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Qual é o melhor: Basquete Europeu ou Americano? Bate-papo com Dimitri Sousa

Fala, pessoal!

É muito comum um atleta que se destaca nas bases brasileiras, almejar se transferir para o exterior, visando uma maior competitividade, vivência no exterior, ganhos financeiros, maior desenvolvimento e por aí vai. Basicamente vemos dois lugares de destino: Europa ou Estados Unidos (high school ou college).

Bom, preciso admitir algo, caro leitor. Eu torço o nariz quando um atleta se transfere para os EUA, principalmente quando o foco é em se desenvolver focando NBA, e aí busca jogar num high school e, em seguida, passando para o college. Como experiência de vida, acho incrivelmente válido, sem falar na possibilidade de se fazer uma faculdade. Nesses pontos sou 100% a favor, mas quando o foco é basquete…. Tenho muitas dúvidas.

Para não ficar nesse preconceito, eu troquei uma ideia com um atleta que passou pela base brasileira, europeia e EUA: Dimitri Sousa. Acompanhe que o papo ficou MUITO legal!

– Quais clubes/países passou e categorias respectivamente?

Comecei minha carreira federado no Circulo Militar de SP em 2005, onde fiquei até 2008. Depois me transferi para o Teramo Basket, que na época figurava na Série A Italiana. Fiquei lá até 2011, quando acertei minha transferência para o poderoso Montepaschi Siena, que dominava o basquete italiano seja em nível adulto ou de categoria de base, além de ser figura constante no Final Four da Euroleague.

Dimitri pelo Círculo Militar de SP

Terminando a categoria de base, em 2013, mudei a direção da minha carreira e fui para os Estados Unidos. Como não tinha SAT, decidi ir para a Massanutten Military Academy, uma prep school que tinha muita tradição em mandar jogadores para D1. Tive alguns problemas de elegibilidade, o que me causou perder um ano na faculdade e todas as bolsas que tinha até o momento. Fui sortudo em receber uma full scholarship da UVa Wise, que jogava a Mountain East Conference (NCAA II).

Depois de me formar em 2018 e conseguir bons números no college, joguei o primeiro turno do campeonato paulista pela Liga Sorocabana. Após esse período, assinei com a Fortitudo Agrigento na serie A2 Italiana. Fiz uma boa temporada, e logo após assinei com a tradicional Juve Caserta, mais uma vez na A2 Italiana. Tive boa performance mas situações extra quadra me fizeram rescindir o contrato com a equipe em Janeiro 2020. Um mês depois assinei com Action Now Monopoli, uma equipe nova e ambiciosa que estava na ponta da Serie C Italiana. Aceitei o desafio com o objetivo de levar a equipe á tão sonhada Serie B, mas a crise do Covid-19 encerrou o campeonato após só ter jogado um jogo pela equipe.

– Quais as principais características do basquete italiano/europeu e do americano/college?

Basquete Italiano: jogo extremamente tático/técnico. Fisicamente o nível médio é bem mais fraco comparado a outros países. Por ser um mercado bem “fechado”, as maior parte dos estrangeiros são americanos, seguido de outros europeus e alguns argentinos. É um estilo de jogo mais “controlado” pelos técnicos, deixando menos espaço pro jogador criar.

College: Muito difícil fazer uma análise geral sobre college basketball, depende muito da divisão/ conferência. No meu caso, joguei em uma das conferências mais fortes da NCAA II, a Mountain East Conference. Era um estilo de jogo extremamente rápido e ofensivo (a conferência era líder em PPG em todo o college basketball). Era comum as equipes fazerem 100 pontos por partida, jogando em um ritmo muito elevado, em alguns casos quase um run and gun. Por causa dessa característica da conferência, as equipes eram mais baixas, e jogavam com 4 jogadores de perímetro mais um pivô bem móvel de no máximo 2.05m.

– Você enxerga características dos times brasileiros que é superior aos europeus e americanos?

Acho que o basquete brasileiro tenha características do basquete europeu e do americano. O jogador brasileiro tem muito talento ofensivo e força física, mas falta estrutura técnica/tática para muitos times daqui, o que às vezes prejudica o brasileiro em nível internacional. Algo que considero superior do basquete basquete brasileiro em relação ao basquete internacional é o trabalho de fisioterapia. Lá fora apenas equipes de altíssimo nível proporcionam uma estrutura boa para a recuperação do atleta. Enquanto aqui no Brasil, a grande maioria das equipes contam com profissionais de ótima qualidade.

– Acredita que o estilo de jogo de um atleta é mais apropriado para um país do que outro? Exemplo, ser mais atlético é melhor para EUA e mais técnico para Europa.

Sem dúvidas, olhando para trás não me arrependo de minhas escolhas, mas é inegável que a falta de conhecimento dos lugares em que joguei, dificultou minha vida. O atleta tem que escolher ir para um lugar onde seu estilo de jogo seja valorizado, e ter alguém com esse conhecimento pode fazer toda a diferença no desenvolvimento do atleta. Tive o prazer de jogar nessas duas escolas de basquete, o europeu me fez um jogador muito técnico e com disciplina tática. Enquanto o basquete americano recuperou a minha agressividade e competitividade, algo que tinha perdido na Itália.

– O que o basquete europeu tem de superior ao americano (e vice versa)?

O basquete europeu é superior em questão de desenvolvimento técnico e tático do atleta. Porém limita MUITO o jogador no seu desenvolvimento, querem “prender” o jogador em uma “caixa” e fazem de tudo para que ele nunca seja nada mais que um “role player”.

Já o americano é o oposto, lá você tem competitividade, criatividade e intensidade. Realmente o desenvolvimento técnico/tático fica em segundo plano, já que focam muito na parte física, mental e um jogo mais individualista.

– Qual escola proporciona uma maior capacidade de desenvolvimento?

Acho difícil escolher uma escola que desenvolve melhor o atleta. Acredito que as duas tem pontos que podem ser positivos, e pontos negativos. Depende do momento da carreira do atleta, e das suas características de jogo. Um jogador físico sempre vai ser mais valorizado nos EUA, enquanto um jogador mais técnico/tático tem mais chance de se dar bem na Europa. Depende muita da situação de cada time, mais que o país que se joga, o encaixe é determinante.

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Rookie szn ✔️🙏🏼💰

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– Pensando em desenvolvimento técnico, é mais válido jogar NCAA ou um campeonato adulto no Brasil?

Acho que tecnicamente o atleta se desenvolve mais nos Estados Unidos. Pela intensidade e quantidade de treinos, além de ter a possibilidade de ser protagonista. Diria que o jogador cresce mais no college. Só que ao se formar, o atleta vai ter que recomeçar praticamente do 0 a carreira, porque por algum motivo, os técnicos/dirigentes brasileiro desprezam o basquete universitário americano. Mesmo tendo muito destaque por lá, o jogador sempre vai ser olhado com desconfiança pelos técnicos brasileiros.

– Já li que, devido os torneios AAU, os americanos vêm treinando menos e focando no individual, enquanto na Europa o foco é no time e treinos. Procede?

Infelizmente não tive o prazer de jogar AAU nos Estados Unidos. Mas também ouvi essas críticas e provavelmente elas tem a sua razão. Mas acredito que a AAU seja algo extremamente positivo. Por que desenvolve o atleta no ambiente mais competitivo possível (jogo), além de aumentar demais a exposição de atletas para olheiros de faculdades. Talvez a quantidade de jogos de AAU sejam exagerados (muitas vezes jogam 3 partidas em um dia), o que causa um desgaste muito grande no atleta, podendo causar lesões, além do fato de “tirar” tempo de treino técnico dos atletas.

– Dica para atletas que planejam jogar fora.

Acho que todo atleta sonha em jogar fora, mesmo o basquete brasileiro tendo crescido e de desenvolvido nos últimos tempos. Só que mais que procurar uma oportunidade fora do país, o atleta tem que procurar um lugar onde vai ser desenvolvido por profissionais de alto nível, e que tem muitas expectativas no seu crescimento. Ao sair do Brasil, todo “status” que o jogador tinha acaba, vai ter que começar tudo do 0. Tendo sempre expectativas muito altas, eles esperam que você perfome muito melhor que os jogadores locais. 

Tão importante quanto o time/país, é a mentalidade do atleta. Sair do país equivale a sair completamente de zona de conforto. Vão ter muitos desafios e momentos que vão parecer impossíveis de vencer, mas com perseverança e alguém experiente pra guiar…vitórias gigantes virão.

Sensacional, Dimitri! Muitíssimo obrigado por ter compartilhado suas experiências. Tenho certeza que poderá ajudar muitos atletas que se encontram nesse dilema.

É isso, pessoal, um abraço e até a próxima!

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