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Afinal, do que é feita uma MVP?

Courtney Vandersloot (Chicago Sky), A’ja Wilson (Las Vegas Aces) e Breanna Stewart (Seattle Storm), os principais nomes da corrido pelo MVP da WNBA

Faltam apenas oito rodadas para o fim da temporada regular da WNBA. Passou tão rápido, não é mesmo? Dentre os tantos acontecimentos decisivos que se dão nesse momento do campeonato, como a disputa pelas duas últimas vagas nos playoffs, nenhum é tratado com mais entusiasmo do que o prêmio de Most Valuable Player (MVP – Jogadora Mais Valiosa).

Muitas questões cercam essa premiação, que valida de maneira imponente o rendimento de uma atleta durante determinada temporada. Quem merece ganhar? Quem decide quem ganha? A vencedora é, de fato, a mais valiosa de um plantel de 144 jogadoras que deram tudo de si para figurar em uma das ligas mais competitivas e de alto nível do mundo? O quão subjetiva ou objetiva é essa escolha? E, afinal, do que é feita uma MVP?

Talvez a história possa esclarecer um pouco dessas dúvidas — ou criar outras ainda mais instigantes. Nas 23 edições anteriores da WNBA, apenas 14 jogadoras receberam o tão almejado título de MVP. Vamos à lista:

Cynthia Cooper — 1997 e 1998
Yolanda Griffith — 1999
Sheryl Swoopes — 2000, 2002 e 2005
Lisa Leslie — 2001, 2004 e 2006
Lauren Jackson — 2003, 2007 e 2010
Candace Parker — 2008 e 2013
Diana Taurasi — 2009
Tamika Catchings — 2011
Tina Charles — 2012
Maya Moore — 2014
Elena Delle Donne — 2015 e 2019
Nneka Ogwumike — 2016
Sylvia Fowles — 2017
Breanna Stewart — 2018

Lisa Leslie, Sheryl Swoopes e Lauren Jackson, as maiores detentoras de troféus de MVP na história da WNBA (três cada) / Foto: Sports List

Antes de seguirmos com a análise, eu tenho uma pergunta para você, leitor: sente falta de alguns nomes nessa lista? Tenho certeza que você pensou que Sue Bird já havia sido contemplada com um MVP. Ou talvez Ticha Penicheiro. Surpreso por não ver Angel McCoughtry? Tina Thompson? Katie Smith? Rebekkah Brunson? Pois é. Ao mesmo tempo que esse prêmio levanta a moral de uma atleta, pode levar outras ao abismo do esquecimento no qual a maioria das atletas profissionais vivem quando encerram suas carreiras.

Diferente da NBA, na liga feminina não existe uma segurança pós-quadra. Mesmo com as mudanças no acordo financeiro, o valor que veteranas vão receber a partir de 2021 ainda não é o suficiente para que um plano concreto e seguro seja montado a longo prazo, caso algo dê errado (uma lesão inesperada, por exemplo). E com a falta de visibilidade — e respeito — que as profissionais recebem, não existe a chance de viver uma vida de conforto ou luxo, sem ter que se preocupar com sua saúde ou da família.

Por isso, alguns fatores que se destacam nessa análise tornam a escolha das MVPs um tanto quanto problemática. Por exemplo: sete, das 14 contempladas foram primeira escolhas do draft (Lauren Jackson, Candace Parker, Diana Taurasi, Tina Charles, Maya Moore, Nneka Oguwmike e Breanna Stewart), três foram segunda escolhas (Yolanda Griffith, Elena Delle Donne e Sylvia Fowles) e apenas uma foi terceira escolha (Tamika Catchings). Cynthia Cooper, Sheryl Swoopes e Lisa Leslie, tão relevantes para o  cenário do basquete feminino dos anos 90 que sequer precisaram ser draftadas, fizeram parte do Initial Player Allocation e alocadas automaticamente para times da temporada de estreia da WNBA.

Ou seja, só aqui já podemos concluir que jogadoras que já estão no radar do estrelato e são observadas de perto pela mídia têm mais chances de serem escolhidas MVPs, o que é confirmado por outro fator: universidade.

