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Há 30 anos, um jogo entrava para a história. E logo depois para o anonimato

FOTO: Tim DeFrisco/Getty Images

Quantas vezes no esporte deixamos de presenciar algo inédito simplesmente porque não foi preciso chegar a esse ponto? A famosa “tirada de pé”. Em alguns casos, mesmo pegando leve para não humilhar mais, o lugarzinho na memória está reservado. O 7 a 1 é um desses casos. Na NBA, esperamos até hoje pelo dia em que algum time vai alcançar os 200 pontos em um jogo. Poderia ter acontecido em 10 de novembro de 1990, na partida entre Phoenix Suns e Denver Nuggets. Mas um dos times, o Suns, diminuiu o ritmo e fez “só” 173 pontos. Entrou para a história mesmo assim, só que lá permanece sem ser muito revisitado.

É difícil a missão de reconstruir esse duelo. Só encontrei uma foto, no site do Suns. A imagem que usei na capa desse texto é na verdade um registro aleatório do armador Michael Adams, do Nuggets, durante a temporada 1990-91. É possível achar uma breve reportagem do N.Y.Times sobre a partida no acervo deles e não muito mais coisa. Vídeo? Esquece. 

Mas enfim, o que aconteceu naquela noite? Os 173 pontos de Phoenix são, até hoje, a maior pontuação de uma equipe em uma partida que não tenha ido à prorrogação. Para ser justo, em 1959, o Boston Celtics anotou os mesmos 173 contra o Minneapolis Lakers. Mas o basquete era tão diferente que nem dá para traçar paralelos.

Bom, outros dois recordes não têm discussão: os 57 pontos do Suns no segundo quarto são até hoje a maior pontuação nesse período de um jogo. Mas o mais impressionante é outro número: naquele dia, Phoenix foi para o intervalo tendo anotado 107 pontos!

Para se ter uma ideia, a marca mais próxima disso é de 92 pontos, alcançada pelo Golden State Warriors em um jogo contra o Chicago Bulls, em 2018. O engraçado é que nesse jogo também tivemos um recorde que poderia ter ido mais longe se a partida já não estivesse resolvida (ou se alguém se importasse com isso, né). Klay Thompson converteu 14 bolas de três, mas só jogou 26 minutos. Em 1990, depois de vencer o primeiro tempo por 40 pontos de diferença, num ritmo que o levaria a 214 pontos no total, o Suns anotou só mais 66. Verdadeiros cavalheiros.

Navegar pelo oceano de materiais disponíveis sobre esse jogo – o boxscore e o relato do New York Times – nos faz perceber coisas incríveis. 

Nesse primeiro tempo insano do Suns, o time acertou 43 arremessos e registrou 33 assistências. Ao final da partida, cinco jogadores diferentes da equipe anotaram pelo menos 20 pontos – liderados pelo novato Cedric Ceballos, que fez 32. Outros três alcançaram dígitos duplos também. Só que o cestinha da partida foi do Denver: Orlando Wooldridge, com 40. 

pace das equipes chegou a absurdos 137.7. Hoje, com toda a ênfase em acelerar o jogo, a média de uma partida é de 100.3 posses de bola (até por isso as estatísticas mais eficientes são medidas a cada 100 posses). 

Mas mesmo diante de tantos números altos, o que mais me impressionou foi um dado bem baixo. Na verdade, nulo. Vejam como o Suns chegou aos 173 pontos:

Isso mesmo, sem acertar um mísero arremesso de três pontos! Os caras chutaram 104 vezes, mas só duas da linha de três. 

Denver Nuggets de 1990-91 foi um time histórico, mas não de um jeito bom

A verdade é que, por mais que o Suns é que tenha o nome registrado nos recordes da NBA, o “culpado” disso é o Nuggets. Essa história certamente merece ser contada mais a fundo, mas por hoje dá para explicar por alto. 

Antes daquela temporada, além de dar um fim à passagem memorável de Alex English, a franquia apostou em um nome para redesenhar completamente o estilo de jogo do time: Paul Westhead. Ele foi técnico do Lakers quando a equipe conquistou o título da NBA na temporada de estreia de Magic Johnson. Depois de cair em desgraça com Magic, perdeu espaço na franquia e na liga e reapareceu com destaque quando implementou um estilo diferentão pela equipe da pequena universidade de Loyola Marymount. 

Foi um dos primeiros registros do chamado esquema Run n’ Gun, que encorajava os jogadores a acelerar o ritmo de jogo, arremessando ainda no começo da posse de bola. Westhead teve um sucesso relativo no basquete universitário e foi escolhido por Denver para testar o experimento na NBA.

Técnico Paul Westhead tentou revolucionar a NBA em 1990-91. FOTO: Tim DeFrisco/Getty Images

O resultado foi desastroso. O Nuggets teve, sim, o ataque com maior média de pontos da liga (119.9), mas em termos de eficiência ofensiva, Denver era um dos piores times (21º entre 27 equipes). Já a marca defensiva é a pior da história da NBA até hoje: 130.8 pontos sofridos por jogo. 

O time teve a pior campanha da liga naquele ano, com 20 vitórias e 62 derrotas. E pasmem: ao longo de 82 partidas, a equipe não sofreu menos do que 104 pontos nenhuma vez. 

A derrota para o Suns foi a sexta seguida para começar a temporada. Em uma semana, o time carregava uma série de recordes nas costas. Isso quando não estabeleceu a marca e superou logo em seguida. Por exemplo, três dias antes dos 107 do Suns, foi o Nuggets quem registrou o primeiro tempo mais pontuador da história até então, com 90 pontos contra o San Antonio Spurs.

No jogo de abertura da temporada, diante do Warriors, os dois times combinaram para a maior pontuação de um jogo sem prorrogação até hoje: 320 pontos, resultado da soma dos 162 de Golden State com os 158 de Denver.

Diferentemente do que acontece com o jogo contra o Suns, é possível encontrar vídeos dessa partida no YouTube. Mas um alerta: é tão surreal que talvez você não aguente ver mais do que dois minutos.

Westhead era partidário da defesa quadra-inteira e do arremesso em até 6 segundos. Mas se essa tática não é bem treinada, o que se vê é a quadra virando uma avenida para adversários rápidos, que conseguem bandejas e arremessos livres a rodo, enquanto no ataque fica praticamente impossível compensar o estrago, por mais despreparada que esteja a defesa adversária. 

Esse ritmo louco empregado por Westhead é outro dado que coloca o Nuggets daquele ano no topo da história da liga. Foram 113.68 posses por jogo. Esse é o número que ajuda a explicar todos os outros: o Denver não era necessariamente a pior defesa de todos os tempos, ou um ataque tão especial assim. Ele só jogava num ritmo insustentável. 

A pior campanha de 1990-91 não garantiu ao Nuggets a primeira escolha no draft de 1991. A franquia caiu para a quarta posição e selecionou o pivô Dikembe Mutombo. Já na temporada seguinte, ele acabou forçando a mão de Westhead e o pace do time voltou a patamares mais aceitáveis. Westhead acabou demitido e nunca foi mais técnico de um time na NBA.

Chego ao final do meu texto lembrando que quem não viu o jogo que quase registrou a primeira pontuação bicentenária da NBA provavelmente não vê mais. Mas para dar uma ideia, pega o Rockets x Wizards da temporada passada, dá uma acelerada, tira um pouquinho de defesa e vê no que dá.

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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