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A bolha e o asterisco

Foto: Tania Ganguli / Los Angeles Times

Antes de mais nada, quero dar um grande alô a todo mundo que segue o Blog do Souza e dizer que estou muito feliz em poder ocupar esse espaço por aqui. Como alguém que gosta e acompanha basquete, pretendo dividir com vocês minhas reflexões sobre a liga e ouvir o que vocês pensam sobre os temas abordados. Ou seja, vamos refletir juntos!

Para começar, tenho pensado muito (e não deve ser só eu) em que tipo de consequências a mudança para a bolha pode trazer para essa temporada da NBA em termos de números e resultados. Em um ano que muita gente vai querer apagar da história, quanto de asterisco essa temporada vai carregar? Afinal, tudo que sai do padrão merece um asterisco, especialmente quando se fala em competição. Mas qual o peso deste asterisco nessa temporada?

Bom, esta não é a primeira temporada atípica da NBA. Numa história mais recente, duas vezes a temporada regular foi encurtada. Em 1998/1999 e em 2011/2012. Foram situações diferentes desta, a começar pelos motivos que provocaram as mudanças: greves em função de problemas entre jogadores e donos de times. Agora, todos sabem, o problema é a pandemia.

Em 98/99 o campeão foi o San Antonio Spurs, do jovem Tim Duncan. Em 2011/2012, venceu o Miami Heat, liderado pelo trio Wade/Lebron/Bosh. Surpresas em relação aos campeões? Ao primeiro talvez, Duncan era muito novo e o San Antonio nunca havia conquistado um título. Estava no início da sensacional sequência de 21 temporadas consecutivas nos playoffs, que acabou sendo interrompida este ano, na bolha. Mas em relação ao segundo, ao contrário, com três superstars o título era, para muitos, quase obrigação. Será que o encurtamento da temporada regular influiu nesses resultados? Eu, particularmente, acho que, no final das contas, não.

Outra diferença para o que acontece agora é que as duas temporadas atípicas anteriores tiveram o início adiado e, portanto, todos já sabiam desde o começo como o campeonato ia se desenrolar. Desta vez, o jogo mudou com o cronômetro andando.

O campeonato este ano foi interrompido já quase no final da temporada regular, quando as equipes classificadas para os playoffs já estavam praticamente definidas, principalmente no Leste. O restante da temporada, que acabou tendo o calendário adaptado, serviu para definir os últimos classificados e a ordem de classificação nas conferências, o que este ano decretou apenas os confrontos, já que não há mando de quadra.

Bom, se fosse apenas isso, mesmo com a inclusão do inédito play in, poderíamos dizer que não há grandes diferenças entre a temporada atípica que vivemos agora e as duas anteriores. Mas não é bem assim. Além da presença incômoda do fantasma do vírus, o que torna a temporada 2019/2020 realmente especial é a própria BOLHA. É aí que entra o asterisco.

A NBA foi a primeira das grandes ligas a interromper as atividades, ainda no início da pandemia. A saída encontrada pelos dirigentes para dar continuidade ao campeonato, como sabemos, foi isolar 22 equipes em uma bolha na Disney, em Orlando, com a imposição de rígidos protocolos de segurança. E a solução tem sido, sem dúvida, um sucesso em termos de isolamento dos atletas e de todos os envolvidos. A tal ponto que a ideia tende a servir como inspiração para outras ligas em todo o mundo.

Ok, ok… mas vamos para os reflexos dentro da quadra. Há muitos aspectos a se considerar no formato da bolha que podem interferir no desempenho dos jogadores dentro das famosas quatro linhas e, assim, acabar influenciando os resultados e os desempenhos de times e jogadores.

As duas semanas de complemento da temporada regular, pensando em termos de calendário, foram usadas para dar ritmo aos jogadores e às equipes, que não disputavam partidas oficiais havia mais de 4 meses. Esse recurso, que também buscou evitar lesões, foi mais utilizado, claro, por times que já tinham vaga garantida nos playoffs.

Por isso, vimos alguns jogadores que costumam ser coadjuvantes ganharem minutos e outros, protagonistas, perderem. Esta é uma das razões de terem aparecido vários números individuais surpreendentes. Será que nas verdadeiras arenas, mesmo em jogos que não valem classificação, esses jogadores teriam esta quantidade de minutos com o público pagando valores exorbitantes pelos ingressos?

Vimos já no início da bolha, por exemplo, Lakers e Bucks com recordes negativos e Nets vencendo Clippers e o próprio Bucks. E o desacreditado Suns ser o único invicto, com 8 vitórias. Também tivemos dois dias com mais de 5 jogos em que TODOS os times marcaram mais de 110 pontos. Isso não ocorria na liga desde julho de 1988.

Em termos individuais, alguém apostaria no desempenho espetacular de TJ Warren, que se tornou um dos candidatos ao inusitado título de “MVP da bolha” ao lado de Devin Booker e Damian Lillard (o vencedor)? “TJ Warren está em outro planeta”, afirmou seu companheiro Victor Oladipo. O calouro Michael Porter Jr, outro destaque na bolha, teve média de mais de 20 pontos por jogo até aqui e Austin Rivers fez carrer high com 41 pontos. Por outro lado, Shake Milton vinha com 51% de aproveitamento de 3 pontos nos últimos 20 jogos antes da paralisação e este índice caiu para 29% na Disney. Efeitos da bolha…?

Foto: Getty/Jesse D. Garrabrant/NBAE



Nos playoffs, mesmo com os confrontos valendo vida ou morte, números curiosos ou pouco esperados podem continuar acontecendo. Os jogos serão mais pegados, com certeza, como já mostrou o próprio play in entre Portland e Memphis. Mas as características e as circunstâncias da bolha não vão mudar agora que o torneio vai trocar de fase. A própria NBA faz questão de definir o campeonato na bolha como diferente. “A whole new game” é a assinatura que a Liga adotou nesse momento.

Outras variáveis que vão muito além do calendário e dos minutos em quadra são mais relevantes para indicar o valor do asterisco na bolha e talvez ajudem a confirmar que se trata realmente de um jogo totalmente novo, como propaga o slogan. E basicamente tudo diz respeito ao próprio confinamento.

O principal elemento, e até óbvio, é o fato de todas as equipes estarem jogando no mesmo lugar, mesmo que em ginásios diferentes (porém praticamente idênticos). Isso tem algumas consequências.

Primeiro, não se viaja. Há menos desgaste, o que é bom. Ninguém fica cansado com longos voos e as condições dentro das 3 arenas da Disney são praticamente idênticas, desde a iluminação até a temperatura.

Mas as partidas não tem torcida e isso traz impacto ao jogo, mesmo que de forma não tão explícita. Jogadores reagem de forma diferente a essa situação. Acostumados a enormes arenas, muito barulho e pressão (a favor ou contra), de certa forma eles estão fazendo uma viagem no tempo, voltando à época em que jogavam em ginásios pequenos (mesmo que não tão vazios). Por mais que o DJ tente simular a presença dos fãs e que eles estejam ali de forma virtual, nada se compara a uma arena da NBA.

Essa situação nova demanda algum tipo de atenção especial em relação à motivação dos jogadores, aspecto que os americanos estudam muito e chamam de arousal. Sabe-se que ela é fundamental e tem interferência significativa no desempenho dos atletas. O próprio Lebron James disse depois de alguns dias na bolha que precisou se adaptar. “É uma dinâmica estranha. Eu não jogo em um ginásio vazio há muito, muito tempo. Estou tentando encontrar o ritmo para isso e me concentrar nele”, declarou à ESPN.

Por outro lado, para aqueles que sentem mais a pressão (sim, na NBA jogadores sentem mais ou menos a pressão), a bolha e “essa volta ao passado” podem ser um ambiente mais confortável.

A ausência da torcida afeta também a arbitragem. Uma coisa é apitar no Staples Center um Lakers x Houston e outra é apitar este mesmo jogo no Toyota Center, em Houston. Alguém duvida disso? Já em quadra neutra é outra história.

Além disso, os jogadores têm seus rituais, que também podem ser afetados. Desde o percurso para o ginásio até aquecimento pré-jogo, cada um tem suas manias e até superstições. Muitos desses rituais precisaram ser substituídos ou acompanhados de todo o protocolo de segurança da Covid. Tudo isso mexe com o sistema de concentração e motivação dos atletas e, em altíssimo nível, cada detalhe faz diferença.

Mas um dos pontos mais importantes em relação ao asterisco é o fato de os playoffs este ano não terem um mandante efetivo, o que elimina uma vantagem crucial e decisiva que é jogar 4 partidas em casa se houver necessidade de 7 jogos em um confronto. Afinal, jogar em casa é um fator fundamental em qualquer situação e tem influência real em resultados. Aí alguém pode dizer, “mas ninguém vai jogar em casa e isso iguala as chances de todo mundo”. É justamente nesse ponto que o asterisco ganha mais peso, pois quem teria o mando de quadra perde essa vantagem concreta e isso, sim, significa muito.

Essa mistura de mudanças e novas circunstâncias aumenta a imprevisibilidade da competição. Claro que lá na frente vai ser difícil provar que a bolha realmente influenciou no resultado dessa temporada ou mesmo saber qual dimensão essa influência teve, mas também não acredito que será possível afirmar que estes aspectos não tiveram qualquer efeito sobre o jogo. E você, o que acha?

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NBA

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Marcia Melsohn Ver tudo

Sou jornalista (PUC-SP) e professora de Educação Física (USP). Joguei basquete dos 9 aos 22 anos, do mini ao adulto. Trabalhei como redatora e repórter na Folha de S.Paulo (Editoria de Esportes e sucursais) e na Revista Placar. Como professora, dei aula de Educação Física e fui técnica de basquete na Chapel School, em São Paulo, durante 11 anos. De lá para cá, escrevo para sites e blogs de diferentes empresas. Muito feliz por poder dar meus pitacos agora sobre NBA aqui neste espaço tão valoroso.

2 comentários em “A bolha e o asterisco Deixe um comentário

  1. Você foi precisa e eu não tenho duvida que ficará um asterisco por todos os pontos que mencionou muito bem no seu texto. Fora que já pensou em um LeBron James fora de uma possível final de NBA por conta de ter adquirido um covid? São inúmeras situações que já estão sem duvida influenciando o jogo.

    Parabéns pelo texto! =)

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada, Guilherme. Exato, além do asterisco, as consequências caso não houvesse toda essa segurança seriam seríssimas. Valeu demais o feedback!

      Curtir

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