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Especial da Semana da Consciência Negra – Consciência e Representatividade Racial na NBA, NFL e no nosso dia a dia

Foto: Ted S. Warren/Associated Press; Rich Kane/Icon Sportswire, via Associated Press

Quando aceitei o convite do Blog do Souza, não imaginava que seria tão difícil. Difícil porque vem muita coisa à mente quando se fala da Consciência Negra e seu dia que é celebrado em 20 de Novembro .

Coincidentemente, tive uma discussão sobre representatividade no cinema americano e na presidência dos EUA no mesmo dia que aceitei o convite pra produção desse texto.

O irônico foi que, no debate realizado no famoso programa de troca de mensagens, os caucasianos, ainda que empáticos e solidários à causa, divergiam dos negros do grupo no tocante a futilidade da representatividade para com o público negro consumidor de um filme como Pantera Negra, por exemplo. Toda empatia e defesa da causa é aceita de muito bom grado. Mas em certas questões e em certos níveis, o lugar de fala deve ser respeitado. Lugar de fala esse, que nada mais é do que o termo usado por quem tem vivência (muitas vezes na pele, literalmente) sobre uma questão, quase sempre sendo uma situação de preconceito.

Escrevo isso no dia que o maior piloto da Fórmula 1 de todos os tempos, Lewis Hamilton (recorde de 94 vitórias, e contando e 35,61% de aproveitamento em GP´s disputados, outro recorde) conquista seu 7º título na carreira. Igualando o recorde de Michael Schumacher, e muito bem cotado para se isolar na liderança caso continue correndo e ganhe o 8º título. Aliás, adorei a pintura nova do capacete, Lewis. “Wakanda forever”!

Não tem como não focar aqui na questão esportiva. Afinal de contas, esse é um blog de basquete, não é mesmo?!

Na NFL, uma liga de 32 times, onde 70% dos atletas são negros, temos 3 técnicos e 2 General Managers pretos. É comum a narrativa que negros são melhores Running Backs ou Wide Receivers, enquanto brancos são melhores Quarterbacks.

Lamar Jackson, preto, Quarterback do Baltimore Ravens e atual MVP da liga, frequentemente tem que lidar com as críticas de não ser um Quarterback “protótipo”: que fica atrás de sua linha ofensiva lançando passes, ao invés de com sua agilidade e velocidade, ganhar jardas com as próprias pernas de vez em quando.

Esse estigma com Quarterbacks negros não é de hoje, como é dito por Warren Moon, Ex-Quarterback da NFL no vídeo: The State of the Black Quarterback”, do Player’s Tribune.

Esse errôneo discurso que os Quarterbacks negros confiam demais em seu atleticismo, são improvisadores e nem sempre inteligentes o suficiente para “ler” as brechas nas defesas adversárias e achar o melhor passe, é muito disseminado em diversas mídias.

De maneira velada e mascarada, sim. Mas ainda é algo que acaba criando um inconsciente coletivo. Como se improviso não fosse a arte de pensar rápido para se livrar de uma situação adversa, e a capacidade atlética não fosse um bônus numa das principais, se não a principal posição do esporte.

Não tem como falar de NFL e atletas negros, sem falar de Colin Kaepernick. Ex-Quarterback do San Francisco 49ers, Colin que disputou o Superbowl XLVII, e num jogo de pré-temporada em 2016, protestou contra a violência policial abusiva contra pessoas negras ajoelhando e não cantando o hino nacional.

Essa atitude gerou muita polêmica e controvérsia, enquanto o mesmo dizia que não iria se orgulhar de uma bandeira de um país que oprime o povo negro e pessoas de cor, sofria críticas agressivas e duríssimas da mídia e do então candidato à presidência Donald Trump.

Conforme o engajamento ia aumentando, a NFL, através de donos de times (nenhum negro) e managers então, foi inversamente minando a atitude, culminando com a rescisão de contrato de Kaepernick no início de 2017. Kaep, que hoje é um intenso ativista do movimento “BLACK LIVES MATTER”, (que sim, existe desde 2013) nunca mais teve chance na NFL.

Numa avaliação pessoal, Kaepernick teria sim um espaço na NFL. Contando que a maioria das equipes conta com 3 Quarterbacks em seu elenco. Mas virou um exemplo positivo pra comunidade negra nos EUA, ao custo provável de sua carreira de atleta.

Aí é que traçamos o paralelo com a NBA, uma liga conhecida por ter seus jogadores (81% negros) com muito mais voz ativa não só na comunidade, mas nos posicionamentos da mesma. Através não só da NBPA (National Basketball Players Association), que não só é uma voz importante na negociação de valores de direitos, teto salarial e atitudes dos atletas.

Muitos atletas participaram de protestos nas ruas, redes sociais e veículos de mídia. Principalmente em 2020, com a ebulição da crise de violência policial nos EUA. Os jogadores, alguns influenciados sim, por Kaepernick, perceberam que sem eles não há espetáculo…não há jogos. Culminando com a atitude sem precedentes de, durante os Playoffs na “bolha” de Orlando, na última temporada.

Jogadores de Bucks e Magic se recusarem a entrar em quadra, em protesto contra a violência policial sofrida por Jacob Blake (no estado de Winsconsin, onde fica a cidade de Milwaukee que sedia o Bucks), que o deixou em estado grave e sem o movimento das pernas. Esse protesto gerou uma reação em cadeia, adiando não só esse, como alguns dos jogos subsequentes, e após uma reunião entre todos os atletas que estavam na bolha, por muito pouco a temporada de 2019/20 não terminou ali.

Sabendo que na NBA os atletas possuem uma voz mais ativa do que em outras ligas americanas, me faz lembrar do código de vestimenta implementado em 2005, onde jogadores são proibidos de usar vestimentas associadas à cultura Hip-Hop. Medida essa que teria por argumento, a tentativa da liga de melhorar a imagem pública dos próprios jogadores, e consequentemente da liga em si. Após muitas reclamações dos atletas, os mesmos, com o tempo, passaram a aceitar e então despertar um lado até mais fashionista. Conseguindo se expressar de maneira mais sofisticada de elegante, sem perder sua individualidade.

Não posso deixar de lembrar, que numa liga onde a esmagadora maioria de atletas é negro, apenas 8 dos 30 técnicos e 6 General Managers são pretos. Dono de franquia? Só um. Michael Jordan, do Charlotte Hornets.

Falar de consciência negra no esporte, me faz ter uma autorreflexão. Eu, que por muito tempo da minha vida se não reneguei, deixei bem guardado numa “gaveta” a minha raça, origens e bagagem cultural, há alguns anos venho tentando criar, inflar e expandir essa consciência para quebrar o status quo que estereotipa os negros não só no esporte, como no mercado de trabalho em geral. E que por muitas vezes, afeta a autoestima e a realização de sonhos de milhões mundo afora.

Que o floreio nas atitudes, os protestos, o grito silencioso por atenção travestido de roupas e acessórios chamativos, a agressividade nas letras das canções, a exaltação exagerada e a arrogância disfarçada de mentalidade, não seja mais uma máscara pra se esconder, ou uma armadura pra se proteger do ambiente opressor e despótico em que muitos negros, atletas ou não vivem. Que sejam apenas expressões de seus talentos e arte.

O texto foi produzido por:

Merlin Calazans é Narrador Esportivo Freelancer, sendo narrador do FABR desde 2010. Narrou também Campeonato Brasileiro sub20, LBF e E-Sports. Produtor de conteúdo no Canal “Mas é Só um Jogo” (@masesoumjogo no Twitter e no Instagram e no Youtube) e Administrador e Produtor de conteúdo no “NFL da Zueira” (Twitter: @enefeudazueira, Instagram: @nfldazueira) a maior página de humor sobre Futebol Americano no Brasil.

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