportunidades me fizeram chegar ao basquete e aqui voltamos a falar de acesso. Foi tendo TV à cabo em casa que eu tive contato com a modalidade aos 17, me apaixonei pelas jogadas e pela história de luta de figuras como Bill Russell, Kareem, Hakeem, Stephon Marbury e outros, mas já era tarde demais para jogar. Quando entrei na universidade, fui para o lado do jornalismo esportivo mesmo sem ter pisado em uma quadra ou em um campo. E aqui fica uma reflexão: pois os poucos comentaristas esportivos negros que estão nos grandes canais são ex-jogadores, o que deixa as expectativas para jornalistas negros e negras ainda mais baixas.

Aos poucos surgiram as oportunidades, cobrir um campeonato aqui, escrever um blog ali, e consegui chegar a coordenador de comunicação da Federação do meu estado, por sorte, uma das mais estruturadas do país. Tudo isso com liberdade para desenvolver meu trabalho, manter meu cabelo black e me posicionar quando necessário.

Às vezes tem algumas situações incômodas como dar blocks em comentários durante as transmissões, um ou outro olhar desconfiado quando sou apresentado e uma vez um prestador de serviço sugeriu que eu cortasse o cabelo para “ficar melhor no vídeo”. Mas isso é pouco perto daquele olhar de admiração e irmandade que só uma minoria que ocupa espaços sabe como é, especialmente quando esse olhar vem dos adolescentes. É como se só a presença de um dos nossos abrisse uma gama de possibilidades que muitos nem faziam ideia.

Por isso estar em todos os espaços é essencial e uma arma poderosa para seguir nessa luta diária contra o racismo, com quedas, mas se levantando com a força e resiliência de Jorge Lafond, pois o sucesso de uma pessoa negra consciente se torna uma conquista de todas elas.

O TEXTO FOI PRODUZIDO POR:

Lucas Inácio é jornalista, tem 31 anos, nascido, crescido e formado em Florianópolis. Na profissão faz quase tudo. Nos esportes, assiste quase tudo. Viciado em rap e samba. Obs: pagode é Samba!

Felipe Souza Ver tudo

Sou o criador do site HSBasketballBR, Blog do Souza e fui co-criador do Live College BR. Fui o primeiro brasileiro a escrever sobre high school para um site americano, o D1Vision. Trabalhei para a Liga Super Basketball como repórter e assessor de imprensa. Também escrevi para os blogs como Jumper Brasil e TimeOut Brasil, tive textos publicados pelo Bala Na Cesta. Trabalho de Scout nas horas vagas e acredito que o estudo diário do basquete, me faz um profissional melhor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: