Ir para conteúdo

O ‘Logo Lillard’ está se tornando um arremesso cada vez mais efetivo

Você já deve ter ouvido essa história. Bola na mão de Damian Lillard com a série contra o Oklahoma City Thunder em jogo. Ele mata alguns segundos do relógio e tudo indica que vai deixar para resolver no estouro do cronômetro, com um arremesso de muito longe. É exatamente o que ele faz. A bola cai, Portland fecha a série da primeira rodada dos playoffs de 2019 em 4 a 1 e depois do jogo Paul George vem com o papinho de que fez o que dava, que aquele foi um “mau arremesso” e que assumiu as consequências de uma defesa mais afastada, baseada em tentar prevenir um chute mais próximo (e mais eficiente). Lillard acertou, então, paciência.

É uma mistura de conceitos do nível mais profissional do basquete com uma ideia da pelada que você joga na praça. A lógica diz que quanto mais longe da cesta mais difícil se torna o arremesso e, portanto, menos eficiente. Dependendo de quem for a pessoa com a bola nas mãos, supostamente, supostamente, você fica até feliz de deixá-la arremessar de longe. Na pelada, aproximadamente 99% dos arremessos certeiros de um pouquinho mais longe são atribuídos à sorte.

Acontece que na época daquele arremesso Lillard já era conhecido por subverter essa lógica. O vídeo a seguir foi postado em maio desse ano, mas tem jogadas desde 2015 que justificam o apelido de ‘Logo Lillard’ para o cara que choca todo mundo arremessando das redondezas do logo que fica no meio da quadra. Para quem estava com saudades, o chute da vitória contra o Thunder é logo o primeiro da sequência.

O próprio Lillard inclusive deu a bênção para a alcunha:

Antes de maio, esses arremessos faziam o queixo cair o tempo todo, mas, na bolha da Disney, Lillard está se esforçando para fazer a gente achar normal – e vantajoso – esse tipo de jogada. Em 10 jogos disputados até agora, ele arremessou 63 bolas que podem ser classificadas como de “super longa distância”. Esse não é um critério fechado, mas usei o mais comum, que é o de contar quatro pés – ou 1,20m – para trás da linha dos três pontos. O aproveitamento nessas bolas? Meros 39,4%. Tem jogador que sonha em ter esses números em bolas de três no geral.

Mas não para aí. Quando Lillard dá mais três passos para trás, ou seja, está a mais de nove metros de distância da cesta e a cerca de 2,15m da linha dos três pontos, ele ainda tem aproveitamento acima da média da liga nas bolas de três “normais”.

Dame acertou 7 das 19 tentativas que fez ali praticamente do meio da quadra – onde agora fica a logo da NBA -, ou seja, 36,8%. Essa porcentagem de acerto é maior do que a de James Harden em bolas de três no geral nessa temporada (35,5%). A amostra é pequena? Sim, mas estamos falando de arremessos muito distantes.  

Uma reportagem de hoje (19/08) do Wall Street Journal – que não vou poder linkar por motivos de paywall – mostrou um levantamento dessas bolas super longas arremessadas por Lillard na temporada 2019-2020 como um todo. Os dados são assustadores: em média, um time da NBA completo, do primeiro ao 15º jogador, arremessou 36 bolas a pelo menos 9 metros de distância da cesta na temporada inteira. Lillard, sozinho, arremessou 125. O resto da liga teve 27% de aproveitamento nesses chutes. Dame teve 42,4%. Complicado.

Esse gráfico dos arremessos de três de Lillard ao longo da temporada, além de parecer uma árvore de natal, mostra também como as bolinhas verdes – ou seja, acertos – são amigas do meio do quadra:

Fonte: basketball-reference.com

Mas o craque não resolveu arremessar dessa forma porque acordou com vontade ou porque viu Curry dando a vitória para o Golden State com um casual arremesso do meio da rua em 2016 (aliás, um dos mais simbólicos casos recentes de jogada memorável que não decidiu nada de importante). A necessidade foi a mãe desse movimento individual, embora outros jogadores, como Trae Young, Luka Doncic e Devin Booker também estejam indo cada vez mais longe, literalmente. 

