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Um título nunca é só um título para LeBron e esse também não seria

FOTO: Mark J.Terrill/Associated Press

O ‘B’ de NBA não deixa dúvidas sobre qual é o esporte em questão, mas existem mentes que parecem se dedicar a mais de um jogo. LeBron James é dono de uma dessas mentes. A vaga nas Finais da NBA é o último passo antes do xeque-mate no jogo que começou assim que ele assinou com o Los Angeles Lakers, em julho de 2018. Claro que na arte de calcular friamente os movimentos nem todos são tão bons quanto Dion Waiters, que vai ter anel de campeão da NBA seja lá quem ganhar.

Mas para simplificar o que eu tentei dizer de forma mais sagaz: Kawhi Leonard talvez só queira vencer. Jimmy Butler também. Mas LeBron não se sacia só com isso. Um título não começa no exato instante em que ele pisa na quadra, como também não se encerra assim que ele sai dela (com o troféu, evidente).

Recentemente, Bron apareceu em destaque falando de um prêmio. Mas não de um prêmio que ele ganhou. O MVP foi para Giannis Antetokounmpo e King James não demorou para demonstrar o quão descontente ele ficou em ter recebido apenas 16 dos 101 votos para jogador mais valioso da temporada. 

Muita saliva, caracteres e memória interna foram gastos para debater se ele tinha razão em ficar tão pistola. O que passou um tanto despercebido foi o movimento de LeBron para 1) adicionar um pouquinho mais de motivação à busca pelo título que Antetokounmpo não tinha mais como conquistar, além de 2) dar um charme a mais se e quando esse título chegar. 

James já vem adotando uma mentalidade mais ou menos assim desde o começo da temporada, quando logo lançou a hashtag #washedking como forma de calar os críticos que teriam falado que já deu para ele (teve gente fazendo até levantamento para ver se alguém com credibilidade realmente disse isso). Mais tarde, já na bolha da Disney, quando o Lakers garantiu a primeira posição na Conferência Oeste, o discurso voltou à tona. Segundo LeBron, disseram que ele não conseguiria isso

A temporada de Bron foi sensacional praticamente desde o primeiro dia. A defesa deixou de ser tão preguiçosa e passou a ser mais engajada. A média de pontuação chegou ao nível mais baixo desde a temporada de novato*, mas a de assistências foi a maior da carreira, fazendo-o liderar a liga pela primeira vez, com 10.2 por jogo. O lado garçom que sempre esteve ali aflorou como nunca, mas ele não deixou de manchar reputações, seja na temporada regular…

…seja nos playoffs:


Mas é claro que ele não ficaria satisfeito apenas com o triunfo. O sucesso é bom, mas o sucesso que é uma boa história é ainda melhor. 

Uma possível derrota na final contra os underdogs de Miami certamente causaria um impacto de imagem para LeBron. (Em termos de basquete, porque quem quiser questionar o legado dele como figura humana só pode estar fora de si). Mas se o Lakers está em posição de decidir um título na condição de favorito é porque LeBron soube mexer os peões de forma praticamente perfeita, mesmo quando talvez nem se esperasse isso dele.

É notório que desde o episódio da ida para o próprio Miami Heat em 2010 – com anúncio na televisão e tudo -, James alterou completamente a relação entre jogadores e franquias e o papel dessas peças no tabuleiro da NBA. Depois daquilo, ele basicamente jogou onde e com quem queria jogar. Recuperou a imagem em Cleveland com Kyrie Irving e Kevin Love a tiracolo, aproveitando para fazer Pat Riley se arrepender de dizer que aquela foi a pior decisão que ele poderia tomar. (Será que vem round 2 esse ano?)

A mudança para L.A depois de perceber que um J.R Smith já é demais causou alguma curiosidade, porque se a grande intenção era construir um império midiático enquanto dividia a quadra com Lonzo Ball, Brandon Ingram e Kyle Kuzma, talvez o basquete já não fosse mais tão importante. 

Só que LeBron já estava pensando bem mais à frente. E não era nas férias ensolaradas nem nas gravações de Space Jam 2. Você gostaria de jogar com Anthony Davis? . Quem não gostaria?”

O comentário aparentemente bobo, mas na real nada bobo rendeu polêmica e um alerta da NBA (foi tipo um “estais avisados” sobre aliciar jogadores). Não veio multa, LeBron riu do assunto e ainda desconversou dizendo que gostaria de jogar com um monte de gente boa. O recadinho estava dado.

Um talento top 5 da liga era tudo que LeBron precisava e o Lakers descobriu que não faria nenhum mal para eles também. 

Química entre LeBron e AD foi quase instantânea. FOTO: Douglas P.DeFelice/Getty Images

Agora, aqui estamos, mais de um ano depois mas ainda na mesma temporada 2019-2020. James e Davis parecem mais parças do que o Neymar e o Jimmy Butler, AD mais do que justificou o investimento se tornando o primeiro companheiro de time a superar LeBron em pontuação, além de se mostrar muito decisivo nos playoffs e agora o Lakers está à beira de mais um título.

Naquele mesmo discurso sobre a suposta injustiça na votação de MVP, LeBron disse que nunca quis definir a própria carreira por títulos e prêmios, mas por como cresceu e melhorou como pessoa. Mas é óbvio que uma coisa alimenta a outra. E ele quer as duas.

A volta a Cleveland. As posturas fortes nas lutas por justiça, igualdade racial e uma população mais consciente politicamente. A abertura de uma escola pública na região onde cresceu. Tudo isso consolidou a imagem de LeBron como mais do que um jogador. Mas a história dentro das quadras não adormece por conta do que a figura dele representa fora delas.

O xadrez de LeBron está prestes a desembocar em mais um título de campeão da NBA. Seria uma forma de honrar a figura de Kobe Bryant. De inspirar novas gerações. Mas também de aproximá-lo do que ele já disse, mais de uma vez, ser meta e destino dele: um lugar entre os melhores dos melhores

Ele sabe que se consegue isso com vitórias e que narrativas podem dar o peso que a matemática fria talvez não dê. Ainda há tempo para LeBron se tornar o maior cestinha da história da liga. Quem sabe igualar ou passar Michael Jordan em número de títulos. Fazer o que nunca foi feito, como ser MVP das Finais por três times diferentes. LeBron já disse que quer jogar com o filho, LeBron Bronny James Jr, que enquanto eu escrevo está a uma semana de completar dezesseis anos. Cara, ele pode até resolver ir jogar por uma quarta, quinta e sexta franquias. Aposentar-se com 45 anos. 

Tudo parece possível, bem longe do absurdo. Certamente depende muito mais dele do que de qualquer outra pessoa. Eu apostaria que ele já olha lá na frente, pensando não só no que fazer, mas como fazer e como isso será percebido. Ele provavelmente dá uma risada, toma um gole de vinho e diz para si mesmo: xeque-mate.

*a média de pontos de LeBron James em 2019-20 (25.3 por jogo) é a mesma de 2014-15 e 2015-16. Na temporada de novato, ele teve 20.9 pontos de média.

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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