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Times históricos: a seleção da URSS que venceu os EUA no meio da Guerra Fria

Este artigo faz parte da série de textos dedicados a contar a história de grandes jogadores, times e treinadores do basquete europeu. Clique aqui para ler outros textos que fazem parte desta série.

Há quase 48 anos, em 10 de setembro de 1972, a partida das finais nos Jogos Olímpicos de Munique ficou conhecida pelo feito inédito alcançado pela seleção da União Soviética: a medalha de ouro. A partida também é lembrada pelos americanos como uma das mais controversas da história dos esportes. Aquele confronto no campo esportivo foi, em grande parte, uma continuação do conflito político da Guerra Fria, que estava em seu auge. Muitos telespectadores dos Estados Unidos acreditavam que os Jogos Olímpicos eram francamente antiamericanos. Entenda toda essa história, que até virou filme, neste texto.

As partidas entre atletas dos EUA e da URSS sempre foram algo natural no meio esportivo, mas, no basquete, elas começaram a se tornar ainda mais corriqueiras. A equipe americana, antes do torneio Olímpico de 1972, era considerada, como sempre, a favorita. Desde 1936, ou seja, os primórdios do basquete nas Olimpíadas, os atletas americanos não perderam nem uma vez. Foram sete medalhas de ouro seguidas, além de uma invencibilidade de 63 jogos.

Seleção dos Estados unidos de basquete com a medalha de ouro nas Olimpíadas do México em 1968

Já na União Soviética, apesar do basquete melhorar cada vez mais no país, o primeiro lugar no pódio ainda não tinha vindo. Foram quatro Olimpíadas seguidas chegando nas finais e ficando com o vice contra a equipe americana (1952, 1956, 1960 e 1964). Em 1968, eles ficou o bronze. Porém, fora do programa dos Jogos Olímpicos, a equipe da União Soviética havia se sagrado campeã da Copa do Mundo em 1967, mostrando toda sua força no esporte e dando sinais de que poderiam, sim, bater a equipe dos Estados Unidos futuramente.

Cabe destacar também que apenas atletas amadores poderiam participar dos Jogos Olímpicos naquela época. Havia muita controvérsia quanto ao status formal do que era realmente um atleta amador na equipe da União Soviética, pois aos olhos dos especialistas ocidentais que classificavam os profissionais, a URSS tinha um time misto. O correspondente americano Frank Saraceno até chamou os atletas soviéticos da época de quase profissionais, enfatizando a posição incerta. O conflito começava a ganhar forma.

Os preparativos para os Jogos Olímpicos de 1972 em Munique

A equipe estadunidense que chegou às Olimpíadas era a mais jovem da história. Geralmente os jogadores americanos que participavam dos Jogos Olímpicos jogavam apenas uma vez, já que o time de basquete dos EUA conseguia se renovar facilmente, sendo equipado novamente com jogadores dos times estudantis do país, nas idades entre 20 e 21 anos. O desempenho nas Olimpíadas influenciava muito nos resultados do Draft da NBA e, consequentemente, a carreira de um jogador profissional. Isso atraía jovens atletas promissores para seleção nacional. 

Naquela equipe de 1972 não havia um líder entre os jogadores. Bill Walton, a estrela em ascensão do basquete americano e da Universidade da Califórnia, acabou não participando dos Jogos. Mas, mesmo sem ele, o time era sempre o favorito em qualquer competição de basquete que eles estivessem. Uma arma que a seleção americana possuía era Tommy Burleson, o jogador mais alto daquelas Olimpíadas – 2,23 metros de altura (outras fontes relatam 2,18 metros).

No meio está o gigante americano Tommy Burleson

Pela terceira Olimpíada consecutiva, Henry Ayba, aos 68 anos, foi escolhido como treinador da equipe dos EUA. Famoso em seu país por treinar o time da Universidade de Oklahoma, Ayba era considerado um amante de times mais defensivos, o que em geral era historicamente pouco característico da maneira como a equipe americana jogava.

Já a principal adversária dos Estados Unidos, a seleção Soviética, que como já citado havia sido campeã mundial e vinha mostrando o quanto sua seleção tinha ganhado experiência em quadra, era liderada por Sergei Belov e Alexander “Sasha” Belov, que já jogavam juntos havia sete anos, além de também não ter havido muitas alterações no resto da equipe naquele tempo. Mas para todos os veículos de imprensa e fãs do basquete daquele tempo, a União Soviética só iria brigar para conquistar a medalha de prata, pois a medalha de ouro nunca havia ido para outra equipe que não fosse a norte-americana. Quem seriam eles para conseguirem aquele feito? A pressão já iniciava antes mesmo dos jogos começarem.

De 1966 a 1970 o treinador do CSKA Moscou e da equipe nacional da URSS foi Alexander Gomelsky. Porém, após o fracasso na Copa do Mundo de 1970, ele foi substituído pelo técnico do Spartak Leningrado, Vladimir Kondrashin. A força do treinador soviético era o seu conhecimento de psicologia, ajudando a estimular a capacidade de atingir objetivos com recursos limitados e a também na forma de influenciar o resultado do jogo com substituições precisas de jogadores.

O confronto tão esperado

Ambas as equipes chegaram à final Olímpica, mas encontraram alguns adversários duros durante o caminho. Os Estados Unidos na fase de grupos tiveram uma partida relativamente difícil contra a seleção brasileira, na qual tiveram que buscar o resultado e virar a partida, vencendo por 61 a 54. Já a URSS encontrou dificuldades na fase preliminar contra a seleção de Porto Rico, mas venceram por 100 a 87 (Alexander Belov marcou 35 pontos).

A trajetória realmente não foi fácil para a seleção Soviética, encontrando a resistência dos cubanos nas semifinais. Durante a partida, os atletas soviéticos chegaram a estar perdendo por seis pontos, mas os jogadores cubanos não calcularam a força, fizeram muitas faltas e, consequentemente, a URSS se aproveitou disso para vencer o jogo por 67 a 61 e garantir a vaga na final olímpica.

Era chegada a hora do confronto final entre dois países que, fora das quadras, estavam em uma silenciosa guerra política. A bola subiu às 23h50 no horário da Alemanha, em 9 de setembro (em Moscou, já era 00h50 do dia seguinte). O início tão tardio do jogo foi por conta do desejo da organização dos Jogos de que a partida fosse televisionada na América do Norte em horário nobre.

A partida começou com os jogadores visivelmente nervosos, não só pelo horário do jogo, mas por toda atmosfera que rondava o confronto, fazendo com que demorassem a entrar no ritmo da partida. Mas com o tempo, Sergei Belov foi encontrando o ritmo e liderou sua seleção a uma vantagem em cima dos americanos. A primeira metade terminou com o placar de 26 a 21 a favor dos soviéticos.

No segundo tempo, faltando 12 minutos para o final do confronto, ocorreu uma confusão entre Mikhail Korkia e Dwight Jones. Ambos os jogadores foram expulsos da partida. Era a situação perfeita para a URSS, uma vez que Jones significava muito mais para o esquema tático da equipe norte-americana do que Korkia para os Soviéticos. Depois da expulsão dos atletas, foi determinado pelo árbitro bola ao alto para o reinício da partida. A disputa seria entre Alexander Belov e o ala-pivô americano Jim Brewer. Quando a bola foi lançada, Brewer acabou caindo errado e batendo a cabeça no chão. A equipe médica foi chamada e Jim precisou sair da partida naquele momento. Muitos alegam até hoje que Belov tocou em Brewer no ar para que ele se machucasse e acabou passando despercebido pelos árbitros.

Por conta das situações ocorridas, a seleção da URSS chegou a abrir dez pontos de vantagem, faltando nove minutos para o jogo acabar. Porém, todo aquele esforço feito pelos soviéticos começou a pesar, pois os jogadores estavam visivelmente cansados​, além do nervosismo de ver a equipe americana encostar no placar e o tempo ficar cada vez mais escasso. 

Os últimos segundos e a confusão desenfreada

Faltavam alguns segundos para o final da partida e a vantagem soviética, que era de dez pontos, havia caído para apenas um ponto (49 a 48). No entanto, mesmo com a vantagem, ao invés da União Soviética só esperar o término dos segundos com a posse da bola, a vontade de aumentar a vantagem foi maior naqueles instantes derradeiros. E acabou acontecendo algo que eles não esperavam.

Depois de várias tentativas ofensivas da URSS, a bela marcação dentro e fora do garrafão feita pelos jogadores americanos começou a apertar, não deixando eles respirarem naquele último ataque. Foi quando Alexander Belov tenta uma cesta embaixo da tabela, mas é pressionado por uma marcação dupla e, no desespero, rifa a bola para trás, na esperança de que algum companheiro pegasse a bola. Rapida e inteligentemente, Doug Collins dos EUA consegue desviar a bola no ar e partir para o contra-ataque faltando oito segundos. Collins é derrubado brutalmente pelo soviético Zurab Sakandelidze quando iria tentar a cesta da vitória e fica no chão alguns segundos. Ele cobraria os dois lances livres referentes à falta que recebeu, o que seria a chance dos Estados Unidos de virar a partida.

O clima da partida estava cada vez mais tenso, fazendo com que os jogadores não percebessem que a sirene soou quando Collins foi para o segundo arremesso do lance livre, além do cronômetro correr para um segundo depois da segunda tentativa. Depois dos arremessos de sucesso do americano que estavam dando a vitória parcial para a equipe ocidental, o árbitro deu a bola para Alzhan Zharmukhamedov continuar o jogo. Nesse momento, o assistente técnico da equipe nacional da URSS, corre para a mesa de arbitragem pedindo tempo, tentando descobrir o porquê dos juízes não terem parado o jogo e não terem voltado o cronômetro para três segundos. Até então só, ele havia percebido o erro. Como consequência do nervosismo em conjunto, os jogadores da União Soviética repuseram a bola em jogo. Sendo que o assistente já havia pedido o tempo técnico, para que os árbitros pudessem ver o erro no cronômetro.

A confusão estava começando a se armar, porque, na realidade, a equipe soviética não tinha mais tempo para pedir e na confusão os árbitros acabaram concedendo a parada técnica sem perceber. Os jogadores americanos então, começam a reclamar com a mesa cobrando o erro em quadra. Nesse meio tempo, um membro da delegação soviética, Yuri Ozerov, que estava sentado na arquibancada pede ajuda ao secretário-geral da FIBA, William Jones, que estava presente na arena. Os dois já eram amigos, fazendo com que Jones fosse pedir para que os árbitros do jogo dessem o tempo técnico à equipe da URSS e que o cronômetro retrocedesse.

A interrupção acabou, mas o show de erros não. O cronômetro no placar do ginásio parecia ter voltado aos três segundos como havia sido pedido, restando apenas repôr a bola em jogo. Os árbitros entregam a bola para o soviético Ivan Edeshko, que na reposição toca para Modestas Paulauskas. Quando o armador recebe a bola em jogo, ele se assusta com o barulho da sirene que toca rápido e acaba jogando a bola no reflexo antes mesmo do meio da quadra. Mas faltavam três segundos, o que lhe dava tempo de sobra de pelo menos tentar um arremesso mais perto. Então, por que a sirene tinha tocado tão cedo? Sim, o cronômetro marcava o tempo certo de segundos, porém a sirene ainda estava programada para um segundo. Mais um erro. No entanto, na euforia, os jogadores americanos começaram a comemorar a vitória e a medalha de ouro.

Jogadores comemorando a vitória na final Olímpica, antes dos árbitros voltarem a jogada.

Por causa do deslize da equipe de arbitragem, novamente o secretário-geral da FIBA intervém e pede a volta da jogada. Depois de muita confusão e discussão entre jogadores, técnicos e árbitros, a jogada iria voltar novamente. De novo a bola estava com Ivan Edeshko na reposição. Desta vez, a equipe dos Estados Unidos se comportou de maneira diferente defensivamente. Alguns americanos até hoje entendem que o gesto que o juiz fez na reposição da bola deu a entender que ele pediu para que o jogador americano Tom McMillen se afastasse de Edeshko, para que o jogador da URSS conseguisse colocar a bola em jogo com facilidade. Já para os Soviéticos, só foi um erro de interpretação do jogador norte-americano.

Enfim, obedecendo ao gesto do juiz, McMillen não interfere no momento de recolocar a bola em jogo. O passe dessa vez foi, facilmente, reposto bem longe, cruzando toda a quadra até chegar em Alexander Belov que estava no garrafão. Alexander consegue ganhar no ar a disputada contra os defensores americanos e cuidadosamente faz a cesta tabelada. Dessa vez a sirene toca corretamente e a União Soviética garante a tão sonhada medalha de ouro diante dos Estados Unidos, pelo placar de 51 a 50.

Alexander Belov fazendo a cesta oficial da vitória na Final Olímpica do Basquete, em Munique no ano de 1972.

Imediatamente após a partida os americanos protestaram, tentando uma apelação do resultado da partida. Naquela noite, eles se reuniram com os representantes da FIBA para considerar todas as circunstâncias da partida. A votação do conselho terminou com três votos a dois a favor da decisão de deixar o placar da partida 51 a 50 a favor da URSS. Os jogadores e a equipe técnica americana viram a decisão como política e como resultado, decidiram não comparecer à cerimônia de premiação no dia seguinte.

Em outubro de 1972, o diretor executivo do Comitê Olímpico dos EUA, Arthur Lenz, enviou um segundo protesto oficial ao COI (Comitê Olímpico Internacional) sobre o resultado do jogo, sem obter resposta da FIBA. Segundo Arthur, um dos árbitros, o brasileiro Renato Rigetto, recusou-se a assinar a súmula da partida e ainda disse na época que o resultado da partida foi alcançado violando as regras do basquete. O que deu mais argumentos para os americanos, que citam isso até hoje. No entanto, Gabdlnur Mukhamedzyanov (um dos árbitros soviéticos que participou do torneio) disse em uma entrevista que viu pessoalmente a assinatura de Rigetto na súmula e, por isso, não foi contra o resultado da partida.

O árbitro Renato Rigetto, após as Olimpíadas de Munique, nunca mais apitou partidas internacionais por conta do ocorrido. Mas em 2007, seu nome foi incluído honrosamente no Hall da fama da FIBA.

Cerimônia de premiação sem os jogadores dos Estados Unidos no pódio.

As medalhas de prata dos americanos ainda são mantidas em segurança, na sede do COI em Lausanne (Suíça). E um fato interessante foi que o capitão da equipe norte-americana, Kenny Davis, colocou em seu testamento que nem sua esposa nem seus filhos receberão a medalha a prata das Olimpíadas de Munique depois de sua morte. 

Os americanos até hoje não reconhecem a derrota, mas para os Soviéticos, cada um daqueles jogadores foram heróis nacionais em meio a todo um conflito político. Alexander Belov, o responsável pela cesta da vitória, morreu seis anos depois por conta de um problema cardíaco. Ele, além de ter sido duas vezes campeão da Copa Saporta pelo Spartak Leningrado nos anos subsequentes a conquista olímpica, acabou se tornando, depois de seu falecimento, o primeiro não americano a entrar no Hall da Fama da FIBA.

Vídeo dos momentos finais do confusa final Olímpica de 1972

Este texto é um conteúdo original do EuroLeague Brasil e não deve ser reproduzido em outros sites sem o devido consentimento.

Equipe EuroLeague Brasil Ver tudo

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