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Os grandes da NBA e o fardo de ser uma estrela

Foto: Jesse D. Garrabrant/Getty Images

Os jogadores grandes, geralmente os ala-pivôs e os pivôs, sempre possuíram um papel muito importante na NBA. Geralmente eram as grandes estrelas das franquias, dominavam os garrafões ofensivos e defensivos e carregavam suas equipes. Porém, com o passar dos anos eles começaram a perder espaço graças a mudança na maneira como o jogo era desenvolvido (olá Warriors). Isso fez com que os jogadores grandes tivesse que se reinventar, tornando eles mais moveis, ágeis e fazendo ações que antes eram impensadas para esse perfil de jogador. E agora a dificuldade em ser uma estrela para eles é muito maior.

Para entender melhor o contexto, vamos entender como a defesa e a ocupação de espaço mudou muito e RÁPIDO na NBA. Antes proibida, a defesa por zona era tida como uma defesa de quem “não se garantia”. A defesa individual era extremamente valorizada e até mesmo os tipos de ajuda eram menos agressivos, incentivando ainda mais o 1-contra-1. Tá, mas e o que isso tem a ver com os jogadores grandes? Até então, tudo. Os jogadores grandes se aproveitavam do seu tamanho para jogar mais próximo, com arremessos curtos, enterradas e ganchos. As mudanças nas estratégias, com as ajudas sendo realizadas com os jogadores fora da bola flutuando mais em direção ao garrafão e com a mudança nas regras consequentes que agora permitem defesa por zona tornou a área pintada uma experiencia próxima aos blocos de carnaval de Salvador: um lugar apertado extremamente cheio de gente. O que antes era um jogo de 1-contra-1 próximo a cesta e o jogador mais dominante seja fisicamente, seja tecnicamente levava a melhor, agora é uma movimentação que o ataque encontra 5 jogadores, o mascote, o cara das toalhas e uma placa de proibido estacionar dentro do garrafão.

LeBron entendendo que era uma defesa por zona tarde demais.

Mas as mudanças vão além da defesa. O jogo também mudou muito na parte ofensiva. As bolas de três passaram a ter uma importância muito maior por, veja bem, valer 50% a mais de pontos. Além disso, a quantidade de posses de bola vem subindo ano a ano graças a velocidade do jogo, com mais finalizações rápidas em que a defesa se encontra desequilibrada. Isso dificultou imensamente para os pivôs com menos mobilidade e mais pesados, graças ao desgaste muito maior de ter que agora ter que correr mais quadras. Mas então os grandes não conseguiram mais ser estrelas das equipes? Não é bem assim.

Os grandes foram obrigados a reinventar a maneira que eles jogam de diversas maneiras. Vamos usar três jogadores que são estrelas nos seus times e jogam em posições similares porém cumprem funções completamente diferentes: Joel Embiid, Nikola Jokic e Anthony Davis. Embiid tem um perfil mais parecido com os pivôs tradicionais, mais físico e combina com técnica de movimentos perto do aro. Na defesa ele é um excelente protetor de aro também, desviando a rota de vários infiltradores e de arremessos na área pintada. Mas as semelhanças com os pivôs de antigamente acaba ai. Dono de uma lateralidade muito grande para seus 2,13m e com uma paixão por seu arremesso, suas finalizações são predominantemente próximas ao aro (até 3m) mas na forma de arremessos! Isso mesmo, não são enterradas, jogadas no quadradinho, ganchos, são arremessos curtos e médios que fazem parte do maior volume do jogo do pivô. Esses arremessos, em geral, vem do post up, que também é o movimento que o jogador se utiliza pra ganhar vantagem dos defensores.

Embiid mostrando que equilíbrio para arremessar é superestimado.

Já Jokic possui um tamanho e mobilidade que normalmente você vê em pivôs mais clássicos, porém, com um grande diferencial, sua leitura de jogo. Jogadores grandes que eram muito bons passadores, como Tim Duncan e Shaquille O’Neal, em geral davam esses passes após uma dobra ou uma condição especial. Porém, Jokic de fato INICIA jogadas, se utiliza do drible quando necessário e sabe o momento de acelerar e de reduzir o ritmo do jogo. Além das suas mais de 7 assistências por jogo, ele é responsável por criar ângulos de passes e criar desequilíbrios para ele e seus companheiros. Em questão de finalização, ele se assemelha muito ao Embiid, com arremessos predominantemente vindos do post up, mas com um volume um pouco maior de finalizações próximo ao aro.

Jokic recebe a bola na linha dos três, leva a bola até o garrafão e finaliza na bandeja.

Anthony Davis é o que possui uma maior diferença em relação aos outros. Sua mobilidade torna ele um bom defensor mesmo no perímetro, um excelente defensor nas coberturas e uma ameaça constante até mesmo nas transições, tanto ofensiva quanto defensiva. Suas finalizações, inclusive, são quase que igualmente divididas em post up, isolação e catch and shoot, tornando ele uma ameaça constante em diversas posições da quadra e causando um problema constante em que tipo de defensor utilizar para marcar ele.

Um cara do tamanho do Anthony Davis não deveria conseguir fazer isso.

Esses exemplos mostram como os jogadores grandes evoluíram junto com o jogo, adaptando seus corpos, técnicas e funções dentro dos times. Eles ainda podem ser sim estrelas e carregar seus times, contanto que o conceito de jogador grande não seja necessariamente o que tínhamos de pivô clássico, com baixa mobilidade e que precisa de muito espaço próximo a cesta para conseguir produzir.

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NBA

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Vitor Hugo Sarvas Ver tudo

Analista de desempenho desde 2014, acredita que a ciência e a prática podem e devem andar juntas. Escrever faz parte da maneira de divulgação científica e mostrar como de fato ambos se completam.

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