Lillard resolveu estender o raio da mira depois dos playoffs de 2018, quando o Blazers foi varrido pelo Pelicans, que fez uso de uma defesa agressiva no armador já a partir do meio da quadra, com dobras constantes que evoluíram para as chamadas traps, que encurralam o jogador que tem a bola nas mãos. Dame não foi tão bem ao tentar sair dessa armadilha – teve 35% de aproveitamento e quatro desperdícios por jogo de média – e, ao conseguir, os companheiros não ajudaram muito também. O time foi engolido, o ritmo de Lillard foi embora e depois da eliminação ele teve que pensar numa forma de melhorar.

A ideia do técnico pessoal dele, Phil Beckner, que já trabalha com Dame desde os tempos de Weber State, foi contra-atacar com essas bolas super longas, antes mesmo de as defesas pensarem em agir. Nos treinos individuais, ele marcou uma imaginária linha de quatro pontos na quadra e dali o armador passou a aperfeiçoar essa arma. Em Orlando, ele parece ter levado o aprendizado especialmente a sério e a lição de 2018 não foi esquecida. Aqui, no jogo que garantiu ao Blazers a vaga no play-in, em que a pressão era elevadíssima, já que a equipe não podia perder, Lillard arremessou do meio da quadra no quarto decisivo como se fosse uma pelada no Aterro:

Depois da partida, ele admitiu que a série contra o Pelicans o ensinou a ter essa confiança, mesmo que signifique ser mais fominha também. Na partida de abertura da série contra o Lakers nos playoffs, os últimos 12 minutos viram mais mísseis de Lillard. Esse foi ao mesmo tempo o mais impressionante e o que mais abalou o time de Los Angeles:

É interessante notar como os acontecimentos se sucedem e como a defesa sai de uma situação de pouca urgência para uma de desespero total depois que Lillard pune a cobertura frouxa por algumas posses. A impressão é que a defesa não assume o modo “super-preocupado” com Dame até que ele comece a acertar essas bolas doidas. Pouco tempo antes da jogada acima, ele tinha convertido um outro arremesso de super longa distância, em que o Lakers foi tímido na cobertura. Nos prints, dá para ver que ele recebe o corta-luz de Carmelo Anthony praticamente ao cruzar a metade da quadra e aí fica completamente livre. Quando Dwight Howard tenta recuperar o espaço, já é tarde e Lillard praticamente completou o movimento do arremesso.

Logo depois, a marcação aperta um pouquinho mas Lillard acerta de ainda mais longe, como vimos no vídeo. Na posse de bola seguinte, LeBron e Anthony Davis já partem para tentar a dobra. A quadra fica mais espaçada e as vias até a cesta mais livres. Já te mostro.

Pausa para um momento Discovery Channel: na vida selvagem, quanto mais longe um animal adulto for para procurar alimento mais desprotegido ficam os filhotes. É assim na NBA também. Quanto mais os jogadores se afastam da própria cesta e se espalham pela quadra mais vulnerável ela fica. 

No garrafão, Lillard pode acionar Nurkic, que consegue punir uma defesa voltada para parar o perímetro. Mas o espaço também pode surgir da linha dos três, para outros companheiros de time. Quando Lillard antecipa a dobra e passa para Carmelo (ali à esquerda dele), ele está completamente livre e mata a bola de três.

É evidente que, nesse momento em que ninguém está mais quente do que Dame na Disney, derrotar o Blazers parece muito mais difícil. E vê-lo jogar é um prazer que eu não me incomodaria de ter por mais algumas séries. Mas arremessar de far, far away como ele tem feito ainda é complicado e com um bom plano de jogo pode virar um tiro no pé. Uma coisa é ter isso como opção, outra é depender disso. É o que vamos aguardar para o jogo 2. Para achar uma solução, o Lakers pode pensar em diversas estratégias. Só não pode dizer que foi sorte e ficar satisfeito em viver com um arremesso “ruim”. É desafiar a noção do que é um arremesso ruim para Damian Lillard.

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

2 comentários em “O ‘Logo Lillard’ está se tornando um arremesso cada vez mais efetivo Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: