Ir para conteúdo

A vez que Michael Jordan jogou como armador

Eu sei que é batido falar de Michael Jordan. Acho que o cara teve mais palavras escritas sobre ele do que grãos de areia nas lindas praias do Rio Grande do Sul (brincadeira, tirando Torres as praias gaúchas são horríveis). Mas um vídeo essa semana me chamou a atenção.

O garrafão estava amontoado e MJ ainda conseguia passes que, como diz a gíria, passavam pelo buraco da agulha. Imagina hoje, com defesas abertas (mas isso é assunto para outro dia).

Se usa muito, e eu sou um deles, o apelido de Point God para Chris Paul, mas Michael Jordan poderia ser a foto que aparece do lado da definição do termo em um dicionário. Se existisse um dicionário de termos de basquete desse jeito. 

Entrem na máquina do tempo e vamos voltar ao ano de 1989 (insira efeitos especiais de viagem no tempo aqui).

A temporada era a de 1988-89. Com pouco menos de um mês para o final da temporada regular, o Chicago Bulls tinha um retrospecto de 34 vitórias e 24 derrotas. O time corria o risco de acabar com menos vitórias do que na temporada passada, quando havia vencido 50 partidas.

Sam Vincent, então armador dos Bulls, estava com dificuldades de cumprir seu papel em quadra. Ou seja, fazer o que a droga do nome da posição dele diz que ele faz, armar o jogo. Com Jordan frustrado, o treinador Doug Collins, sem saber esquentando o banco para Phil Jackson, resolveu colocar MJ de armador. 

A primeira partida de Jordan, o Armador, foi no dia 11 de Março de 1989, contra o saudoso Seattle SuperSonics. A primeira partida após uma lesão na virilha e ele terminou a partida com 15 assistências. Jordan arremessou apenas 13 vezes, verdade, mas com uma vitória fácil ele não precisou forçar o jogo. Além das 15 assistências, ele fez 18 pontos, pegou oito rebotes, deu três tocos e roubou uma bola.  E, claro, seus colegas de time corresponderam.

Logo depois veio uma partida de 21 pontos, 14 rebotes e 14 assistências. Em 30 minutos em quadra. E mais uma vitória fácil dos Bulls.

“Finalmente eles descobriram”, disse Craig Hodges para Sam Smith, autor do livro The Jordan Rules. “Eu teria colocado ele de armador desde o dia que chegou aqui”.

Foi na partida contra o Los Angeles Lakers, atuais campeões, que ficou óbvio que a ideia estava funcionando. Contra Magic Johnson, o melhor armador de todos os tempos, ele teve uma partida incrível. MJ terminou a partida com a então maior marca de assistências em sua carreira, 16. E completou com 21 pontos e oito rebotes.

Jordan ignorou a cesta no primeiro tempo, se ocupando em colocar seus colegas de equipe em posição para pontuar. No quarto período ele tomou conta do jogo, com 12 pontos. Liderados por Jordan, os Bulls seguraram os Lakers sem uma cesta de quadra por mais de 5min. 

Michael flertou com triplos duplos por algumas partidas. E isso tudo foi uma preparação para a sequência que pode ter sido uma das melhores da história da NBA. Foram 10 de 11 partidas com um triplo duplo. Jordan terminou essa sequência com médias de 33,6 pontos, 11,4 assistências e 10,8 rebotes nessas 11 partidas. 

“Eu estava incomodado com os Bulls serem um time unidimensional”, disse Jordan após uma das partidas. “Os outros caras acreditam em si mesmos, é disso que precisamos”.

Na temporada seguinte, Collins não voltou, Phil colocou o triângulo em ação e Jordan deixou de ser armador. 

Agora, vamos aproveitar esse microcosmos de um Jordan jogando como provavelmente jogaria na NBA atual (USG% alta, todo o poder e tempo com a bola nas mãos. Pensa LeBron James, James Harden). Em vez de usarmos a máquina do tempo para voltar aos anos 80, vamos colocar MJ nela, e trazê-lo para hoje.

Vamos aproveitar que o Charlotte Hornets não está na bolha. Menos chances dele encontrar o Jordan atual e criar uma reação em cadeia que acabe com o fluxo do tempo e espaço.

Jordan nunca viu espaço como hoje. Boa parte de sua carreira foi em uma época dominada pelo jogo extremamente físico, com garrafões, bom, engarrafados e times que olhavam com um certo desgosto para a linha dos 3 pontos. 

As regras também permitiam mais contato. Você podia segurar um jogador, impedindo que fosse para alguma direção. Imaginem os Bulls caçando trocas de marcação com a movimentação constante do triângulo hoje em dia. O time ia, praticamente, escolher o arremesso.

Sem o hand checking Jordan teria extrema liberdade para infiltrar e quebrar defesas. Como armador, MJ poderia bater para dentro e passar, ir para o pivô. Seriam tantas opções.

Harden ou Steph Curry marcando MJ seria piada. Até Kawhi Leonard teria extrema dificuldade sem poder colocar a mão em Jordan no perímetro. 

Eu confesso que seria um sonho ver Jordan liderando um ataque, trazendo a bola e iniciando as movimentação em uma NBA com tanta liberdade. Sua capacidade de infiltração, visão de quadra, força, explosão e arremesso seriam armas maravilhosas atualmente.

Infelizmente, nunca veremos isso. Tirando os videogames. OK, vou ali ligar o PlayStation. Até semana que vem!

Rubens Borges Ver tudo

Rubens Borges entrou no jornalismo esportivo em 2005, no BasketBrasil. Tempos depois, se juntou ao Blog Squad do site da NBA no Brasil. Entre os dois trabalhos, ele iniciou o blog e Twitter do Hit the Glass. Nas quadras, jogou em times como o Petrópole Tênis Clube e PUCRS.

2 comentários em “A vez que Michael Jordan jogou como armador Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: