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Mesmo não estando entre nós, a lendária Kim Perrot mantém vivo o legado dos Houston Comets

Foto: Nathaniel S. Butler/NBAE via Getty Images

Quando você chega ao Toyota Center, há uma escultura do grande Hakeem Olajuwon do Houston Rockets fora da arena. Lá dentro, no nível superior, você pode aprender sobre a história da franquia e os jogadores que ficaram famosos com a camisa da franquia. E quando você inclina sua cabeça para as vigas, você encontrará faixas homenageando as lendas do time.

É nessas vigas que você também encontrará banners pertencentes ao Houston Comets, a primeira dinastia da WNBA. É um dos poucos lugares onde a próxima geração de fãs de Houston podem aprender sobre a franquia feminina, que lotou arenas e controlou a cidade enquanto os Rockets afundavam na mediocridade no final dos anos 90.

Enquanto á maioria dos torcedores de hoje da WNBA assistem os legados das franquias tetracampeãs da liga – o Minnesota Lynx e o Seattle Storm, que garantiu seu quarto título na noite de terça-feira após vencer o Las Vegas Aces – esta nova geração de fãs provavelmente não sabem quem foi a primeira equipe que dominou o campeonato.

Já se passaram 20 anos desde que o Comets levou para a cidade de Houston o seu quarto título da WNBA consecutivo. Já se passaram 12 anos desde que a franquia foi dissolvida, deixando o Rockets como o único time profissional de basquete na área.

Mesmo não tendo mais o time feminino disputando o principal campeonato dos Estados Unidos, não quer dizer o Comets tenha sido esquecido. Na verdade, ainda existe um pedacinho da equipe em um local apenas 10 minutos da arena.

Localizado no segundo andar do MD Anderson Children’s Cancer Hospital (Houston), está o Kim’s Place. Um centro recreativo que leva o nome da armadora Kim Perrot, que morreu de câncer em 1999 aos 32 anos. Por mais de 15 anos, o espaço serve de atendimento para milhares de pacientes adolescentes e jovens adultos.

É através da história de Perrot que o legado dos Comets continua a ser contado em Houston.

“Há uma possibilidade de que nossa história desapareça”, disse Tina Thompson, ex-colega da Perrot, “mas ainda assim o Kim’s Place é um dos poucos lugares que contam uma história que sempre deve ter a oportunidade de ser contada”.

Entrada do Kim’s Place

Antes de chegar em Houston, Perrot foi uma das cestinhas do basquete universitário defendendo a University of Southwestern Louisiana,

Ela liderou o país na pontuação em sua temporada como sênior, tendo uma média de 30,1 pontos por jogo e ainda continua sendo a líder de todos os tempos da universidade em pontuação, assistências e roubos de bola. Ela jogou no exterior por seis temporadas na França, Alemanha, Suécia e Israel. Depois de não ser draftada em 1997, ela foi a um teste que a franquia realizou.

Van Chancellor (treinador da época) acreditava que Perrot tinha apenas 1,50 m e não pensava em contar com ela. Porém, foram as jogadoras Swoopes, Cooper e Thompson que fizeram lobby por ela e finalmente convenceram o Chancellor a selecioná-la.

Thompson falou sobre aquela decisão de apoiar a Kim: “Foi uma decisão unânime”.

Embora Perrot tenha deixado sua marca como artilheira no início de sua carreira profissional, ela desenvolveu uma reputação no Comets por sua disposição na defesa. Em 1998, Perrot terminou em segundo lugar na liga em roubos de bola, em quarto lugar na liga em defensive win shares e em segundo atrás de Teresa Weatherspoon na votação de melhor Jogadora Defensiva do Ano.

No final da temporada de 98, ela se tornou uma das armadoras mais completas da liga, com médias de 8,5 pontos, 4,7 assistências, 2,8 roubos de bola e 3,1 rebotes por jogo.

“Ela simplesmente jogou com muita energia, é o que eu realmente me lembro dela – o quão duro ela jogou”, disse o técnico do Phoenix Mercury, Sandy Brondello, que jogou contra o Perrot em 1998. “Ela fazia tudo em quadra. Excelente jogadora defensiva. Empurrando a sua equipe nos dois lados da quadra. Seu espírito competitivo e sua vontade de vencer – isso é o que mais me lembro.

Foi em 22 de fevereiro de 1999, que infelizmente a Perrot anunciou que havia sido diagnosticada com câncer de pulmão.

Testes feitos no MD Anderson revelaram que o câncer de pulmão também se espalhou para o cérebro dela.

Em um intervalo de semanas, Perrot deixou de lutar por cada jogada em quadra e começou a lutar por sua vida.

“Eu sempre tive que lutar. E esta é apenas mais uma batalha”, disse Perrot durante sua entrevista coletiva em 1999.

