Ir para conteúdo

Celtics e Heat: inimigos sumidos que voltam a se encontrar

FOTO: Kim Klement/Getty Images

O duelo entre Boston Celtics e Miami Heat, que decide a Conferência Leste a partir de hoje, não é só um encontro de times muito bem montados e com grandes figuras no comando técnico. É um reencontro entre grandes rivais que não se viam nos playoffs há muito tempo. A última vez foi em 2012, também na final da conferência. Aquela foi uma série marcante por mais de um motivo. E é interessante ver por que duas das franquias mais vencedoras do Leste só vêm cruzar o caminho uma da outra oito anos depois.

No passado, Celtics e Heat se esbarraram por três anos seguidos. A geração campeã da liga em 2008, com Kevin Garnett, Paul Pierce, Ray Allen e Rajon Rondo, com Doc Rivers de técnico, buscava um segundo título para sacramentar o legado da primeira equipe celta campeã desde a época de Larry Bird. No caminho até a final de 2010 – na qual foi derrotado pelo Lakers -, Boston passou por Miami na primeira rodada, em cinco jogos. 

No ano seguinte, quando os “Super Amigos” já tinham se juntado no Heat, o resultado foi o inverso, com Miami avançando à final do Leste, para posteriormente ser derrotado na grande decisão da NBA pelo Dallas Mavericks.

LEIA TAMBÉM: Uma viagem para o futuro: quem serão os top players da NBA daqui a 10 anos?

2012 vinha como uma espécie de tira-teima entre os já bem veteranos Celtics e os caras do momento do Heat. E a série fez jus à expectativa. Boston, que já vinha de uma série de sete jogos contra o Sixers – aquela mesma que é pano de fundo de “Joias Brutas”, com Adam Sandler -, entrou numa batalha defensiva contra LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e cia. 

Ao longo de mais sete jogos, os dois times combinaram para apenas quatro performances de 100 ou mais pontos (isso contando que ambos só passaram da contagem centenária no jogo 2 depois de uma prorrogação). É lógico que o pace na época ajuda a explicar. Nos playoffs de 2011-12, San Antonio foi a equipe com mais posses de bola por jogo, 93.36. Hoje, esse número seria o segundo menor entre os 16 times que se classificaram, à frente apenas do Utah Jazz, que joga um basquete meio retrô mesmo. De qualquer forma, eram duas grandes defesas.

Jogos 7 costumam ser o ápice que o basquete pode oferecer em termos de tensão e emoção, mas essa série é vista como uma das melhores da história por causa do jogo 6. 

Depois de abrir 2 a 0, o Heat sofreu a virada e chegava com as costas contra a parede em Boston. Recentemente, LeBron admitiu que uma derrota ali poderia ser o fim precoce dos Heatles. Por isso mesmo, ele se certificou de não deixar dúvidas sobre quem era o melhor jogador do mundo e deu o passo definitivo para o primeiro título da carreira.

Óbvio que ganhar título é bom, mas virar meme é muito melhor. Desde aquele dia, temos um gif para quando queremos mostrar que “agora a p**** ficou séria”.

A série de 2012 se tornou um ponto de inflexão na liga. Ali, um império se afirmava e o outro ruía.

Boston e o recomeço através do draft

FOTO: Mike Ehrmann/Getty Images

A dolorosa derrota escancarou a realidade do Celtics. Seria difícil acompanhar o ritmo do trio de Miami, que estava no auge da forma física, quando o próprio Big 3 de Boston era formado por jogadores com 34 anos ou mais. Pouco mais de um mês depois, não existia mais trio, porque Ray Allen foi se juntar ao grande rival, num movimento que, anos depois, foi explicado pelo aparente papel cada vez menor que o Celtics reservava para ele.

Boston ainda foi aos playoffs de 2013, sendo derrotado na primeira rodada pelo Knicks (saudades do Knicks nos playoffs, né, minha filha?). Ao final daquela temporada, encarar o recomeço foi inevitável. 

Tudo começou com uma das coisas mais estranhas que eu já vi. Boston trocou o técnico Doc Rivers por um escolha de draft do Clippers. Ele foi prontamente substituído pelo fenômeno Brad Stevens, que tinha levado a Universidade de Butler a duas finais de NCAA seguidas. Por fim, o movimento chave: a troca que levou o resto do finado Big 3 para Brooklyn em troca de todo o futuro do draft da franquia.

Se Boston está firme na elite do Leste hoje, é porque soube fazer um uso quase perfeito dos ativos que adquiriu nessa troca. Pode esquecer os jogadores (Gerald Wallace, Kris Humphries, MarShon Brooks, Keith Bogans e alguém chamado Kris Joseph). Eu estou falando das escolhas de draft de 2014, 2016 e 2018, além do direito de trocar de posição com o Nets em 2017 (a NBA não permite trocar escolhas de anos consecutivos).

É bem verdade que em 2014 a escolha herdada foi apenas a de número 17, que Boston logo desperdiçou com James Young. Mas o Celtics foi cirúrgico na maioria dos últimos drafts. Com a própria escolha de 2014, que foi a de número 6, pegou Marcus Smart. Quando Brooklyn começou a mandar mal demais, a escolha 3 de 2016 caiu no colo dos verdes, que escolheram Jaylen Brown. No ano seguinte, o Nets foi ainda pior e rendeu a escolha número 1. Não satisfeito com isso, o general manager Danny Ainge sacou o desespero do Sixers e trocou a primeira escolha pela terceira, ganhando uns trocados no processo. O resultado foi Jayson Tatum, uma superestrela, enquanto Philadelphia ainda chora a mal-sucedida opção por Markelle Fultz. 

O que impressiona na trajetória de Boston é que a equipe só deixou de ser competitiva na primeira temporada da reconstrução. O gênio de Brad Stevens fez o time render mais do que se esperava praticamente todos os anos. A partir de 2015, o time foi aos playoffs ano após ano, chegando agora à terceira final de conferência no período. Com isso, também se manteve atraente para grandes nomes na free agency. Assinou com Al Horford. Reuniu Gordon Hayward e o antigo técnico dele no basquete universitário. Esteve por isso aqui de conseguir convencer Kevin Durant a vestir a camisa verde (com a ajuda de um certo jogador de futebol americano, devo lembrar). Por último, Kemba Walker resolveu sair de Charlotte para finalmente avançar na carreira em Boston.

Nem todas as jogadas deram certo, claro. A escolha do Nets em 2018 foi usada na troca por Kyrie Irving, que rendeu um total de vários nadas para o time. Mas a forma como a franquia fez a transição de uma era vencedora à outra foi um primor. Boston tinha um plano e o executou à perfeição. Recomeçaria com jovens, um técnico jovem e tempo e paciência para evoluir. Deu certo. O engraçado é que Miami chega agora ao mesmo lugar que o rival, mas com uma fórmula completamente diferente.


Miami buscou incessantemente a próxima estrela

FOTO: Steve Babineau/NBAE via Getty Images

Depois de conseguir convencer LeBron James E Chris Bosh a levarem seus talentos para a ensolarada e praiana Miami, Pat Riley ficou tão confiante na própria lábia quanto o personagem de Tom Cruise em Rain Man após descobrir que o irmão conseguia contar as cartas no cassino. Mas isso se mostrou mais simples na teoria do que na prática.

Os anos de Heatles foram incríveis, não dá para negar, embora eu acredite que dava para ter saído com mais do que dois de quatro títulos possíveis. “Roubar” Ray Allen de Boston foi uma vitória na batalha pessoal de Pat Riley com Danny Ainge. Mas depois que LeBron anunciou na Sports Illustrated que estava voltando para Cleveland, as coisas passaram a ficar bem mais difíceis para o Heat.

Primeiro, ficou um espaço na folha salarial. Depois, começaram a surgir os buracos no elenco. Chris Bosh, com seguidos diagnósticos de coágulos no sangue, foi forçado a parar. Dywane Wade, em desarranjo com a franquia, rumou para o Chicago Bulls. Riley tinha grandes ambições e achou que a cultura vencedora da franquia, aliada ao lifestyle que só Miami poderia oferecer, seriam suficientes para outras estrelas ocuparem esse espaço. Nada disso aconteceu.

Eles tentaram Durant, mas não chegaram tão perto quanto Boston, muito menos Golden State. Tentaram Gordon Hayward, que preferiu a grama mais verde do Celtics (infame trocadilho, eu sei). Com isso, os dinheiros foram alocados para os Dions Waiters, Jameses Johnsons e Hassans Whitesides da vida. Nas cinco temporadas seguintes à saída de LeBron, Miami venceu uma série de playoff, caiu na primeira rodada em outro ano e simplesmente não foi à pós-temporada em três oportunidades. O momento mais sublime foi a turnê de despedida de Dwyane Wade no ano passado, que, é claro, terminou na temporada regular mesmo.

Mas cá estamos, vendo o Heat almejar voltar à final da NBA um ano depois e isso se deve, ao mesmo tempo, por a franquia ter fugido mas também sido bem sucedida no propósito que resolveu seguir, o de atrair estrelas. 

Boa parte da rotação que encaixou como peças de Lego nas mãos de Erik Spoelstra – remanescente dos títulos de 2012 e 2013 – veio do draft e de jogadores que foram desenvolvidos dentro do Heat. Duncan Robinson, o cara cujo controle parece ter apenas um botão – o de arremessar de 3 -, e Kendrick Nunn não foram draftados e apareceram muito bem logo no começo de suas carreiras. Bam Adebayo, 14ª escolha de 2017, agora é um All-Star, honra que somente ele, Donovan Mitchell e Jayson Tatum naquela turma já tiveram. Tyler Herro, 13ª escolha do último draft, também chegou contribuindo, principalmente com bolas de 3 em momentos decisivos.

Olhando assim, o sucesso veio fora da fórmula que Pat Riley julgou ser a ideal. Mas na última offseason, o manda-chuva finalmente achou a estrela que procurava. Miami não tinha espaço na folha salarial para assinar alguém desse porte, mas Jimmy Butler queria tanto ir para lá que conseguiu um jeito de Philadelphia assinar com ele e trocá-lo imediatamente, o famoso sign-and-trade

Butler e Miami são o match perfeito. Dizem que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, então a receita prescrita para Miami foi a primeira na NBA que precisava exatamente do que Jimmy tem a oferecer. Um líder, alguém que queria ser responsável pelo grupo. E num elenco acostumado a ser cobrado por forma física perfeita e obsessão pelo jogo, ele encontrou a tropa que sempre sonhava. Butler sozinho não explica como o time pulou de fora dos playoffs para a final de conferência. A evolução de Bam Adebayo e a maturidade de Tyler Herro e Duncan Robinson também não. A inteligência e competência de Spoelstra também não. É a junção de tudo.


Novo clássico à vista

FOTO: Michael Reaves/Getty Images

A série entre Boston e Miami tem tudo que um fã da NBA pode querer. Tem estrelas dos dois lados. Jogadores capazes de decidir um jogo parelho. Jovens bons no presente e intrigantes para o futuro. Técnicos incríveis. Ainda não parece ter aquela rivalidade regada a sangue quente, mas Jimmy Butler e Marcus Smart já têm historinha de outros carnavais

Será o duelo do time que melhor defende a linha de 3 (Celtics) contra um dos que melhor usa a bola longa como arma (Heat). De duas das quatro defesas mais eficientes desses playoffs (Boston é o primeiro; Miami, o quarto). De dois ataques super bem balanceados, que não concentram as ações em um determinado jogador (Boston tem três jogadores com médias de 20 pontos ou mais e cinco com dígitos duplos; Miami tem sete com médias entre 11.9 e 19.9 pontos por jogo). A promessa é de basquete de alto nível, como foi oito anos atrás.

(Se nada der certo, pelo menos conto com um filme baseado na série entre Toronto Raptors e Boston Celtics na rodada anterior. Quem parece mais capacitado para o papel de figurão que acredita que uma joia rara o faz jogar melhor? Meu palpite é Tacko Fall.) 

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

Um comentário em “Celtics e Heat: inimigos sumidos que voltam a se encontrar Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: