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EUA x BRA: Diferenças na relação estudo-esporte

Foto: Divulgação/University of Alabama

Quando acontece a cerimônia de abertura das Olimpíadas, o brasileiro acredita que aquele grupo seleto de atletas, os melhores do país, vão conquistar inúmeras medalhas. Na Rio 2016, conquistamos 19, ficamos na 13ª posição no quadro de medalhas e conquistamos nosso melhor resultado na história da competição. Mas a pergunta que fica, sempre que chegamos no último dia das Olimpíadas, é: por que não conseguimos mais? A resposta é simples: o Brasil não investe no esporte. Mas essa resposta vai além: também não investimos na educação. Nesta matéria, trago para vocês a diferença entre Brasil e Estados Unidos quando o assunto é valorização desses dois setores.

Para situar você, leitor, nos Jogos Olímpicos Rio 2016, a seleção norte-americana de basquete feminino, que conquistou a medalha de ouro em cima da Espanha, por exemplo, contava em seu plantel com 12 atletas, todas com diplomas universitários. E esses dados não param no basquete, reflete em outros esportes também, como Saltos Ornamentais, Esgrima, Hóquei sobre grama, Vôlei, Remo, Triatlo e Polo Aquático.

Foto: Emmanuel Dunand/AFP

Nos Estados Unidos, a Educação é uma porta de entrada para o futuro profissional no esporte. Os pais investem no esporte pensando em bolsas de estudo, para que seus filhos consigam ter uma educação de melhor qualidade – sem precisar investir financeiramente nisso. Dessa forma, a criança/adolescente, além de um estudo de ponta, ainda disputa grandes competições universitárias, como a NCAA, e ao apresentar bons rendimentos, pode entrar no mercado do esporte profissional.

No Brasil, esse vínculo quase não existe. A prática esportiva é vista pelos pais mais como um fator saúde e até de interação com outras crianças. O pensamento não consegue ir além, porque poucas instituições brasileiras valorizam de fato o esporte, oferecendo bolsas para atletas desde o Ensino Fundamental até a Universidade. 

Se o atleta chegar no mercado profissional, foi por abdicar de coisas que poderia ter vivido, não porque se destacou em campeonatos universitários. Dessa forma, os pais não conseguem visualizar que a prática esportiva pode ser um impulsionador da educação. 

BENEFÍCIOS DOS DOIS LADOS

Estudos feitos pela Florida National University já apontam que o mundo esportivo e o mundo acadêmico devem andar juntos e que praticar esportes traz diversos benefícios para o cognitivo dos estudantes, mas e ao contrário? Entrevistei a psicóloga esportiva e clínica, Rosângela Vieira, que aponta os benefícios do estudo de Ensino Superior na vida do atleta de alto rendimento: 

“O que percebo entre os atletas que tem contato com um Ensino Superior é que na hora das competições, dos treinamentos, eles apresentam tomadas de decisões mais assertivas. Além disso, eles apresentam um nível de concentração mais próxima do ideal, conseguem ter um processo de observação mais sensível em relação àquilo que o técnico está falando, conseguindo colocar o teórico em prática de forma mais rápida. Geralmente é um atleta que toma decisões mais assertivas, pois ele vai usar, muitas vezes, a reflexão antes de agir. Todos esses estímulos vem pelo fato deles viverem uma experiência fora do esporte”, disse. 

ESTUDO NA PRÁTICA

E as dificuldades de unir o esporte de alto rendimento aos estudos? Treinos, jogos, viagens, competições e cansaço. Esses são alguns dos empecilhos encontrados para quem precisa se dividir entre esses dois mundos e isso acaba refletindo no rendimento dos atletas na sala de aula. O estudo da Florida National University também traz dados de que, quando o atleta participa de todos esses “eventos”, as coisas podem ficar complicadas. 

Foto: Reprodução/Instagram

Para a ala Leila Zabani, formada em Ciências do Esporte pela UNICAMP, o tão sonhado diploma veio devido a toda a ajuda que ela recebia na faculdade.

“Por ser um curso voltado para o esporte, meus professores eram bem compreensíveis, me ajudaram muito. Compreendiam minha rotina, que precisava faltar para treinar, para jogar, muitas vezes fiz provas em datas diferentes dos outros alunos. Se não fosse o auxílio dessas pessoas e de amigos que me passavam as matérias, eu não teria conseguido. Eu ia para a faculdade de manhã (na cidade de Limeira), voltava para casa para almoçar, ia treinar no clube (em Americana) e voltava para faculdade (em Limeira). Acabada, né? Não era fácil”, disse.

A ala/armadora Alana Gonçalo, hoje no La Salle Melilla, da Espanha, formou-se em Human Environmental Sciences pela University of Alabama, vivendo intensamente essa experiência e valorização do esporte e da educação nos Estados Unidos. Para ela, a rotina também era intensa, mas de uma forma diferente da vivida por Leila:

“A rotina era sem dúvidas cansativa, muito treino e muito tempo estudando. Não sobrava muitas horas para lazer. Quando não estava em quadra, eu estava estudando. Para os atletas, existia um tutoring, onde precisávamos passar pelo menos uma hora estudando com um professor particular. Tudo era bem planejado pelo coordenador de educação de cada esporte. Eles tinham reuniões quinzenais para falar de horários, notas, planejamentos de viagens e tudo mais”, disse. 

Quando questionada sobre a diferença dessa valorização entre os dois países, ela foi categórica.

Nos Estados Unidos, esporte e educação andam juntos e isso acontece desde muito cedo. Não começa na universidade, começa no primário. No Brasil, as pessoas no geral acham que você tem que escolher um ou outro em vez de tentar conciliar. É possível sim jogar em alto nível e estudar”, completou.

Para Leila, essa falta de vínculos é o que mais atrapalha na hora do atleta decidir se, de fato, quer investir na carreira acadêmica. 

“No Brasil, nossa base é clubista, totalmente separada da educação, então muita gente não dá continuidade aos estudos porque não consegue conciliar as duas situações. Hoje em dia temos algumas instituições que estão dando bolsas para atletas e isso é muito bom. Não é toda universidade que aceita as faltas e não é todo clube que entende que você quer estudar. Aqui a gente depende muito da boa vontade das pessoas que estão com você, tanto dos treinadores, quanto dos professores. Se não tiver isso, dificulta”, completou.

Jéssica Maciel Ver tudo

Jornalista, trabalhando com cobertura de basquete feminino desde 2013. Amante de esportes!

6 comentários em “EUA x BRA: Diferenças na relação estudo-esporte Deixe um comentário

  1. Parabéns, Jéssica, pela reportagem!
    Para a sociedade (pessoas/ clubes/escolas) m lhotse precisa saber como acontecem as coisas em outros lugares.
    Mais textos esperamos de vc!

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  2. Parabéns querida hoje vejo o qto Letícia dava duro para conseguir conciliar a faculdade de engenharia e o basquete ja está formada e bem feliz com a profissão escolhida.

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