Ir para conteúdo

Como as franquias definem suas escolhas no draft

Estamos naquele período agitado entre a loteria e o draft. É quando uma avalanche de palpites e especulações pipocam em redes sociais, sites e TVs, deixando os fãs cada vez mais ansiosos para saber o que vai acontecer na grande noite do evento. Ninguém tem essa resposta, claro, nem mesmo os GMs das franquias. Mas você sabe o que acontece até a noite do draft? Como as equipes trabalham até definir suas escolhas?

Para entender melhor como isso acontece e, consequentemente, compreender o que leva cada franquia a fazer suas escolhas, conversamos com Luiz Felipe Lemes, international scout da NBA. 

Luiz Felipe trabalhou 3 anos anos como scout internacional do Boston Celtics para a América Latina. Está na segunda temporada como consultor do Charlotte Hornets também para a América Latina e deve começar a atuar para o time de Michael Jordan na Europa, onde vive.

Como jogador, Luiz Felipe jogou toda toda a base pelo Continental, em São Paulo, e depois foi para os Estados Unidos. Lá estudou e jogou dois anos na Eastern Oklahoma State College (NJCAA) e mais dois anos na BYU (NCAA), nas temporadas 2002/2003 e 2003/2004. 

Quando voltou ao Brasil, defendeu Brasília, Paulistano, Minas, Paulistano novamente, Joinville, totalizando 10 anos de NBB. Foi campeão sul-americano juvenil e adulto com a seleção brasileira. 

Além do trabalho como scout, Luiz Felipe trabalha hoje na Academia de Basquete da Holanda e é o técnico da seleção sub-15 holandesa. Aqui ele nos conta sobre suas atividades como international scout, fala sobre como as equipes se organizam para o draft e sobre a classe 2020.

Como você começou a trabalhar como scout na NBA?

Luiz Felipe – O que foi definitivo para eu ter este trabalho foi ter estudado nos Estados Unidos, na BYU, onde o Danny Ainge estudou e o filho dele, Austin Ainge, também. Quando eu era senior, o Austin era freshman. Na época em que fui contratado pelo Boston Celtics, em 2015, o Austin era o diretor de scout e eles estavam procurando alguém na América Latina. Falaram com o Walter Roese, mas ele já era do Utah Jazz e me indicou. Ajudou bastante o fato de na época eu estar dando consultoria em scout para a Adidas. Eu viajava bastante vendo os melhores jogadores, já estava no meio. E também porque o Austin me conhecia como pessoa, sabia do meu conhecimento de basquete, de como eu joguei na BYU, de como eu me comportei lá. Tudo isso contou bastante também.

Como é seu trabalho hoje?

Luiz Felipe – Estou há duas temporadas no Charlotte Hornets, é um trabalho diferente de como era no Boston. No Boston eu era contratado part time, eu me relacionava com os técnicos e os outros scouts. Hoje no Hornets respondo para o diretor de international scouts, o Jakub Kudlacek, da República Tcheca. Meu papel é de consultor para a América Latina. Vejo os jogos, faço todos os reports para ele e estamos planejando começar a fazer na Europa também. Nosso contato é quinzenal. Agora que a gente já sabe quem são os estrangeiros que vão estar no draft, esse contato é semanal.

É diferente de como foi no Boston, quando foram quase 4 anos de viagens para Boston e videoconferências com o Danny Ainge, que é o GM. No Hornets é uma consultoria que provavelmente vai virar um full time job depois deste draft. Este ano eu iria para Charlotte, para a Liga de Verão, para conhecer todo mundo, mas infelizmente, com a pandemia, não foi possível. 

Você pode descrever o trabalho dos international scouts?

Luiz Felipe – O papel do scout é ir atrás dos top talentos. Os scouts assistem todos os jogos possíveis de todas as ligas. É óbvio que o trabalho que aparece em um draft não começa naquele ano. O jogador que vai para o draft a gente já acompanha há 3 ou 4 anos mais ou menos. É um processo bem longo, de você conhecer o atleta, saber do potencial dele e, perto do draft, reconhecer o quanto ele ainda tem para desenvolver. Então, assistir torneios europeus ou sul-americanos de seleções é fundamental, já que é onde estão os top atletas. A gente acompanha sub-15, sub-16, sub-18, até o jogador estar na idade do draft.  Aí no ano do draft, quando sai a relação dos nomes, você já tem uma lista de jogadores e todos os reports que você fez, você tem todos os dados. O Doncic, os caras fazem scout dele desde os 13 anos.

O Didi eu acompanho desde que ele era sub-15. O trabalho não é naquele ano. A gente tem um data base gigantesco, tem um programa onde ficam todos os dados de todos os jogadores. Tudo o que a gente faz de scout fica lá. No ano do draft você consulta o que você escreveu sobre o jogador em 2017, em 2018, como foi a evolução dele, como ele melhorou. Tem lá os números dele, onde ele jogou, quem é o agente, se é o mesmo. A gente vai para torneio sul-americano e europeu sub-16, observa a maioria dos jogadores, de 8 a 10 de cada equipe. E depois de 2 ou 3 anos, você tem uma ideia da evolução de cada um. Dessa forma, a gente consegue saber se ele ainda tem espaço para desenvolver ou se é aquilo mesmo. Porque mesmo chegando na NBA ainda se espera que ele evolua.

Você tem ideia de quantos jogadores você observa por ano?

Luiz Felipe – É difícil. Porque chegando perto do draft você afunila um pouco para aqueles que têm mais chances de ir. Você foca neles, vai ver mais jogos, vai falar com os técnicos, com os agentes, com os clubes. Mas em geral é um número muito grande de jogadores, porque todo jogo que você assiste você escreve sobre os atletas que você está assistindo. Mesmo alguns deles não tendo muita chance, se é novo, nunca se sabe. No caso da América Latina, são menos atletas. Eu tenho uma lista anual de 8 a 10 jogadores e é nisso que eu foco. Dificilmente aparece alguma surpresa. Eu sigo eles desde os 15, 16 anos até a idade de draft. É o caso do Leandro Bolmaro, argentino que está este ano no draft. Eu acompanho ele há uns 3 anos. Então quando os caras me perguntam, eu tenho tudo dele, todos os reports desde o início das observações.

Que tipo de informação você precisa ter sobre os jogadores?

Luiz Felipe – Quando você vê um top talento, todo mundo sabe que ele é um bom jogador, mas o importante é saber as informações que ninguém sabe: se teve problema de família, problema na escola, se é um bom teammate… Tem a parte de health, se a saúde está boa, se não teve contusão séria, cirurgia, se teve problema de crescimento. Se teve ou tem problema com bebida, drogas, se é baladeiro, tudo. Essa inside information é que diferencia um bom scout de um scout normal. Por isso, a maioria dos scouts são locais, daquele país. Os caras que fazem Sérvia, Leste Europeu, são de lá. Fica mais fácil conversar com os técnicos, com as famílias, com os agentes. Então, o bom scout tem que ter as informações que ninguém tem, ou saber antes.

Só para ilustrar, o GM do OKC estava buscando informação sobre um atleta. Ele foi na cafeteria da universidade dele e perguntou para a moça que gerencia: como é o Fulano, ele limpa a mesa dele quando ele acaba, ele agradece, ele respeita as pessoas? Então, vai desde falar como professor até falar com o adversário, com o técnico, com o responsável pela musculação… tudo isso envolve a reputação do jogador. É um trabalho bem vasto, onde você tenta saber o máximo de informações possíveis que os outros times não terão, principalmente sobre a saúde e o comportamento dele fora de quadra. São os dois aspectos mais importantes na minha opinião. Além, óbvio, de se o que ele faz em quadra o credencia a jogar na NBA.

Mas estar credenciado para jogar na NBA não quer dizer que ele vai ser escolhido. Cada equipe tem seu perfil e suas necessidades. Como as franquias direcionam o trabalho de vocês?

Luiz Felipe – Primeiro esse direcionamento é por região. Tem o scout da Europa, o College scout, o Latin America, cada um tem a sua região. A minha é América Latina e agora eu estou tendo um pouco mais de atividade na Europa, na Alemanha, Holanda e França. Mas você sempre tem que saber o que a sua franquia precisa. Lógico que os top 8 ou top 10 conseguem jogar em qualquer time, mas você tem que saber o que a sua franquia quer, o estilo que ela joga. Por exemplo, o Boston Celtics queria jogadores grandes, longos e atléticos. Eles não se interessavam muito por jogadores pouco atléticos, que não tinham versatilidade. O Charlotte Hornets já pensa um pouco diferente, olha mais para jogadores europeus, com high basketball IQ. Isso varia de franquia para franquia. Então você tem que saber o que o seu time precisa para aquela temporada. Tem que assistir todos os jogos da sua franquia, conhecer a fundo como ela joga e saber se o estilo do jogador que você está recrutando cabe naquele esquema, se ele vai conseguir desenvolver o basquete dele lá. Porque muitas vezes é um grande jogador, mas não tem a característica do time. Ou você já tem alguém naquela posição. Você tem que conhecer o estilo do seu técnico, dos assistentes, quem você tem, quem é o free agent, quem eles querem trocar, quem vai renovar… Então, é como eu disse, é um longo processo, não é de 5 meses antes do draft. Dois anos antes você já precisa saber os caras que vão sair, um ano antes você precisa saber tudo que vai acontecer no dia do draft. Temos que saber também sobre o cap salarial (mas rookie não tem problema nesse sentido) e sobre o buyout, porque para jogadores europeus que vêm de clubes grandes da Europa, como Real Madrid ou Barcelona, o buyout é muito caro. Então precisa saber também se é viável trazer o jogador.  

Até a loteria, como geralmente estão as definições em relação às escolhas? 

Luiz Felipe – Até chegar na loteria, os times já têm uma noção do que vai acontecer principalmente entre os 10 primeiros. Varia, mas pouco. É mais interessante o que acontece do 10 pra frente e segundo round. Ali tem mais trabalho porque os jogadores são muito iguais, o nível é muito parecido. Lógico que para escolher uma lower pick tem que saber muito bem o que você vai pegar, mas não é tão difícil quanto escolher entre 30 atletas iguais, do 10 para baixo, até o 60. 

O que muda depois da loteria?

Luiz Felipe – O que muda depois da loteria é que você tem moeda de troca. Se você quer um free agent, pode fazer uma troca. Tem que decidir primeiro se vai ficar com o garoto jovem ou se vai trocar por um free agent. Essas trocas grandes, de querer free agent top, de usar o seu pick pra trocar por grandes jogadores, acontecem depois que você sabe da loteria. Aí começa mesmo a briga de cachorro grande. Aí é com o GM… os agentes também se envolvem porque querem saber quem quer o atleta. Com o agente se discute sobre buyout, sobre como quer o contrato, se o jogador quer jogar pela sua franquia, se ele está treinando, se quer vir para treino individual, fazer entrevista… As franquias ficam mais calmas depois que sabem que pick que elas querem. Só que tem que ter plano A, B, C e D. Porque lá no 20 eu quero o Ginóbili, mas alguém pega ele no 18… Na hora eu tenho que acionar o plano B, porque são poucos minutos pra resolver. Mas as equipes conversam muito antes. 

E na noite do draft, como é a dinâmica?

Luiz Felipe – A noite do draft é uma loucura. As equipes conversam muito depois da loteria, quando tem algum interesse em troca. Isso vai até a hora do draft, não para. Se você entra numa sala de draft uma semana antes, você fica perdido. É tanta coisa: troca, cap, nomes, listas, números, é incrível mesmo. O GM tem que ser muito bom, saber muito lidar com tudo. Porque tem ainda muita pressão. E na hora ninguém sabe o que a outra franquia vai fazer. Você imagina, mas pode ter surpresa. No top 8 ou 10, dificilmente vai ter surpresa, as equipes não conseguem guardar segredo. Mas do 10 para frente, entram os planos A, B, C e D. Porque às vezes você tem uma relação boa com uma equipe, sabe quem eles vão pegar. Mas na maioria das vezes você não tem ideia ou só imagina, porque sabe que alguns jogadores tem mais o perfil daquela equipe. Certeza mesmo nunca tem. Você espera pegar os seus jogadores, o que muitas vezes não acontece. Muitos times queriam o Didi, por exemplo, mas ele foi escolhido antes do esperado, mesmo sendo segundo round. Então, a franquia tem que ter tudo muito planejado para poder agir rápido. 

