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Os playoffs têm sido a hora dos meninos

FOTO: Kim Klement/USA TODAY Sports

Vocês sabem que na internet muitas vezes não importa de onde vem a informação. O que importa é que ela existe. Qualquer um vira um coach em potencial, seja Albert Einstein, Clarice Lispector ou Michael Jordan. Pode procurar por frases de MJ. Eu só confio que ele realmente disse algo se isso tiver aparecido em Last Dance – ou seja, acredito em todas as histórias que comecem com o Jordan se sentindo desafiado por alguém. Uma das lendas cuja veracidade não consegui confirmar é a de que ele teria dito que “os playoffs são a hora de separar os homens dos meninos”. A frase é tão replicada que nem importa mais se ele de fato disse isso. Virou verdade. Só que nesses playoffs – e nos últimos anos, para falar a verdade – os meninos têm mostrado que não fogem à luta.

Luka Doncic está de férias desde domingo, mas o que ele fez na primeira série de playoffs da carreira não será esquecido tão cedo. De cara, no jogo de abertura do duelo com o Los Angeles Clippers, o esloveno já foi logo registrando um recorde: a maior pontuação de um estreante em mata-matas.

O confronto com a franquia de Los Angeles, supostamente, representava o pior dos mundos para Doncic. O Clippers tem à disposição um elenco com diversos defensores longos e inteligentes, capazes de frustrar o armador de Dallas com todo tipo de marcação. Além disso, são versados na arte do trash talk. Montrezl Harrell e principalmente Marcus Morris não economizaram os ouvidos – e tornozelos – do astro, mas ele manteve a compostura. E não teve apenas cabeça. Teve jogo também.

O que Doncic fez no jogo 4 da série foi impressionante por si só, antes mesmo que o assunto idade surja. Sem o segundo melhor jogador (Porzingis), com o time chegando a estar mais de 20 pontos atrás e com o tornozelo baleado, ele venceu a partida com um arremesso no estouro do cronômetro, coroando uma atuação de 43 pontos, 17 rebotes e 13 assistências.

Agora, quando a gente se dá conta de que isso tudo foi feito por um garoto de vinte e um anos, literalmente na primeira participação em uma série de playoffs, o fascínio se multiplica por mil.

Doncic já se despediu da bolha, mas outros jovens têm carregado esse movimento dos meninos que não cedem a vez. E eles já estiveram na pele do esloveno, pelo menos no que diz respeito a receber uma responsabilidade incomum no começo da carreira.

Um deles é Jayson Tatum, de 22 anos, que é metade da dupla Jay-Jay que tem levado Boston a outro patamar. Essa é a terceira temporada dele na liga, a terceira disputando playoffs e em todas elas o time venceu pelo menos uma série. É assustador o quão natural parece que um jogador dessa idade seja considerado o principal nome de uma equipe bem montada e com diversos talentos com pedigree de All-Star, como Kemba Walker e Gordon Hayward.

Ao mesmo tempo em que é perceptível que Tatum deu um salto nessa temporada, a evolução dele soa suave, nada apressada. Isso porque ele já desembarcou nos playoffs sendo um bom contribuinte, se tornando o jogador mais jovem a atingir 250 pontos em playoffs e também aparecendo no último quarto de um apertado jogo 7 nas finais de Conferência para enterrar na cabeça do LeBron.

O segundo ano dele na liga foi de altos e baixos, assim como o time todo, que experimentou o carrossel de emoções que é ter Kyrie Irving no elenco. Agora, Jayson Tatum foi alçado ao papel de protagonista incontestável e já se tornou o mais jovem celta a marcar 30 ou mais pontos consecutivamente, na série contra o Philadelphia 76ers. Tatum abriu a série contra Toronto sendo o principal cestinha e entrando na defesa do Raptors driblando como se fosse o Ronaldinho Gaúcho.

Donovan Mitchell, companheiro de draft de Tatum em 2018, tem cumprido trajetória parecida com a do camisa 0 de Boston. Em Utah, ele encontrou uma equipe com material humano para ser um muro na defesa, mas sem muito poder de ataque. Rapidamente, ele ascendeu à posição de cestinha do Jazz, sendo o primeiro novato a liderar uma equipe de playoffs em pontuação desde Carmelo Anthony com o Nuggets em 2004. Na série contra o Thunder, a primeira dele na carreira, por pouco ele não foi o principal pontuador no geral. No decisivo jogo 6, enquanto Russell Westbrook incendeava tudo (inclusive a própria casa) com 46 pontos em 43 arremessos e Paul George – ou “Playoff P” – passava vergonha com ridículos 5 pontos em 16 arremessos, Mitchell bateu no peito e, com 38 pontos sem forçar a barra, liderou a equipe de Salt Lake City à vitória.

De dois anos para cá, Mitchell passou por maus bocados em séries contra o Houston Rockets, mas agora, aos 23 anos (24 na semana que vem), vem mostrando na série diante do Denver Nuggets como aquilo que mostrou no primeiro ano não foi uma faísca. O Jazz achou que tinha resolvido o problema do ataque pouco dinâmico, mas a ausência de Bogdanovic e a falta de um segundo pontuador de alto volume mais uma vez significaram uma carga pesada nas costas de Mitchell. E ele topou. Logo no jogo 1, saiu de quadra com a terceira maior pontuação de um jogador na história dos playoffs.

O Jazz acabou derrotado mesmo com a performance memorável do armador, mas nos jogos seguintes Mitchell não desanimou. Foram 30, 20, 51, 30 e 44 pontos. O Jazz virou a série contando com atuações insanas dele, que permitiram que um time comum em termos ofensivos se tornasse uma máquina de pontuar (mesmo com o desconto de ter sido contra a defesa do Nuggets).

Essa série vai para o jogo 7 hoje ao invés de estar encerrada porque alguém resolveu que não dava para ver o Donovan Mitchell pegar fogo e não fazer nada. Em um espaço de duas semanas, a lista de jogadores a ter mais de um jogo de 50 pontos numa mesma série dobrou de tamanho.

Jamal Murray não chegou nos playoffs se provando, como Doncic, Tatum e Mitchell fizeram. No ano passado, diante do Spurs, teve muitos altos e baixos, como ser decisivo com 24 pontos no jogo 2 e desaparecer com apenas seis pontos no jogo seguinte. O próprio jogo 2 mostrou a inconsistência do armador canadense. Ele tinha 3 pontos na conta até começar o último quarto e fazer o time reviver com mais 21. 

Neste ano, Murray tem se mostrado não só mais consistente, mas também mais eficiente e principalmente decisivo. As médias dele – claro, a amostra é pequena – fazem os olhos queimarem de espanto. E foi justamente quando o barco estava afundando que ele arrumou forças para salvar o time. Num intervalo de três jogos, somou 142 pontos, 22 bolas de três, com 37 pontos somente no quarto final dos jogos 5 e 6. Ah, também produziu essa belezura.

É bem verdade que nos jogos 2 e 3 Murray saiu de quadra com 14 e 12 pontos, respectivamente. Ou seja, ainda é inconstante. Mas isso é mais do que comum em um jogador de 23 anos. Talvez seja desleal esperar que caras jovens produzam como Doncic, Tatum, Mitchell e o Murray dos últimos jogos. Eles são pontos fora da curva, que possivelmente não derrubam a (suposta) máxima de Michael Jordan sobre homens e meninos. E se Jordan disse isso mesmo, provavelmente se referia à maturidade mental, não apenas à idade.

Também é preciso destacar que não devemos nos impressionar com esses recordes apenas pelo aspecto de serem números de outro mundo. Afinal, não assistimos a um jogo com uma calculadora do lado. Daqui a alguns anos, vamos olhar para esse período como uma revolução ofensiva na história da NBA e muitas dessas marcas terão de ser contextualizadas.

 Mas não dá para dissociar os números do que vemos com nossos olhos. Jovens que não se assustam com o momento, que assumem a responsabilidade e não sucumbem diante de situações de pressão. Que não relaxam quando a expectativa é baixa. Não seria isso um sinal de que o sucesso – na forma de títulos – é questão de tempo e de situação certa?

Boston, Dallas e Utah já encontraram o mais difícil, que é uma grande estrela capaz de decidir jogos quando importa. Agora é ver como vão permitir que essas estrelas façam história não por ter que compensar as limitações dos companheiros, mas por esses companheiros terem levado as estrelas à posição de poder decidir algo importante. Denver ainda tem o luxo de ter duas jovens estrelas que podem cumprir esse papel, Murray e Nikola Jokic.

Estamos diante de uma safra que pode ser histórica para a liga. LeBron já reconheceu isso, colocando na fala dele jogadores que ainda não pisaram nos playoffs, como Trae Young, Zion Williamson e Ja Morant. Devin Booker também cabia ali. Não é difícil achar gente duvidando da capacidade de esses caras brilharem quando a coisa apertar. Toda jovem estrela é acompanhada daquele “quero ver nos playoffs”, até chegar aos playoffs e fazer todo mundo ver que ela é real. As pessoas ficam ali achando que essas estrelas são derrotados que sentem falta dos playoffs, mas talvez no fundo os playoffs sintam mais falta deles.

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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