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O Phoenix Suns é a prova de que “certo” ou “errado” pode ser relativo

Eu sei que ninguém se importa com quem não vai ser campeão mesmo, mas ainda não superei a eliminação do Phoenix Suns na bolha da NBA na Disney depois de ganhar os oito jogos que disputou. O melhor time de todos os tempos da última semana abriu os olhos de muita gente – inclusive os meus – para o que aconteceu com a franquia nos últimos anos e o que pode acontecer daqui para frente. A história é especialmente interessante por um motivo: o bom basquete mostrado na Flórida foi fruto de uma série de decisões consideradas equivocadas na época em que foram tomadas, mas que na prática acabaram bem melhores do que na teoria. 

Obviamente, a decisão de colocar alguns bodes (sim, bodes no sentido literal) estrategicamente localizados no escritório da equipe foi ruim na época e continua ruim até hoje. Só estando lá para saber se o cheiro de fezes já foi embora. No entanto, quando o assunto é montagem do elenco, através de draft, free agency e trocas, o Suns fez muita gente ter que engolir as próprias palavras. 

O episódio que eu citei acima foi ainda com Ryan McDonough como general manager do time. Ele foi demitido faltando uma semana para começar a temporada 2018-2019. Mesmo que o GM fosse o Isiah Thomas, o timing foi simplesmente o pior possível, indefensável. Antes de sair, McDonough tinha sido responsável pelas escolhas no draft de 2018, que não foram tão questionadas na noite em que aconteceram, mas rapidamente fizeram o pessoal mudar um pouco de ideia.

Vindo de uma série de péssimas campanhas, o Suns teve a escolha número 1 e prontamente selecionou o pivô Deandre Ayton, que fez faculdade ali pertinho, em Arizona, e era praticamente consenso entre os analistas como o melhor prospecto mesmo. A escolha foi elogiada por muitos, mas também porque esses analistas resolveram ignorar um tal de Luka Doncic. 

Logo no começo da primeira temporada na liga, enquanto o esloveno fazia todo mundo babar e ganhava jogos em Dallas, Ayton expunha suas limitações defensivas em um dos piores times da NBA, ficava frustrado em quadra e admitia ter ficado um pouco intimidado por alguém do tamanho de Boban Marjanovic. Já nos primeiros meses da atual temporada, ficou difícil não pensar no que poderia ter sido um outro Phoenix, ao ver Doncic explodir para uma campanha digna de MVP e Ayton ser suspenso por 25 jogos por uso de substâncias proibidas.

Deandre Ayton (22), o futuro do Suns. FOTO: Kim Klement/Getty Images

Voltando a 2018, na mesma noite em que Ayton foi escolhido, o Suns levou também o ala Mikal Bridges com a pick de número 10 do draft. Bridges também era visto como um bom jogador mas, aos 22 anos, já chegava na liga sem muito para onde crescer, na visão de muitos. O fato de o Suns ter conseguido a escolha 10 em uma troca com o Sixers pela escolha 16 – que virou Zhaire Smith, tido como um jogador de maior potencial –  além de uma escolha de primeira rodada do Miami Heat em 2021 fez a percepção da troca como um todo ser bem diferente da percepção sobre as capacidades individuais de Bridges.

No draft de 2019, o Suns mais uma vez chamou a atenção, mas daquele jeito que muita gente acharia melhor ter passado despercebido. O general manager já era James Jones, ex-parça de LeBron James no Heat e no Cavs. Ele começou a surpreender – negativamente – quando enviou T.J Warren, segundo principal cestinha da equipe, para Indiana, que ainda levou a 32ª escolha do draft. Em troca? Cash considerations, também conhecido como … grana. Nada mais. O movimento foi muito criticado, já que representou a perda de um jogador importante na hierarquia do time – e que mais do que provou seu valor em Indiana – em troca apenas de espaço na folha salarial.

O Suns era dono da escolha de número 6, mas trocou com o Minnesota Timberwolves e desceu para o número 11, recebendo o croata Dario Saric no processo. Saric é promissor, mas foi mal nos Wolves e tinha apenas um ano de contrato faltando. Até aí tudo bem. Só que o Suns usou a escolha que veio na troca para recrutar o ala Cameron Johnson, de North Carolina. Mais uma vez, não é como se Johnson fosse visto como um mau jogador. Ele apenas era um especialista em bolas de 3, que chegava à liga com 23 anos e que provavelmente poderia ser escolhido 10 ou 15 posições mais tarde. A escolha foi tão surpreendente que rendeu um dos meus vídeos favoritos de todos os tempos, a reação do ex-companheiro de faculdade dele, Coby White, ao saber da escolha:

Para completar a desgraça, com a escolha que originalmente era do Suns, o Wolves pegou Jarrett Culver, um dos maiores destaques da temporada universitária com Texas Tech.

E a folha salarial que ficou mais suave com a saída do T.J Warren? Boa parte do espaço foi embora quando o time assinou com o armador Ricky Rubio, por três anos e aproximadamente 51 milhões de doletas. O contrato foi considerado excessivo e chegou a ser apontado por executivos como um dos piores negócios da janela

Nossa, até cansou falar tanta coisa ruim na sequência.

Bom, mas se o time se tornou o que é mesmo depois de tudo isso, é porque também tomou decisões inquestionavelmente boas. Uma delas foi trazer Monty Williams, que merece ser mais destacado pelo trabalho que acabou rendendo o prêmio de melhor técnico na bolha. O principal fator, no entanto, aconteceu lá em 2015, quando a franquia selecionou Devin Booker com a 13ª escolha no draft. 

Monty Williams foi o Coach of the Bubble. FOTO: Kevin C. Cox/Getty Images

Booker ainda é muito lembrado pelo incrível jogo de 70 pontos quando ainda era um segundanista de 20 anos, contra o Boston Celtics. Mas a verdade é que ele já se tornou muito mais que um simples pontuador. E mesmo que fôssemos restringi-lo a essa categoria, ele é também um pontuador raro e versátil. Como sempre, os números ajudam a enxergar isso melhor.

Aqui, temos a evolução de Booker ao longo das cinco temporadas que disputou até agora na NBA, vista por algumas estatísticas.

Arte: Igor Coelho

Uma pausa rápida para uma ajuda com as legendas e o que elas significam:

TS = True Shooting (faz uma média da eficiência do jogador considerando os arremessos de dois, de três pontos e da linha do lance livre)

3PAr = 3-point attempt rate (quanto do total de arremessos de um jogador vem da linha dos três pontos)

AST% = percentual de participação do jogador no total de assistências do time no tempo em que ele está em quadra

USG = usage (percentual de posses de bola “usadas” por um jogador. O número é calculado pelo total de posses que terminam com uma cesta, um turnover ou um lance-livre do jogador, o que a grosso modo mostra o quanto aquele jogador “domina” as ações dentro do time).

Voltando aos números, é possível ver como Booker foi evoluindo ao longo do tempo. Ele aumentou a pontuação e passou a controlar mais o jogo do time, mas ao invés de perder em eficiência, fez o movimento contrário. Também se tornou um criador de jogadas e passador melhor. Não aparece no quadro, mas ele também diversificou a forma como alcança a pontuação, indo mais à linha do lance livre. Booker foi o segundo em aproveitamento nos lances livres esse ano, com 91,9%, mas chutou muito mais (509) do que o primeiro colocado, Brad Wanamaker, do Celtics (136). Mais lances livres, mais pontos fáceis para o time.

Um ponto que vale observação é a proporção de arremessos de três (3PAr). Não teve grandes variações, mas está consideravelmente abaixo de outros nomes importantes nessa era dos três pontos. Um arremessador puro, da classe de Duncan Robinson, por exemplo, chuta incríveis 88% do total dos seus arremessos enquanto está na linha de 3. No caso de uma super estrela que também é um ótimo arremessador, como Steph Curry, a fatia chega a 60%. Não é muito diferente do rei do stepback. 55% dos arremessos de Harden são da linha dos 3 pontos. 

Enquanto isso, Booker costuma ficar ali entre 31 e 36%. E chutou, em média, 5.7 vezes por jogo em 19-20, o que não é muito. Ao olhar para o aproveitamento, dá para achar que esse não é um ponto forte dele, mas a tranquilidade com que ele arremessa assim já mostra que aí tem:

E se voltarmos à única temporada de Devin Booker no basquete universitário, veremos que em Kentucky ele vinha do banco para ser um especialista em bolas de três. Quase metade dos arremessos dele eram de longa distância e ele não fazia muito além disso (destaque para a ínfima contribuição com assistências). O aproveitamento era ótimo também.

Arte: Igor Coelho

Ou seja, Booker ainda tem para onde crescer, porque capacidade para ser um arremessador de grande volume E precisão ele tem. Também já mostrou que pode amadurecer no modo como pontua e como melhora o jogo dos companheiros. Resumindo, ele é uma super estrela à espera de um time à altura para quem sabe, no futuro, ser campeão (a não ser no NBA 2K, onde ele já é). E nessa temporada, finalmente, ele teve algo que lembre minimamente um time.

Todas aquelas decisões lá de cima se saíram muito melhor do que o previsto. Deandre Ayton, de volta da suspensão, mostrou evolução surpreendente na defesa para acompanhar o já conhecido talento ofensivo, que fez dele apenas o terceiro jogador nos últimos 20 anos a ter médias de 18 pontos e 11 rebotes em alguma das duas primeiras temporadas na liga. 

Mikal Bridges assumiu a vaga de titular na bolha e, além de converter respeitáveis 36% da linha de 3, é um dos principais defensores de perímetro da liga ainda como sophomore, enquanto Zhaire Smith mal jogou no Sixers e a escolha de primeira rodada do Heat em 2021 parece cada vez menos valiosa. Cameron Johnson fez quase igual: também assumiu o papel de titular na Disney, cumprindo a já esperada função de arremessador e a não tão esperada de peça defensiva confiável, enquanto Jarrett Culver foi um fracasso em Minnesota.

O valor pago por Rubio pareceu alto, mas o Suns precisava desesperadamente de um armador. O time, que chegou a ter três de bom para ótimo nível ao mesmo tempo (Isaiah Thomas, Goran Dragic e Eric Bledsoe), já não tinha mais nenhum e a situação ficou tão melancólica que obrigou Devin Booker a acelerar o desenvolvimento como playmaker. Os números de assistências e percentual no total de assistências (AST%) de Booker caíram da temporada anterior para essa porque não foi mais preciso sobrecarregar o craque. Rubio estabilizou o time, sendo o terceiro maior assistente da liga, com média de 8.8 por jogo, junto com Luka Doncic.

É claro que alguém que pode pegar fogo, como T.J Warren tem feito em Orlando, faz falta, mas dentro desse contexto a ausência dele foi suprida e o time encontrou uma formação que encaixou e que se projeta bem para o futuro. 

The Athletic levantou que o Suns foi o único time que não teve nenhum jogador acima de 30 anos atuando na bolha (Aron Baynes, de 33, ficou de fora). O time foi um dos que mais dedicou minutos a jogadores jovens, justamente porque a maior parte do elenco está nessa faixa. Ou seja, a tendência é que a evolução siga por um bom tempo. Kelly Oubre Jr, de 24 anos, outro talento jovem da equipe, se recupera de lesão e também não atuou na Disney, mas mesmo assim Phoenix soube fechar jogos complicados e matar jogos com facilidade quando era para ser assim.

Lógico que é preciso ter calma na análise também. Oito jogos são uma amostra minúscula para se tirar maiores conclusões, ainda mais no ambiente em que aconteceram. Só para contextualizar, o time iniciou a atual 2019-2020 com sete vitórias nos primeiros 11 jogos e teve tempo de ir tão mal depois que tornou a campanha na bolha uma segunda surpresa agradável na mesma temporada.

É bem capaz que, se uma bolinha aqui ou ali dos adversários não tivesse caído (essa provavelmente não era para ter caído) e o Suns tivesse chegado aos playoffs, o Lakers estaria ali pronto para dar um choque de realidade na molecada. 

Enfim, restou sentir saudades dos jogos de Phoenix, do twitter do Phoenix (top 10 da liga?) e das introduções fofas da equipe antes dos jogos.

O que aquece o coração de quem acompanha a liga e virou fã circunstancial da equipe por umas semanas é que agora tudo indica que o Suns não é mais só Booker e mais quatro. Por mais que Draymond Green pense diferente, ele agora tem motivos para querer permanecer por lá e ver no que isso vai dar. E a gente fica aqui esperando e assistindo também para confirmar se o futuro finalmente virou presente. De quebra, ainda fica a lição de moral brega: mesmo que pareça tudo errado, não desista. Ás vezes você não errou, né?

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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