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O clã Popovich é o presente e o futuro da NBA

Antes de começar, tenho que admitir: quando tive a ideia desse texto, pensei que um Spurs sem o principal jogador (LaMarcus Aldridge) e um time que já não era grandes coisas corria bastante risco de perder os primeiros jogos e já chegar ao dia de hoje eliminado da Copa Mickey, vulgo NBA. Ou próximo disso.

Aí, o gancho estaria feito: pela primeira vez desde 1997, teríamos playoffs sem a franquia texana e, consequentemente, sem Gregg Popovich. 

Bom, o San Antonio ganhou as duas primeiras partidas na bolha (e vendeu muito caro a derrota na terceira, ontem), então o gancho vai ter que esperar um pouco. Mas não muda muito a minha ideia central: talvez ainda não seja dessa vez que vamos ter o marco do início da era pós-Pop, mas assim que isso acontecer, vamos viver num mundo onde a influência dele na liga vai continuar muito presente.

Atualmente, cinco técnicos de outras equipes foram assistentes diretos de Popovich: Mike Budenholzer (Milwaukee Bucks), Brett Brown (Philadelphia 76ers), James Borrego (Charlotte Hornets), Jacque Vaughn (Brooklyn Nets) e Jim Boylen, que até a última vez que eu vi, estranhamente, ainda treina o Chicago Bulls. 

Brett Brown, hoje no Sixers, foi assistente de Popovich por nove temporadas. FOTO: Kyle Terada/USA SPORTS Today

Mas se o assunto é a “árvore genealógica” de Pop na NBA, os galhos se estendem para outras direções também. Taylor Jenkins, do Memphis Grizzlies e Quin Snyder, do Utah Jazz, foram do corpo técnico das afiliadas do Spurs na G-League e na antiga D-League. Lloyd Pierce, comandante do Atlanta Hawks, não foi parte do staff em San Antonio, mas foi assistente de Brett Brown no Sixers. Caso parecido com o de Kenny Atkinson, ex do Brooklyn Nets, que assistiu Mike Budenholzer quando ele treinava o Hawks. 

E não para por aí: Monty Williams, técnico do Phoenix Suns, já estagiou por lá; Mike D’Antoni, que é quase tão coroa quanto Pop (tem 69 anos, dois a menos que Gregg) e treina o Houston Rockets, foi scout do Spurs por uma temporada.

Steve Kerr, o cara que colocou mais alguns aneis nos dedos no Golden State Warriors como técnico, não foi assistente, mas ganhou dois títulos, como jogador, sob as orientações de Popovich. 

O assistente do Kerr no Warriors, Mike Brown, é outro que foi da comissão técnica em San Antonio antes de assumir o comando de uma equipe. Não deixou muitas saudades no Lakers, mas levou o Cleveland Cavaliers à final da NBA em 2007, na qual, curiosamente, foi varrido pelo Spurs do antigo mestre.

E dava para ter mais gente nessa conta. Recentemente, o New York Knicks confirmou Tom Thibodeau como novo treinador, mas no processo de escolha entrevistou três nomes com ligações com San Antonio: o já citado Mike Brown, Ime Udoka, que foi assistente do Spurs e do Sixers, além de Will Hardy, atual assistente de Pop no banco do time.

A final da NBA de 2007 reuniu Popovich e Mike Brown. FOTO: D.Clarke Evans/Getty Images

Dois anos atrás, uma das vagas mais cobiçadas que surgiram na NBA foi a de técnico do Bucks, quando o monstrinho Antetokounmpo já estava ali querendo estourar. Como já dito, ela ficou com Budenholzer, mas poderia ter ido para Becky Hammon, que foi entrevistada. A ex-estrela da WNBA faz parte do staff de Popovich.

Não sei se ficou cansativo para vocês, mas enfim. Se dizem que você acha brasileiro em qualquer lugar do mundo, você também encontra alguém que passou pela escola Gregg Popovich em qualquer lugar da NBA.

O curioso é que entre todos esses nomes citados, com exceção de Steve Kerr, que, vamos lembrar, não foi assistente em San Antonio, nenhum conquistou um título na NBA ainda. Ou seja, existe uma clara diferença entre aprender de Popovich e ser bom como ele. 

É óbvio que a comparação já começa injusta para qualquer mortal. Estamos falando de um cara com cinco títulos da NBA, top 3 em número de vitórias na liga tanto na temporada regular quanto nos playoffs. Na real, se juntarmos os dois números em um só, Pop é o técnico mais vencedor da história. 

Só que ser campeão da NBA é difícil demais. Por outro lado, ganhar o título também não é necessariamente sinônimo de genialidade no banco. Mike Brown teve LeBron James em forma física exuberante e poderia ter conquistado algum título no Cavs sem problemas. Para dar um exemplo mais atual: Jacque Vaughn fracassou no Orlando Magic e está comandando o Brooklyn Nets interinamente, pronto para ser varrido pelo Bucks. Na próxima temporada, vai ganhar de presente Kyrie Irving e Kevin Durant supostamente novinhos em folha e o Nets passa a ser candidato a título, independente de quem estiver no comando.

