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Especial Semana da Consciência Negra – O basquete brasileiro não é lugar de preto

Essa semana o Blog do Souza apresenta aos leitores um especial sobre o dia da Consciência Negra (comemorado no próximo dia 20). Serão 5 textos sobre o tema, 3 convidados e um especial que deve ser lançado no dia 20 nas redes sociais.

Esperamos que essa semana faça as pessoas refletirem sobre o problema racial do nosso país e do nosso esporte. E antes de entrarmos no tema principal do título do texto, é bom explicar como funciona a classificação feita pelo IBGE.

Nas pesquisas do Censo feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é apresentada uma relação com as cinco nomenclaturas (pretos, pardos, brancos, amarelos e indígenas) utilizadas e as pessoas precisam indicar a qual cor pertencem. Segundo o pesquisador José Luiz Petruccelli, cada pessoa tem liberdade para dizer a sua classificação. Ele explica que pretos normalmente são as pessoas que se enxergam com a cor mais escura. Mas em relação aos pardos não há consenso. “Normalmente são as pessoas que se classificam como ‘morenas’ ou ‘mulatas’, mas isso depende na região”, afirma.

De acordo com o pesquisador do IBGE, a presença de pretos é menor no Brasil, por isso existe a tendência em reunir pardos e pretos em um grupo de negros. Ele diz que apenas para as pesquisas o termo não se aplica, mas que na convivência social é válido agrupar as duas nomenclaturas. Para o representante da Unegro (União de Negros), ocorre também a resistência em assumir a cor preta e muitos preferem ser incluídos na lista dos pardos – que seria uma forma intermediária. “A identidade do negro é muito maior, por isso defendemos a utilização desse termo”, afirma.

Agora que você está ciente de como funciona a classificação étnica feita pelo IBGE, esse é o momento de entrarmos na ideia inicial do texto.

Quem acompanha o basquete nacional de perto, sabe que muitos times que atuam em campeonatos nacionais são oriundos de clubes sociais e esse é um ponto que me chama muita atenção.

Porque a maioria desses clubes são elitistas, com um valor alto para se associar e que obviamente dão preferência aos filhos desses associados a vagas em equipes criadas dentro do clube.

A chance de um jovem preto sair da periferia e conseguir uma vaga em um clube grande de basquete, é muito menor do que por exemplo se ele tentasse uma vaga em um time de futebol.

Isso porque os times de futebol normalmente buscam jovens talentos em diferentes regiões do estado e até mesmo do Brasil. Dando assim, maior oportunidade para jovens pretos conseguirem alcançar o seu sonho profissional.

No basquete, o caminho é inverso. O preto que vem da periferia é praticamente ignorado, deixado de lado como se não existisse. Uma grande ironia para um esporte que tem pretos como ídolos de muitos jovens, como por exemplo: LeBron James, Michael Jordan, Kobe Bryant e entre outros.

Bem verdade, que no Brasil o maior nome do basquete nacional é o Oscar Schimidt. É…talvez não seja uma grande ironia, né?!

Talvez você esteja se pensando agora que: “poxa, mas temos vários jogadores pretos jogando em grandes clubes no Brasil.” Se você pensou nisso, você está correto. Mas vamos nos questionar mais uma vez.

O que eles tiveram que passar para chegar onde estão hoje? Muito provavelmente, 90% deles tiveram ajuda de algum treinador ou amigo para conseguir uma vaga em testes nesses clubes. Testes esses que normalmente não são divulgados para “fora” do clube e quando são abertos para o público, é cobrado um valor de inscrição.

Então, veja a dificuldade que é imposta para esse atleta ter uma chance em um clube. Sem contar que normalmente esses garotos não tem um bom tênis, vem de família humilde e passam apertos financeiros para conseguir manter um sonho.

Por sinal, imagine a quantidade de jovens que não viram jogadores porque a família não tem dinheiro para arcar com os custos de jogar em um clube. Pois 200 reais no mês, faz uma falta absurda para quem vive com um salário mínimo neste país.

No fim, muitos pais precisam escolher entre colocar comida na mesa ou investir no sonho do filho ou filha. Se você tivesse nessa posição, o que você escolheria?

Depois do atleta conseguir entrar em um clube, o desafio de ser preto no basquete não acabou. Ele ainda sofre racismo ou presencia colegas de profissão passarem por situações absurdas nesses clubes elitistas.

Pois é, isso infelizmente ainda acontece e separei aqui duas dessas situações:

“Parte do time infanto-juvenil do Tietê –cinco negros e dois brancos– tentou sair do ginásio para ir à lanchonete do Paulistano. Um segurança, que o clube identificou como Enis Toledo da Silva, os impediu.

Segundo Alexandre Kovacs, reserva do Tietê, o segurança virou-se para ele –um dos dois brancos do grupo– e disse: “Se você quiser, pode passar.”

Esse relato foi postado pela Folha de São Paulo em 1994. Muito tempo né?

Mas somente em 2005, o clube ACEITOU o primeiro sócio negro, o meio-campista Mauro Silva, campeão mundial de futebol em 1994.

Outro caso infeliz, aconteceu no Rio de Janeiro. Em que o jogador Nesbitt (que atuava pelo Flamengo na época), foi chamado de “macaco” pela torcida do Botafogo.

Infelizmente essas situações acontecem com uma certa frequência, mas a maioria delas não são expostas.

É difícil dizer isso, mas o basquete brasileiro parece não gostar de ter pretos em destaque.

Espero de coração que isso mude com o passar do tempo e que esse meu texto seja tratado como algo para se esquecer. Porém, é importante colocar o dedo na ferida e nos questionar a real situação da modalidade que tanto amamos.

O importante é que o primeiro passo estamos dando, que é debater sobre o tema. Torço para que a partir de agora, possamos correr para resolver esse problema tão grave do nosso esporte.

Felipe Souza Ver tudo

Sou o criador do site HSBasketballBR, Blog do Souza e fui co-criador do Live College BR. Fui o primeiro brasileiro a escrever sobre high school para um site americano, o D1Vision. Trabalhei para a Liga Super Basketball como repórter e assessor de imprensa. Também escrevi para os blogs como Jumper Brasil e TimeOut Brasil, tive textos publicados pelo Bala Na Cesta. Trabalho de Scout nas horas vagas e acredito que o estudo diário do basquete, me faz um profissional melhor.

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