“Não aceitamos bem”, disse Thompson ao saber do diagnóstico de Perrot. “É provavelmente uma das notícias mais difíceis que já recebi na minha vida.”

“Todos nós viemos de circunstâncias em que nossos sonhos com o basquete deram certo mais cedo. Kim meio que lutou por isso por muito tempo. Essa oportunidade para ela mudou sua vida. Isso meio que foi tirado dela quando ela estava apenas começando e isso é uma daquelas coisas da vida que eu não entendo. ”

Os Comets dedicaram sua temporada a Perrot. Os fãs criaram pôsteres, os jogadores usaram patches com o nº 10 da Perrot. Banners e camisetas serviam como lembretes constantes do impacto da Perrot na franquia.

Mas a temporada de 1999 do Comets, disse Thompson, foi confusa e uma bagunça emocional. A equipe estava sentindo falta de Perrot durante os momentos essenciais da temporada, quando normalmente contaria com ela.

Mesmo assim, Perrot, que assistiu os jogos dos Comets de longe, fez o possível para se manter conectada ao time, mesmo durante o tratamento. Em uma ocasião, Perrot viu Thompson não jogando o que ela sabia na quadra e ligou para Thompson enquanto estava no México fazendo um tratamento alternativo para seu câncer.

“Ela pegou o telefone e era ela mesma”, disse Thompson, que se lembra claramente da dificuldade em ter uma conversa com um de seus amigos próximos. “Aqui estava ela falando comigo sobre expectativa, aparição, ser a melhor versão de mim mesmo, e eu estou do outro lado segurando o telefone com uma mão e então com a outra mão estou cobrindo minha boca porque estou gritando incontrolavelmente.

Em 19 de agosto de 1999, Perrot perderia sua batalha contra o câncer.

Thompson não se lembra muito da partida da temporada regular que os Comets jogaram no dia seguinte. Ela não se lembra com quem eles jogaram. Ela não se lembra do placar, ou mesmo se os Cometas ganharam o jogo.

“Só me lembro de muitos de nós chorando”, disse ela.

Quando os Comets celebraram seu terceiro título consecutivo da WNBA em setembro, derrotando o New York Liberty no decisivo Jogo 3, Cooper exibiu a camisa 10 de Perrot na comemoração com o seguinte dizer: “Número 3 para a número 10. ”

Foto: AP Photo/David J. Phillip

“Devo dizer que realmente queríamos ganhar para Kim”, disse Cooper à multidão lotada, “Isso é em memória de Kim; isto é uma homenagem a Kim. ”

Quando Perrot era paciente no MD Anderson, ela percebeu que não havia lugar dentro da instituição para fazer contatos com outras pessoas de sua idade. Não havia lugar para ficar entre os tratamentos, falar com outros pacientes, restabelecer o senso de normalidade.

Em 2004, o Kim’s Place foi construído graças a uma contribuição substancial dos Rockets e da Clutch City Foundation, com a missão de cumprir o desejo de Perrot e criar um espaço seguro para servir a comunidade de adolescentes e jovens adultos do hospital. Apenas pacientes com idades entre 13 e 30 anos e seus irmãos têm permissão para usar o espaço.

O espaço foi recentemente reformado e reaberto em janeiro de 2019 no que teria sido o 51º aniversário da Perrot. O evento contou com a presença de pacientes, professores, bem como membros da família de Perrot, Cooper, Swoopes e Chancellor. Segundo Kevin Long (diretor pediátrico do hospital), o Kim’s Place é um dos espaços mais populares entre os pacientes.

Foto: Thomas Campbell

Assim que você entra nas instalações do Kim’s Place, você é apresentado a história de Perrot. a WNBA, latas de lixo com bordas laranja imitando aros de basquete encostadas na parede. Do outro lado, estão as fotos de Perrot penduradas na parede. No canto superior direito, Perrot é retratada cortando a rede após o título do Comets. No canto esquerdo, uma foto na quadra com Swoopes e Cooper. O resto da parede está coberto de citações de Perrot.

Perrot é homenageada na entrada do Kim’s Place

Fizemos o possível para garantir que todos que passarem por essas portas saibam por que é chamado de Kim’s Place”, disse Long.

Mesmo Perrot não estando mais entre nós, ela continua mantendo o legado do Houston Comets vivo e ainda segue ajudando centenas de pacientes e famílias a encontrarem alegria no MD Anderson.

Felipe Souza Ver tudo

Sou o criador do site HSBasketballBR, Blog do Souza e fui co-criador do Live College BR. Fui o primeiro brasileiro a escrever sobre high school para um site americano, o D1Vision. Trabalhei para a Liga Super Basketball como repórter e assessor de imprensa. Também escrevi para os blogs como Jumper Brasil e TimeOut Brasil, tive textos publicados pelo Bala Na Cesta. Trabalho de Scout nas horas vagas e acredito que o estudo diário do basquete, me faz um profissional melhor.

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