Na noite do draft, na mesa de decisão, ficam o diretor de scout americano, o diretor de scout internacional e o assistant GM, dando suporte ao GM, que é quem bate o martelo. Às vezes o dono da franquia está lá, mas não se envolve muito (não sei se é o caso do Jordan, ele deve se envolver…). Os scouts participam de reuniões até mais ou menos umas três semanas antes. Mas se tem um brasileiro lá, eu participo até o final, porque eu tenho que estar disponível para qualquer dúvida ou informação que eles precisem.

Você vê possibilidade de alguma surpresa este ano no primeiro round?

Luiz Felipe – Acho muito difícil aparecer alguém desconhecido no primeiro round. Segundo round pode acontecer e acontece. Mas como aconteceu com o Caboclo é muito difícil. Posso queimar minha língua, mas garanto que da América Latina não vai ter (risos). Só se colocaram o garoto numa ilha… porque a gente vai em todos os torneios, conhece todo mundo. E hoje em dia, as franquias não vão pegar desconhecidos. Até mesmo pelo que aconteceu com o próprio Caboclo, nenhuma franquia vai se arriscar tanto. Ou pode pegar um cara no segundo round e mandar de volta para o clube… Mas ir direto para a NBA, primeiro ou começo de segundo round, eu não acredito.

Sobre a classe deste ano, o que você acha?

Luiz Felipe – Pode não ser dos melhores anos, mas tem muitos bons jogadores. Acho que o top 5 ou 6 vai chamar muita atenção, principalmente por causa do Lamelo, do Avdija… O Ball tem muita atenção da mídia e dos jovens no mundo todo, ele tem uma trajetória diferente, tem os irmãos… dá muita audiência só ele estar lá. Tem o Avdija, do Maccabi Tel Aviv, que é muito interessante, tem o argentino, o Leandro Bolmaro, que pode ser entre 10 e 20… Do College, o Wiseman tem um potencial incrível, o Anthony Edwards, o Obi Toppin, são ótimos jogadores. Não é um super draft, mas é bem interessante, tem garotos muito bons.

Para o próximo ano o que você projeta?

Luiz Felipe – Não tem como saber ainda. O draft de 2021 vai ser interessante porque os scouts precisam viajar para assistir jogo e com a pandemia a gente vai estar muito limitado. Tem meios, claro, podemos ver online, mas não é a mesma coisa. Já foi um pouco assim agora, porque a partir de um certo momento os scouts não puderam mais viajar. Até reuniões a gente teve que fazer pelo Zoom. Entrevista com jogador foi pela internet. Foi diferente, você não tem o contato presencial, humano. Já mudou muito o nosso trabalho, dificultou bastante. O scout tem que estar lá, ver o jogo, ver o treino, falar com o técnico, com o assistente, com o jogador… Não é só assistir o jogo. Então com a pandemia dificultou bastante. E deve continuar assim por um tempo.  

Categorias

NBA

Tags

, ,

Marcia Melsohn Ver tudo

Sou jornalista (PUC-SP) e professora de Educação Física (USP). Joguei basquete dos 9 aos 22 anos, do mini ao adulto. Trabalhei como redatora e repórter na Folha de S.Paulo (Editoria de Esportes e sucursais) e na Revista Placar. Como professora, dei aula de Educação Física e fui técnica de basquete na Chapel School, em São Paulo, durante 11 anos. De lá para cá, escrevo para sites e blogs de diferentes empresas. Muito feliz por poder dar meus pitacos agora sobre NBA aqui neste espaço tão valoroso.

Um comentário em “Como as franquias definem suas escolhas no draft Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: