Ir para conteúdo

O precursor do showtime

Pistol Pete Maravich

“Eu lembro que eu estava vindo em um contra-ataque três contra um. O marcador estava marcando o lado esquerdo e deixando o jogador na direita livre. Mas esse era um passe fácil demais. A gente iria marcar dois pontos de qualquer maneira, então não faria diferença. Enquanto o marcador se movia lateralmente, e eu driblava, notei que suas pernas se fechavam e se abriam, fechavam e abriam. Ainda driblando, eu vi o momento certo, e passei bem no meio das pernas dele, para meu companheiro de equipe na esquerda. A torcida, cara. A torcida, eu quero dizer, eles piraram. Meu marcador parecia que alguém havia pisado na cabeça dele”.

O showtime profissional nasceu com “Pistol” Pete Maravich, o armador de passes malucos, arremessos de qualquer lugar da quadra, cabelos longos e meias velhas. Na NCAA, “Pistol” jogou na LSU, hoje mais conhecida como Love Shaq University. Chegou ao basquete profissional batendo recordes. Pete escolheu o Atlanta Hawks, da NBA, em vez do Carolina Cougars, da ABA, ao receber uma oferta de US$ 1,9 milhões, então o maior pagamento para alguém vindo da universidade. 

Após os Hawks, ele passou pelo New Orleans Jazz, depois Utah Jazz. Pete jogou apenas 17 partidas por Utah e encerrou sua carreira com o Boston Celtics. Não é fácil jogar por um time de expansão em seu primeiro ano. Pior ainda quando é alguém do calibre de um “Pistol” Pete. Mesmo assim, ele teve médias de 21,5 pontos, 6,2 assistências, 5,3 rebotes e 1,5 roubadas de bola por partida, mas os Jazz venceram, somente, 23 partidas.

A segunda temporada viu o time vencer 38 partidas, mas foi a terceira que teve um dos momentos mais clássicos da carreira profissional de Maravich. No dia 25 de Fevereiro de 1977, ele enfrentou o New York Knicks, com um dos melhores defensores da história da NBA, Walter “Clyde” Frazier. E “Clyde” sabia de sua proficiência defensiva. “Pete vai ter problemas em marcar todos aqueles pontos com uma defesa de verdade”, conclamou antes da partida.

Três noites antes os Knicks haviam vencido os Jazz por 119 a 102, e estavam prontos para repetir o feito. Depois da partida, “Clyde” resumiu, “Não tinha como pará-lo. O ‘Pistol’ tava quente hoje. O que me pareceu é que ele converteu arremessos de todos os lugares. Arremessos sem consciência”.

Os 68 pontos de Pete foram parecidos com os 81 de Kobe Bryant. Maravich converteu 26 de 43 arremessos, Bryant fez 28 de 46. Foram 16 de 19 lances-livres para “Pistol”, 18 de 20 para Bryant. A grande diferença está na linha de 3 pontos, enquanto Kobe converteu sete de 13, Maravich não tinha esse luxo. Tivesse o chute de longa distância, e “Pistol” era um ótimo arremessador de onde hoje seria a linha dos 3, e o armador dos Jazz poderia ser o segundo maior pontuador em uma partida da NBA.

Querem saber quão bom ele era dos 3? Vamos voltar para a NCAA um pouco. Em 83 partidas, Maravich converteu 3.667 pontos, uma média de 44,2 pontos por partida. Com chutes de 2 pontos apenas, Pete arremessou 38 vezes por jogo. Para alguém que chutava bastante de longe, o aproveitamento de 43,8% de seus chutes não é algo ruim. 

Agora, vamos chegar onde eu queria. Dale Brown, eterno treinador da LSU, anotou todos os arremessos de Maravich. Algo tipo “bandeja – convertido”, “lance-livre – convertido”, “arremesso a 9 metros da cesta – convertido”. Depois ele fez as contas, levando em consideração os chutes convertidos que seriam dos 3 pontos. Sabe quanto ficou a média de “Pistol”? Absurdos 57 pontos por jogo. CINQUENTA E SETE PONTOS POR PARTIDA. Além disso, ele jogou sem o tempo de posse. Quem sabe não arremessaria ainda mais, pontuando mais e mais e mais e mais.

Assim como George Gervin e seu ano com Michael Jordan, Pete jogou sua última temporada com um dos melhores jogadores da história. Em 1979-80 ele se juntou ao Boston Celtics e Larry Bird. Digo Pete, e não “Pistol” porque Pete e “Pistol” eram quase que duas pessoas diferentes. Pete era um jogador que arremessava demais, “Pistol” era alguém que tinha um repertório insano de jogadas de efeito. Ele era tão diferente que nem seu famoso cabelão e seu onipresente bigodão apareceram. No lugar, um permanente. Aquele clássico dos anos 80.

Pitol Pete Permanente

Cortado dos Jazz, ele ficou entre os Celtics e o Philadelphia 76ers. Pete parecia pronto para assinar com os Sixers, se juntar ao time que venceu a Conferência Leste daquela temporada. Supostamente, um exame retal exigido pelos médicos de Philadelphia fizeram com que Maravich mudasse de ideia. 

Retornando de uma lesão no joelho, Pete tentava voltar a sua velha forma. Quando parecia possível, sofreu uma lesão na virilha. Bill Fitch, o treinador linha-dura dos Celtics, pegou no pé do veterano sem nenhuma preocupação com o efeito que faria em alguém que, pela primeira vez, havia perdido a confiança em seu jogo.

Maravich jogou 26 partidas na temporada regular. Com momentos altos, convertendo uma bola para vencer uma partida contra o Washington Bullets, algumas partidas de 20+ pontos, ele foi um bom contribuidor em um time que passou de 29 vitórias na temporada anterior para 61. Pete converteu 10 dos 15 chutes de 3 que tentou.

Após perder para os Sixers nas finais de conferência, Pete treinou e treinou e treinou. Apareceu em excelente forma para a temporada de 1980-81. Forte, ele estava pronto para ser o titular do time. O maior obstáculo era Fitch e seu aparente ódio pelo armador.

Fitch se recusava a dar uma chance de titular. Determinado, Maravich fez 38 pontos em um treino, pronto para reforçar seu lugar no time. Em vez de ficar feliz, Fitch apareceu para o próximo treinamento com um mau humor do cão. Descontou em todo o time, principalmente no seu alvo preferido, Maravich.

Em um momento, ML Carr se encheu do treinador e chutou a bola para longe. Fitch, que estava de costas, viu Maravich ao lado de Carr e começou a xingar Pete. Carr tentou intervir, confessando que havia chutado a bola, mas Maravich resolveu que havia sofrido o suficiente.

Naquela noite, Maravich ligou para um amigo, “acho que arremessei uma bola a mais do que deveria”, se lamentou, indicando que seu tempo passou. No dia seguinte, não apareceu para o treino. Terminava ali a carreira de um dos jogadores mais criativos que já pisou em uma quadra.

Para não terminar em uma nota depressiva, vou traduzir a história que ele conta no início desse vídeo, com a palavra “Pistol” Pete Maravich. “Um amigo chegou, com um monte de amigos, e disse ‘aposto que você não consegue girar a bola no dedo por uma hora’. Nossos amigos incentivaram ‘vai lá Pete, você consegue!” Respondi que OK, apostaria US$5. Um monte de crianças se juntaram e comecei a girar. Girei em um dedo, por uns três, quatro ou cinco minutos. De repente, a unha começou a gastar, começou a aparecer uma bolha e comecei a sangrar. Notei os caras rindo. Sabe o que fiz? Troquei de dedo. Foi o que fiz, viu? Eles não riram depois disso. Depois de uns 10 minutos mudei pra outro dedo, e depois de mais 10, para outro. Então mudei de mão, voltei. Mas mantive girando. Por uma hora. E ganhei meus US$5. Gastei US$15 arrumando a mão, então não faça isso”.

Rubens Borges Ver tudo

Rubens Borges entrou no jornalismo esportivo em 2005, no BasketBrasil. Tempos depois, se juntou ao Blog Squad do site da NBA no Brasil. Entre os dois trabalhos, ele iniciou o blog e Twitter do Hit the Glass. Nas quadras, jogou em times como o Petrópole Tênis Clube e PUCRS.

3 comentários em “O precursor do showtime Deixe um comentário

Deixe uma resposta para Rubens BorgesCancelar Resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: