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A influência de Tex Winter, o Pitágoras do basquete, na NBA moderna

Tex Winter revolucionou o basquete

“Morice Fred ‘Tex’ Winter foi um treinador que nos fez perceber a necessidade de apaziguar os deuses do basquetebol. Existiam princípios a serem respeitados para que se jogasse da maneira certa. E ele vivia a sua vida da mesma maneira”, essas foram as palavras de Phil Jackson quando soube que seu companheiro de tantos anos no banco do Chicago Bulls e Los Angeles Lakers havia falecido.

Tex é considerado o pai do triângulo ofensivo, ou ataque de poste triplo, que deu seis títulos aos Bulls, nos anos 90, e cinco para os Lakers, no início dos anos 2000.

O ataque surgiu quando Winter era treinador de Kansas State de 1952 a 68. Com ele, o time venceu 261 partidas e perdeu 118, vencendo oito títulos de conferência em 15 anos. Quando deixou Kansas State, Winter era o treinador com mais vitórias no país.

O triângulo ofensivo é ataque de movimentação contínua em um estilo ler e reagir. Depois de iniciado, não existem jogadas ensaiadas no triângulo, os atletas devem ler a defesa, os companheiros e reagir ao que acontece em quadra. 

Winter costumava descrever o ataque como “cinco dedos em uma luva”, cinco colegas de equipe, espaçando a quadra, e dando passes certeiros até encontrar um arremesso livre. 

Por não trabalhar com jogadas ensaiadas, o triângulo precisa de jogadores com um alto QI de basquetebol, que saibam ler rapidamente o que acontece em quadra. Tipo o crânio do Dennis Rodman, lembram que falei quando comentei o The Last Dance? Sem jogadores assim, o ataque fica em desvantagem, já que, em um sistema mais restrito, os jogadores apenas reagem ao próximo passo da jogada.

Existem infinitas maneiras de utilizar o triângulo, podendo ser adaptado à força do elenco e às mudanças de prioridade no basquete.

Tex sempre encarou o jogo como um trabalho de amor, uma maneira de levar a vida. E ele mostrava isso na sua meticulosidade. Michael Jordan, o maior jogador de basquete da história, nunca conseguiu agradar por completo Tex. Para Winter, Michael não aprendeu a dar um passe de peito.

Essa atenção ao detalhe fazia com que todos seus times iniciassem o dia de treinos com fundamentos do basquete. Passes de peito, movimentação, trabalho de pés. Afinal, você precisa caminhar antes de correr. 

Durante os treinos do Dream Team, em 1992, Jordan e seu companheiro de Bulls, Scottie Pippen, costumavam conversar sobre o quão melhor Clyde Drexler seria com Winter ao seu lado. “Se Clyde tivesse o Tex Winter ao lado dele”, disse uma vez Pippen, “ele seria do nível do Michael Jordan”. Clyde não tinha muitos fundamentos em seu jogo, com Tex ao seu lado, isso mudaria.

Mas o trabalho de Tex era muito além das estrelas. Ele brilhou ajudando jogadores como Ron Harper, Brian Shaw, Steve Kerr, Derek Fisher. 

“Phil costumava dizer que ele não usava o triângulo para o Jordan ou Pippen, usava para [o restante do time]”, disse Kerr, a Sports Illustrated. “Isso que faz o ataque único. Dá uma chance, e um papel definido, para os jogadores que não são estrelas, já que, eles estão constantemente passando, arremessando, se movendo, então eles se sentem mais envolvidos. Isso foi muito bom para [os Bulls], ter um treinador que falava, assim que vamos jogar e não vou levantar e berrar com vocês. Vou deixar que vocês trabalhem o ataque sozinhos”.

Esse envolvimentos do restante do time fez com que Jordan hesitasse em aceitar o ataque de Winter. “Ele costumava gritar comigo ‘mova a bola, mova a bola. Não tem I (eu, em inglês) na palavra team (time)’. Eu costumava responder, ‘não, mas tem em win (vencer)’”.

Bill Cartwright, pivô dos Bulls no primeiro 3peat do time, descrevia Winter como o melhor professor de basquete. Generoso com o seu tempo, pronto para oferecer explicações, só não espere elogios. Seu comportamento tempestuoso era um complemento perfeito para o estilo zen de Jackson. 

Tex era extremamente humilde. Uma história favorita dos bastidores dos Bulls aconteceu em Nova York, nos anos 90. Chicago precisava que Tex fosse até Nova Jersey para fazer o scout de um jogador. O time ofereceu um táxi ou uma limosine para que o treinador fosse até a cidade vizinha. Winter negou, acabou indo de ônibus. Afinal, segundo ele, os donos da equipe já pagavam bem demais, não precisavam gastar mais.

Uma cria da depressão dos anos 30, ele questionava porque as pessoas jantavam fora quando existia uma ótima seleção de carnes e batatas na sala de imprensa.

Ele também tinha um senso de humor ótimo. Em 2009, quando tinha 87 anos, ele brincou com repórteres que, apesar de não ter pendurado a cesta de pêssego do primeiro jogo de basquete da história, estava lá, segurando a escada.

E, até hoje, os dedos de Winter estão em toda a parte da NBA. O Golden State Warriors usa infinitas partes do triângulo. Uma das mais visíveis é como o time coloca um ótimo arremessador na zona morta, para chamar a atenção da defesa e abrir espaços para o time. 

Até hoje, não encontrei uma pessoa que fosse contra o triângulo que conseguisse explicar os motivos. O máximo que tirei de alguém foi, “é baseada em chutes de meia distância”. Quando rebati que sim, era, mas assim como mudou dos Bulls de Jordan para os Lakers de Shaq e depois dos Lakers de Kobe, ela era facilmente adaptada aos dias de hoje. 

Jordan, Pippen e Horace Grant. Depois Dennis Rodman. Shaquille O’Neal. Kobe Bryant e Pau Gasol. Todos eles passaram pelos obsessivos treinos de Winter. E todos eles o amam. Todos aguentaram horas de passes de peito, trabalho de pés, rebotes. “Basquetebol e ensinar eram suas vocações”, disse Phill Jackson. “Como um missionário”.

Rubens Borges Ver tudo

Rubens Borges entrou no jornalismo esportivo em 2005, no BasketBrasil. Tempos depois, se juntou ao Blog Squad do site da NBA no Brasil. Entre os dois trabalhos, ele iniciou o blog e Twitter do Hit the Glass. Nas quadras, jogou em times como o Petrópole Tênis Clube e PUCRS.

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