Maya Moore, uma das quatro atletas que jogaram na University of Connecticut que foram eleitas MVP / Foto: WNBA/Getty Images

O programa com o maior número de profissionais escolhidas como mais valiosas é a University of Connecticut (Diana Taurasi, Maya Moore, Tina Charles e Breanna Stewart), seguida por University of Tennessee, com duas (Candace Parker e Tamika Catchings) e University of Southern California, que também tem duas (Cynthia Cooper e Lisa Leslie). As demais são Florida Atlantic (Yolanda Griffith), Texas Tech (Sheryl Swoopes), University of Delaware (Elena Delle Donne), Stanford University (Nneka Ogwumike) e LSU (Sylvia Fowles). Claro, apenas uma delas não é americana e não jogou NCAA: Lauren Jackson, da Austrália.

Essa nova estatística já deixa mais difícil para profissionais oriundas de universidades de fora da Division I da NCAA ou de outros países conseguirem ser colocadas na  seleta história de MVPs.

Outro ponto interessante de se observar é que nunca, na história da premiação, uma  “verdadeira” armadora (posição 1) conseguiu alcançar o tão desejado troféu. Isso explica a ausência de Sue Bird, Ticha Penicheiro e Lindsay Whalen nessa lista, na qual 10 são algum tipo de ala flutuando entre posições e as outras quatro são pivôs fixas (Yolanda Griffith, Lisa Leslie, Lauren Jackson e Sylvia Fowles).

Pelo fato de a maioria das jogadoras ocuparem posições de mais ataque à cesta, não é surpresa que apenas uma, das 14, não figurou entre as cinco maiores pontuadoras da temporada quando nomeada MVP. Na verdade, em oito oportunidades (das 23 até agora), a MVP foi a cestinha do ano. Além disso, em nove edições a vencedora também foi campeã (1997, 1998, 2001, 2009, 2010, 2016, 2017, 2018 e 2019).

Sylvia Fowles, emocionada, com seu prêmio de MVP em 2017 / Foto: WNBA/Getty Images

Importante ressaltar que muitas dessas jogadoras também tiveram um grande efeito midiático que colaborou exponencialmente com o crescimento da WNBA. Por exemplo, Sheryl Swoopes havia acabado de lançar seu signature Nike (em 1995), se tornando a primeira mulher a ter sua própria linha de tênis de basquete, e Lisa Leslie e Candace Parker enterraram. E, pasmem, é essa mesma mídia e imprensa que faz parte do painel de votação para MVP!

Se pularmos para o dia de hoje e fizermos uma pesquisa pelos meios de comunicação que cobrem WNBA com intensidade, três nomes figuram em todas as listas: A’ja Wilson (Las Vegas Aces), Breanna Stewart (Seattle Storm) e Courtney Vandersloot (Chicago Sky). A última com a menor das chances e normalmente em quinto lugar. Um movimento a favor da armadora do Chicago Sky ganhou forças nas últimas semanas, quando a número 22 mostrou que, de fato, está acima da média e merece reconhecimento: bateu o recorde de assistências em um único jogo (18). Além disso, ela é a peça central de sua equipe.

Na ESPN, a respeitada jornalista Mechelle Vopel chegou a escrever um artigo fazendo seu caso para que a problemática de que armadoras não merecem espaço entre MVPs seja finalmente vencida. Seria muito tarde?

Talvez sim. É bem provável que A’ja Wilson ou Breanna Stewart levem o MVP esse ano, e não seria desmerecido, de maneira alguma! Porém, perpetuaria uma cultura de valorização pelo imediato e status quo, com pouco esforço para o reconhecimento de atletas que precisam andar algumas milhas a mais para chegar nas que já tem um lugar bem reservado ao sol. E seria legal, pelo menos uma vez, ver o underdog com chances reais de se sobressair.

Planilha com dados utilizados na análise do texto, criada pela autora

Roberta Rodrigues Ver tudo

Jornalista especializada em basquete feminino.

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