É difícil saber que tipo de ensinamento um assistente deve tentar sugar de Popovich. Ele é evidentemente um grande líder, que sabe motivar os atletas das formas mais inusitadas, inclusive. É um grande conhecedor de talentos, que soube fazer do Spurs um modelo de sucesso por duas décadas basicamente rodando as peças ao redor do trio Duncan, Ginobili e Parker (e depois com Kawhi). Também mostrou entender os princípios do jogo, mantendo o Spurs nas cabeças enquanto variava o estilo de jogo, embora sempre calcado numa defesa forte.

Não é difícil imitar, no entanto. Jim Boylen chegou no Bulls em 2018 e logo mostrou não ter muita noção das coisas. Um dos episódios mais toscos foi quando ele trocou os cinco jogadores que estavam em quadra não uma, mas duas vezes na mesma partida. É claro que eles não gostaram. Boylen disse que queria dar uma mudada e que isso é algo que Popovich já cansou de fazer. O Bulls acabou sofrendo a pior derrota de um time mandante na história da NBA e saiu de quadra ao som de vaias.

Mas nem toda imitação é uma ideia de jerico. Pop também é famoso na liga pelo hábito de bancar jantares para toda a equipe, regados a muito vinho, com o intuito de aproximar o pessoal, que, principalmente nos jogos fora de casa, não passa tanto tempo junto. Mike Budenholzer já adotou a prática e inclusive reuniu o elenco do Milwaukee em plena bolha da Disney.

Budenholzer, aliás, com dois prêmios de técnico do ano na bagagem, um possível terceiro e um fortíssimo elenco que pode dar a ele o título da NBA, parece o mais provável ou o mais imediato sucessor de Popovich. Essa é aquela discussão que a gente vai adiando porque não quer pensar numa NBA sem Pop, mas o dia se aproxima.

O técnico assinou um rico contrato de três temporadas a partir de 2019-2020. Mas, aos 71 anos e recém-viúvo, é sabido que ele vai avaliar a motivação de continuar ano após ano. É cada vez mais palpável a possibilidade de que a temporada em vigor seja a última dele, pelo menos à frente do Spurs (Pop também é técnico da seleção americana). Não dá para contar que ele vá cumprir o contrato até o fim.

Se Budenholzer parece o sucessor em termos de retrospecto, uma eventual aposentadoria de Gregg Popovich traria a discussão sobre quem merece ser o sucessor de fato no banco do Spurs. 

Informações circulam de que Bill Self, técnico da Universidade de Kansas, é uma possibilidade. Mas existem opções caseiras viáveis.

Curiosamente, uma delas é aquele que é talvez o único nome acima de Popovich na história do Spurs. Tim Duncan. Ao contrário do que costumamos ver, o currículo de hall-da-fama de Duncan não garantiu a ele um emprego de técnico de imediato. No entanto, na primeira temporada como assistente no Spurs, ele subiu rápido na hierarquia. Em novembro, quando Pop foi ejetado de um jogo, foi ele quem assumiu. Em março, aconteceu de novo quando o técnico precisou se ausentar. Veio a primeira vitória de Tim Duncan usando terno e dread:

A decisão de Pop de nomear Duncan como substituto até criou polêmica. Becky Hammon, de 43 anos, tem seis anos de experiência no banco ao lado do técnico. Esperava-se que ela seria a escolhida, o que teria ramificações históricas, já que ela se tornaria a primeira mulher a treinar um time da NBA. Pop tinha outras ideias e disse: “Não estou aqui para fazer história”. 

Outra opção vinda de dentro da instituição seria Will Hardy que, aos 32 anos, é uma espécie de prodígio. Ele tem 10 anos de casa, sendo os últimos quatro como assistente.

Duncan ser o escolhido seria bem emblemático, já que ao longo da carreira Popovich disse várias vezes que se aposentaria no dia que o camisa 21 deixasse as quadras. A promessa foi quebrada, mas o desfecho seria poético. Tanto Hammon como Hardy também parecem em boa posição e mesmo que não sejam escolhidos, têm totais condições para assumir outros times. É só ver que já eles já vêm sendo considerados.

Becky Hammon, Tim Duncan e Will Hardy são parte do atual staff do Spurs. FOTO: Darren Abate/AP

Por enquanto, Pop vai ficando e se negando a desistir. Por mais que tenha dito que a intenção do Spurs em Orlando é desenvolver jogadores, ele tem feito isso enquanto vence, surpreendendo muita gente. Mas mesmo que o esforço não renda uma vaga nos playoffs – quebrando uma sequência de 22 anos -, o papel dele, em termos de história da NBA, já está mais que cumprido. Se o Spurs nunca mais voltar aos playoffs com Pop, o papel continua cumprido também. O clã Popovich não vai deixar ninguém esquecer esse nome.

Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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