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Adriano Geraldes | Do Handebol ao Basquete, do Oriente ao Ocidente, do Sul ao Norte – Parte 1/2

Fala, pessoal!

Para quem está mais próximo a mim, sabe que tem uma entrevista que ansiava muito por realizar. Um grande maestro na lateral das quadras, excelente formador de atletas e, acima de tudo, um grande apaixonado pelo basquete: Adriano Geraldes.

Conheci Adriano lá no Continental, quando eu estava nas categorias Sub-12/13, e sempre me impressionava a intensidade de seus treinos, e toda vez que converso com alguns de seus atletas, sempre existe a recordação de sua exigência máxima e todo o aprendizado e desenvolvimento que vem junto com ele.

É um dos personagens do basquete de base que pode gerar muitas primeiras impressões negativas, mas existe muito do que acontece antes e depois dos jogos que fazem com que Adriano seja um dos técnicos mais respeitados e admirados do Brasil, seja por seus atletas e familiares ou colegas de profissão.

Espero que gostem da conversa e conheçam um pouco mais desse grande profissional.

Logo de cara, me surpreendo com o início do coach no basquete, que ocorreu por um mero acidente.

Na verdade eu jogava basquete e handebol pela escola, só que eu era muito melhor jogando handebol. Quando eu tinha uns 13 anos eu fui fazer um teste no Banespa e passei. Depois eu comecei a ir mal na escola e meu pai me deu uma brecada e eu fiquei sem jogar. No ano seguinte, uma tia que trabalhava no clube Paineiras, falou para eu fazer um teste lá. Perguntei se tinha handebol e ela disse “tem, tem handebol, sim”. Para minha tia, handebol é basquetebol, tem “bol” é tudo a mesma coisa.

Cheguei lá para treinar e era basquete. O técnico olhou para mim, viu meu tamanho – praticamente a altura que tenho hoje – e me convidou para fazer um treino. Isso aconteceu numa segunda-feira e no sábado eu já estava federado. Ou seja, eu jogava direitinho também [risos].

O coach seguiu pelas categorias de base até o segundo ano de Sub-19 e então encerrou sua prática do esporte. Mas o encerramento já seria seguido com o objetivo de ser técnico.

Eu joguei federado até o segundo ano de juvenil. Estava na faculdade e resolvi parar. Eu já tinha uma lesão no joelho que dificultava bastante, mas a razão não foi bem essa, foi mesmo questão de qualidade. Recebi algumas propostas para jogar na segunda divisão mas preferi estudar Educação Física em Santo André.

Mas antes mesmo de entrar na faculdade eu já queria fazer isso (ser técnico). No colégio ainda, Léo, eu treinava as equipes femininas. Tinha 16-17 anos e já dava treino para as meninas.

Ou seja, o mosquito do basquete já tinha feito mais uma vítima e, dentro ou fora das quadras, o esporte já fazia parte de sua rotina. E se no colégio Adriano já treinava equipes, durante a faculdade a coisa não foi diferente.

Durante a faculdade surgiu uma oportunidade no clube Ipê. Não sei se você chegou a ir lá, fazíamos bastantes jogos do Continental contra o Ipê. Era um clube pequeno ali no Ibirapuera, trabalhava com associado e lá tive minha primeira experiência. Peguei a equipe no mês de agosto e os resultados eram aqueles placares bonitos: 103 x 14, 120 x 13. Só tomava pancada.

Isso foi em 88. No ano de 89 eu tive uma equipe que era sub-17 e montamos uma equipe com meninos que já tinham jogado em clubes e que eram sócios, e tivemos uma participação até que bacana. Mas minha primeira experiência foi lá.

Depois eu fui para o Monte Líbano, onde trabalhava ao mesmo tempo no Ipê. Em seguida eu larguei o Monte Líbano para ir para o Continental, mas continuei no Ipê. Aí do Continental eu fiquei 10 temporadas, desde 1992

Agora sim. Adriano teve uma carreira riquíssima, passou por vários clubes de diversos estados, mas não tem jeito, me vem sempre a mente o Continental quando penso nos times que comandou. E assim, meu contato com ele no clube foi curto, porém as quadras do Parque são vivas e sempre ouvíamos as histórias do passado. E as vitórias passaram a chegar para ele também.

Quem me convidou (para ir ao Continental) foi o Ênio Vecchi, eu tinha uma amizade com ele. O Ênio foi técnico da seleção brasileira cadete (sub-17) e eles acabavam indo treinar algumas vezes lá no Ipê. Aí formou-se uma amizade e dessa amizade acabou surgindo o convite para ir trabalhar no Continental.

No primeiro ano que eu fui para lá, foi para dirigir o sub-13 e depois acabaram me dando mais uma categoria, o sub-12, que era a categoria do Luiz Felipe Lemes, Leandrinho, Rodrigo Ferrari, Agnaldo. Logo de cara a gente chegou entre os 3 melhores.

O Continental ajudava muito porque era um negócio diferente, podia treinar à vontade, a cobrança era muito forte, a gente dava treinos de 2 a 2 horas e meia, então acabava melhorando muito por causa da intensidade e quantidade de treino que a gente tinha.

Como Adriano disse anteriormente, ele treinou Leandrinho. Veja o que ele disse do jogador e aqui também cabe uma curiosidade da minha parte. Vai ser curta caro leitor.

O primeiro time federado dele foi comigo, tinha 9 para 10 anos. E já chamava atenção. Apesar de ser pequenininho, era muito habilidoso, muito rápido, super disciplinado. Sem contar o irmão dele, o Arthur, que estava sempre no pé ali. O Arthur ia com uma Brasília que só tinha o banco do motorista e ficava lá, vendo o treino do moleque. O Arthur era terrível, queria dar treino para o moleque, mas fez virar.

Caro leitor, o Arthur foi colega de exército do meu pai. Minha mãe foi mesária da federação e sempre teve uma queda pelo Continental. Um dia, Arthur chegou falando para meu pai que estava jogando bem no time que fazia parte e ele respondeu: Cara, você tem que ir para o Continental se quiser treinar com os melhores, não onde você está.

Ele foi de fato, achou o ritmo pesado demais mas levou o Leandrinho para treinar lá. Até hoje o Arthur agradece ao meu pai pela indicação e, na noite que Leandrinho foi escolhido, ele mandou o boné dele para nós.

De volta a entrevista!

Após chegada ao Continental, quis saber se havia uma principal conquista que se lembrava, mas a resposta não poderia ser única.

Eu trabalhei, efetivamente com o técnico, a geração 78, 79, 80, 81, depois eu peguei a 84 que é do Carlão (Carlos Ferro) e 85. Eu acho que é assim, cada uma delas tem sua particularidade, sabe. Eu só fui ser campeão na minha última temporada de Continental. Ficávamos sempre entre os 4 e tudo bem. Na geração 79-80, do Guilherme Giovannoni, o Pinheiros montou uma baita da seleção na época e a gente sempre chegava junto com eles. E dentro das limitações que eu Continental tinha, que era absolutamente quase nada de verba e ajuda de custo. A gente não tinha nada e era aquele ali que você presenciou bastante, os pais ajudando a transportar os meninos. Meu salário eu brincava que era para pagar o combustível do mês, então quer dizer, dentro disso você não pode só colocar como título algo marcante de uma categoria, cada uma teve sua particularidade.

O pessoal de 84, que acabou sendo campeão, do Pilar, Carlão, Gustavo (atual técnico da base palmeirense), essa foi a primeira geração que ganhou um Estadual. A geração 79 a gente fez baitas jogos, a geração 80 várias vezes entre os melhores, com basquete bonito de ser visto. Teve a geração 85, que para mim foi uma das mais talentosas, que tinha o Átila, Diego, Rafael, Rodolfo. Essa geração aí, depois na Hebraica, a gente ganhou três títulos seguidos, e era a base do Continental.

Aproveitando que foi mencionando, pedi para o Gustavo Pereira, que foi atleta do Adriano na época do Continental e Hebraica e colega de trabalho no Palmeiras, para deixar algumas palavras sobre o eterno técnico.

Falar do Adriano para mim é muito fácil, conheço ele desde os 12 anos de idade e já o admirava assistindo os treinos que ele dava no Continental e pelas conquistas. Virou meu técnico no sub-14 no Continental, e foi meu técnico dos 14 os 19 anos, então sou um pouco suspeito para falar dele.

Gustavo e Adriano no Palmeiras

Ano passado tive privilégio de trabalharmos juntos no Palmeiras como coachs do Corpo Técnico, e os ensinamentos continuaram e aprendi muito. Excelente profissional e uma pessoa de bom coração, minha formação como pessoa hoje posso dizer que ele tem uma parcela bem grande nisso. Agora está desenvolvendo um trabalho bem sério e comprometido na Unifacisa e acompanho de longe. Gratidão ao Mestre “Careca”, desejo a ele muito sucesso e sorte.

E se perguntei de conquistas que o marcaram, também perguntei de atletas que chamaram/chamam sua atenção. A resposta também não seria nada fácil – a base, ao contrário do que se pode pensar, não é simples.

Olha, Léo, é assim, acabei de comentar sobre o Leandrinho, que em determinado momento pôde-se falar que era um jogador sem projeção futura, talvez não virasse.  Aí outro você fala “esse moleque é animal”, é muito relativo eu acho, e o processo é muito longo.

Hoje em dia eu acho que a gente tem uma certa carência, sabe, sempre tem o próximo fulano, próximo ciclano, e precisa-se trabalhar muito. É muito relativizado, tem meninos que acabam não despontando logo de cara, são mais tardios, e acabam sendo mais efetivos depois. Hoje em dia é o que você vê direto (apostas de jogadores que virarão) e isso não dá para projetar, a não ser que o negócio seja muito absurdo.

Você vê aquele menino do Guarulhos Sub-12, ele é fenomenal (Matheus); o irmão do Victão (Victor André do Paulistano) que está no Pinheiros, o Henrique, é um garoto grande, habilidoso, joga de frente; aqueles três garotos do Campinas sub-13 (Arthur, Antônio e Gustavo). Mas é tudo muito relativo, vai depender muito do que vier pela frente, dos técnicos que eles trabalharão lá na frente, da cabeça da família, é bem complicado.

Lá no Continental eu te falei do Rodrigo Ferrari. O moleque fazia 50-60 pontos todo jogo e acabou que não virou. Não teve cabeça para isso, acabou tomando algumas decisões na vida dele. Você vê o Hátila, era um gordinho preguiçoso para caramba, e da geração 85 foi o único que virou efetivamente, e talvez ele fosse o quarto ou quinto da fila. O próprio Luiz Felipe Lemes, ele demorou para despontar e teve um processo mais ou menos como do Leandrinho, com um pouco menos de prospecção. Ele não era tão atlético mas chegou num nível muito bom. O Fábio Telminho, trabalha hoje com o Luiz na Adidas, era jogador que em playoffs sub16/17, fazia 45-50 pontos.

Equipe do Continental

Para você ter uma ideia, estamos falando de 1993, e o Fábio chegava no trailer da transição e a bola voltava para trás para ele chutar de três, chegava chutando e fazia 6-7 bolas de 3 por jogo. E não é que nem hoje que se chuta 15, ele era muito eficiente. O Zé Claúdio (personificação do Continental) reclamava “pô, o moleque chega chutando no contra-ataque”, mas eu falava “mas, seu Zé, olha o aproveitamento dele”. Ele foi ao profissional, teve uma carreira importante jogando em Brasília, Goiânia, Londrina, fez alguns bons contratos mas era um moleque que a gente projetava muito mais.

Aproveitando mais uma menção, seguem as palavras de outro ex-atleta do Adriano, Luiz Felipe Lemes:

Eu sou um pouco suspeito para falar do Adriano. Ele foi meu técnico na base do Continental por muitos anos, quando o clube era uma das potencias do basquete de base. É um técnico que está em alto nível por 30 anos já, se adaptou ao novos tempos e está sempre se reciclando e para mim é um dos maiores técnicos da base. É um cara que forma jogador, que entende muito de basquete, se doa 100% em tudo que faz. Você nunca vê um treino dele mais ou menos, ele sempre se entrega em jogo ou treino (e fora dos treinos) e, para mim pessoalmente, será sempre uma referência, ainda mais agora que eu estou no meu segundo ano de técnico aqui na Europa. É um cara que eu sempre ligo, que sempre peço dicas.

Luiz Felipe Lemes

Mas na minha opinião, seu maior legado são os atletas que ele formou. Não só alguns deles viraram profissional, outros são executivos de multinacionais espalhadas pelo mundo, então seu maior legado foi que ele formou pessoas. Ele preparou aquele pessoal do Continental, que era uma galera que vinha, na maioria das vezes, de Carapicuíba, Osasco, Barueri, classe social baixa, e ele fez esses caras entenderem a disciplina do Continental, o que era necessário para virar atleta, e com certeza ele fez um excelente trabalho nisso.

Nós temos um grupo de WhatsApp com grandes amigos do Continental e não tem nenhum que não agradece ao Adriano até hoje, pelo jeito que ele era naquela época. É um cara durão, que sempre puxava a gente no limite, que sempre acreditou no nosso potencial. Era um cara que tirava leite de pedra no Continental e lá tinha uma filosofia de nunca trazer jogador de fora, sempre criava jogador. Fazia o garoto ficar dos 6-7 anos até o juvenil. E o Adriano tinha essa característica, de ser um cara bravo, duro, mas um cara apaixonado pelo basquete e ensinava como poucos, e acho que hoje falta isso.

Tirando o basquete, seu legado foi que criou cidadãos de incrível índole, que têm muito sucesso e agradecem até hoje por ele ter sido durão com a gente, por ter puxado no limite, porque ele ensinou a gente a dar valor a tudo que temos em vida.Falar do Adriano é sempre difícil porque é um cara que, para mim, já devia estar na seleção de base ou pelo menos sendo técnico de um adulto porque ele merece, mas na base ele ajuda muito o basquete brasileiro.

Fazendo um gancho com esse belo depoimento do Luiz, vamos falar sobre seleção de base. Essa era uma das minhas maiores dúvidas, de como um técnico experiente, amplamente reconhecido como um dos grandes formadores do país, nunca ter tido uma experiencia de seleção brasileira de base. Estadual eu sabia que tinha rolado, mas vejamos sua opinião a respeito.

Não peguei seleção brasileira. Dirigi três seleções Paulista, mas essa é uma frustração minha. Eu gostaria muito de dirigir uma seleção brasileira um dia. Seria uma coisa para complementar, sabe. Não tenho a vaidade de ser o técnico, mas eu gostaria de representar o Brasil. Já tive 3 oportunidades de representar o país, mas com a seleção Maccabi, com o pessoal da colônia judaica, mas não é a mesma coisa. E ainda tive oportunidade de jogar contra o Brasil, foi pior ainda [risos]. Foi pelo Líbano, na minha estreia do mundial. Foi a pior sensação. A hora que toca o hino do outro lado, malandro, você fala “que porra é essa, eu devia estar do outro lado”.

Eu tenho uma ideia (sobre nunca ter sido escolhido), tem a ver com o que a gente conversou inicialmente do bate-papo. Digamos assim, eu não sou uma das pessoas mais agradáveis do mundo, então essa é a minha forma de ser, aparentemente agressivo, quem não me conhece acaba meio que, sei lá, se assustando um pouco talvez. E a competência. Se você tem todos os créditos, mesmo se fosse tão bom, mesmo fazendo minhas cagadas eu seria convocado.

Ser convocado. Esse é um momento muito delicado, quando sai a lista de convocação da seleção de base. Já tinha feito uma entrevista com o técnico Filet sobre o processo todo, as críticas que ocorrem e, de fato, nosso sistema de seleção é falho. Falei sobre isso também com o Adriano.

Quase nada de premiações

Eu, particularmente, acho teria que ter um tratamento diferenciado, sabe. Mas a questão financeira não é tão simples assim, você recrutar, selecionar, botar junto para treinar, isso daí demanda dinheiro, bastante investimento. Eu entendo que não é nem falta de investimento, é falta de se organizar, de utilizar as condições que a gente tem. A Argentina não está em condição econômica melhor que a gente e continua fazendo a seleção de base, continua tendo seleções competitivas e continua produzindo atletas para o escalão maior, que é a seleção principal. E assim, o pessoal diz “acabou geração Dourada”, mas você olha e vê o Campazzo, Deck, Laprovitola, os três são jogadores efetivos do Real Madrid. Quantos jogadores a gente tem com esse protagonismo em time desse porte?

Precisamos de um pouco mais de organização. Pode-se dizer que a dimensão do país atrapalha, mas em compensação, você tem uma população milhões de jovens. Não se pode reclamar de algo que você tem positivo. A gente fica reclamando dessa questão da distância mas você tem os grandes centros de basquete, que são hoje São Paulo, Rio e Minas. Rio Grande do Sul faz tempo que não produz, o Paraná vem se sustentando e trabalhando bem mas precisava de um plano de ação grande né, que proporcionasse algo economicamente mais aceitável. Porque é caro fazer basquete, deslocar um time.

E outra, o processo de escolha de técnico. Hoje se sabe que terá a seleção Sub-14, “Quem é o técnico?”, “Não sabemos”…ano que vem vai ter mundial, “Quem vai ser o técnico?”, “Não sabemos”. O processo precisaria ser modificado nesse sentido, deixar determinado quem é o técnico e comissão, para começar a se trabalhar, se colocar no radar.

Hoje quem faz esse trabalho são os agentes e quem deveria fazer isso seria os técnicos, clubes e a própria Confederação. Mapear e documentar jogador, onde tem e onde deixa de ter. Senão acaba incorrendo naquele erro:

– O moleque do Rio Grande Norte, como ele é? quantos jogos fortes ele faz no ano?

– Ah, não sabemos, mas ele é grande.

Esse processo precisaria ser mais sistematizado, um pouco mais criterioso. Ter algumas pessoas responsáveis por conhecer os atletas. Nós não temos isso e hoje funciona assim:

– Adriano, como é o fulano?

– Fulano é bom né, é meu!

E não é assim que tem que funcionar as coisas.

Eu ouvia falar do Matheus Leoni porque estive no Pará, aí eu o vi no sul-americano. Cara, que absurdo o moleque. Cheguei a oferecer ele para Thelma (técnica do Pinheiros) antes de saber que eu iria para o Palmeiras. Acabou que esse menino caiu no Palmeiras, mas também como o Leoni, você vai ter sempre né (atletas fora do centro). Ô menino Goiano, como me aparece um monstro daquele no interior de Goiás, 15 anos e nunca ter jogado basquete. Eu estive em Anápolis ano passado e tinha um moleque sub-17 de 2,07m, forte, atlético, saltava, mas tinha seis meses de basquete, perdeu um monte de etapas.

Nesse trecho passado, Adriano menciona sobre ter estado no Pará. Ainda não vamos falar desse momento, caro leitor. Vamos seguir para o Líbano. Essa era uma das histórias que tinha conhecimento mas nunca haviam me explicado como surgiu a oportunidade. Aqui Adrano fala do convite, a vivência e o trabalho realizado por lá. Ah, e claro, ter participado de um mundial que tinha participação de grandes estrelas de hoje como Stephen Curry.

Veio um agente e eles tinham a ideia de recrutar atletas de origem Síria e Libanesa para nacionalizar os caras e colocar na seleção nacional. E aí o Vinicius e o João Carlos (agentes) me chamaram para jantar. Daqui a pouco sai o assunto de que o contrato do técnico atual iria vencer e precisariam contratar outro cara. Aí na brincadeira o Vinícius falou “Vamos levar o Adriano, você iria?” e eu falei “Bóra!”. Mas nunca imaginei que aquilo fosse virar algo concreto.

Adriano com a seleção do Líbano

Eu já estava com a equipe principal do Hebraica, encerrando o campeonato paulista e na briga com São Caetano para entrar nos playoffs e aí chegou o convite no final de janeiro, mas tinha que decidir para amanhã. A proposta financeira era boa, a proposta profissional nem se fala porque eu iria disputar um mundial – já que eu não conseguia disputar pelo Brasil.

Eu aceitei, comuniquei a Hebraica e assim que encerrou a temporada eu fui para o Líbano. Chegando lá, a equipe já existia e já vinha treinando. Eles jogavam a segunda divisão do Campeonato adulto, então eu cheguei lá, dei um treino e fui para o jogo [risos]. A equipe já tinha uma estrutura e eu tive que começar também a montar a seleção sub-17, que iria disputar a fase regional. Concomitantemente a gente foi trabalhando com as duas (sub-17/19), e no mês de maio/junho eu fiquei só com a sub-19 e o auxiliar ficou com a sub-17.

Foi uma experiência bem interessante em todos os sentidos. Pessoal por morar fora e conviver com a dificuldade do idioma pois eu falo mal inglês, e eles também, mas a gente se comunicava. Foi uma baita experiência. Demos o azar de cair na chave da morte (Brasil, Lituânia e França) mas fizemos um jogo equilibrado contra o Brasil, porém contra os demais, tomamos dois caixotes.

No mundial foi uma realização, cara. Você estar ali, entre os melhores Sub-19 do mundo, estar ali acompanhando seleções na era da Iugoslávia, seleção americana com Stephen Curry, DeAndre Jordan, Beasley, seleção da França que tinha o Batum, Ajinça, a seleção australiana com Patty Mills. Aí você fala, que barato! Isso aqui é uma experiência que só me engrandece.

Saindo oriente de volta ao ocidente, Adriano teve outra mudança de extremos, onde deixa a equipe que assumiu no NBB (Lajeado), no sul do Brasil, e vai para o Norte do país para trabalhar no basquete paraense.

Eu estava na Hebraica e surgiu, na virada do ano, uma possibilidade de dirigir o Lajeado (NBB2) e acabei indo para o Rio Grande do Sul. Mas experiência não deu muito certo a gente perdeu cinco jogos seguidos, os cinco primeiros, e obviamente que a culpa é minha né, então eu acabei ficando desempregado – uma das poucas vezes que eu fiquei desempregado na minha vida. Então surgiu um torneio lá em Belém e oportunidade de dirigir o Paysandu no adulto. Cheguei de manhã e à noite estava no banco. Não conhecia ninguém e a gente venceu o torneio.

Equipe do Paysandu

O Paysandu passava por um momento difícil, sem quadra para treinar, as categorias de base muito esfaceladas. Eu acabei completando a temporada, porém mais cuidando da base, organizando escolinha, e o processo lá terminou que em 3 anos nós conseguimos ter do sub-12 ao sub-22, e em 2011 a gente ganhou em todas as categorias. Foi muito legal, foi um processo de organização, de montagem das equipes, e nisso acabei dirigindo as seleções paraenses sub-17 e sub-19. Na sub-19, após subirmos de divisão, a missão era não cair. E ficamos em terceiro, cara! Perdemos a semifinal para São Paulo de 5-10 pontos e cumpri minha tarefa. E na disputa de terceiro e quarto, batemos Santa Catarina e ficamos em terceiro.

A aproveitando que caímos no assunto da seleção estadual, quis saber a opinião do coach sobre o modelo de disputa. Por um bom tempo eu não fui adepto mas hoje já acho que seria interessante, mas não o ideal. Veja o que ele acha.

Hoje você contempla só através dos clubes e quem pode pagar, e o modelo de seleções era muito mais democrático, eu acho. Porque você entrava pela sua competência e aí vai de cada estado selecionar seus melhores ou que entendam que seja os melhores. Agora não são todos os clubes que conseguem participar do CBC por exemplo, não são todos os clubes que podem ir e, consequentemente, não são todos os meninos que vão.

Passando por vários clubes, tendo diversas experiências, como em qualquer profissão pode ocorrer aquele momento de decepção com a carreira. E isso ocorreu com o Adriano e já foi mencionado anteriormente.

Tive algumas. Uma delas foi essa passagem pelo Lajeado, porque eu tinha uma baita oportunidade, que vinha buscando, trabalhar no NBB como técnico e em 40 dias eu fui mandado embora. Então isso, de certa forma, me deu uma broxada. E me fez repensar muita coisa porque eu estava com 40 anos, na idade certa para assumir uma equipe adulta no NBB, o projeto era muito bacana (Univates) com uma estrutura muito boa e não dei certo. A coisa não rolou.

A minha última passagem pela Hebraica também foi frustrante porque é a minha casa também, fiquei 10 anos Continental e outros 12 na Hebraica.

Equipe da Hebraica

Mas não tiveram apenas momentos difíceis, e nesses anos todos muitas amizades foram construídas e que perduram até hoje.

O basquete me deu muitos amigos e muitos colegas também. Tem pessoas que são irmãos, que eu considero como irmãos, de frequentar a casa, de saber das particularidades um do outro.

Eu e o Pipoca, que hoje trabalha na LBE, a gente tem uma amizade de mais 30 anos. Fred Batalha também. Eu estou no basquete esse tempo todo e eles são meus amigos desde então. Fiz algumas inimizades também, vamos dizer assim, mas eu tenho muito mais amigos do que pessoas que não gostam de mim. Respeito todo mundo, procuro respeitar a maioria dos profissionais que orbitam ao meio. Obviamente que não agrado todo mundo e nem todo mundo me agrada.

E sobre essa amizade de 30 anos com o Pipoca – que aliás, foi meu técnico – ele deixou uma relato sobre o amigo de longa data.

Eu brinco que o Adriano é meu irmão mais velho. Conheço o Adriano desde 86-87, a gente se encontrava em clínicas de basquete. Toda vez que ia fazer um curso a gente acabava se encontrando. Em um desses cursos ele chegou mais cedo, a gente começou a conversar e passou a estabelecer uma amizade que perdura até hoje.

Luiz Alves (Pipoca)

Trabalhamos juntos, demorou para trabalharmos juntos. A primeira vez foi lá no Continental em 2000. A gente tem muita afinidade de filosofia de trabalho. O Adriano é bastante estudioso e aprendi a estudar basquete com ele e a gente sempre trocou muita ideia, mesmo quando trabalhávamos em clubes distintos. Um ia assistir o jogo do outro e comentava, fizemos durante 8 anos um camp nas férias, onde a gente trocava muita ideia.

Depois que a gente trabalhou juntos, a afinidade na filosofia de trabalho ficou mais forte. Em seguida eu fui para o Esperia, ele para a Hebraica, mas quando surgiu uma vaga, ele me levou para lá. Trabalhamos juntos um tempão na Hebraica. Eu brincava que eu era o contraponto dele. O Adriano é um cara intempestivo, de temperamento, e quando ele passava um pouco do ponto eu dava aquela apertada no parafuso.

Isso se casava muito bem, ele como técnico e eu como assistente, tínhamos um entrosamento muito grande do que fazer e como fazer, de treinamento, filosofia de jogo, então como trabalhávamos intercalando as categorias, quando um jogador subia ele não sentia tanta diferença na parte técnica. Eu tenho um temperamento bem diferente do dele, eu sou mais calmo e o Adriano sempre foi mais nervoso. Acho que até em função disso a gente se completava quando trabalhávamos nas categorias, porque um ajudava o outro nesse aspecto.

Eu sou um cara suspeito para falar dele. Ele é um dos grandes amigos que eu tenho, um dos grandes amigos que o basquete me deu e permaneceu. É uma amizade que tem, por baixo, uns 30 e poucos anos. O Adriano é uma pessoa que até hoje, muito ou pouco, a gente se fala. Falamos de baquete, do pessoal, é uma pessoa que me ajudou muito. Eu tenho o Adriano como irmão mais velho. Quando vou fazer alguma coisa ou tomar uma atitude, eu sempre converso com ele, pergunto o que ele acha. Não que o que ele fala eu sigo, mas eu pondero bastante

Ainda falando sobre a vida pessoal, é muito comum aquele frase por parte dos jogadores “não posso ir, tenho treino”. Amigos e familiares tendem a não gostar tanto dessa resposta, mas ela faz parte. No caso dos técnicos, acaba sendo ainda mais verdadeira.

Eu sou pago para fazer o que gosto. É trabalho? É trabalho porque tem a questão de significação, e aí no caso acaba meio que se confundindo. No meu escritório tem as coisas de basquete, poster, troféu, medalha, bola, caneca, essas baboseiras que a gente junta durante nossa vida né. Mas na minha casa não vai ter na sala, onde as pessoas transitam, não vai ter coisa de basquete né.

Adriano com equipe do Mackenzie

A nossa vida é cruel. Eu perdi vários aniversários de filhos, de esposa, de amigos, eventos de família. Por exemplo, esse ano eu não consegui ir para casa no Natal. A gente acaba ficando longe, perdendo formatura de filho. O lado pessoal acaba sempre prejudicado porque você acaba casando-se com a equipe né, cara. A relação é com teu time. Isso na base é pouco menos percebidos, porque nos teus 56 finais de semanas por ano, pelo menos uns 35 são ocupados por jogos. Então quer dizer, muitos domingos perdidos, mas ao longo do tempo a gente vai se acostumando né, cara, a sua família vai se adaptando. Mas eu imagino que não seja muito simples para quem é familiar.

No caso de atletas da base, aquilo pode terminar daqui a pouco, vai ser um pequeno período da sua vida. Mas quem escolhe a carreira de técnico, ou está envolvido com esporte competitivo como profissional, preparador físico, árbitro, você esquece a vida pessoal.

Bom, caro leitor, você que já conhece o Adriano sabe de seu temperamento, você que não conhece pode ter presumido algo com os comentários presentes na matéria – e até do próprio técnico.

De fato Adriano é bastante exigente e isso pode ser muito mal interpretado. E a cobrança, a meu ver, faz parte em diversas profissões, ainda mais quando se procura o mais alto rendimento alguns excessos podem ocorrer. Isso é caso para um texto a parte mas não poderia deixar de levantar esse questionamento.

Eu passei muito por isso, hoje eu acho que menos, mas você vê por exemplo o caso do Dinho. Cara, os meninos o adoram. Alguma coisa diferente ele tem. Muitos não gostam dele mas os atletas o adoram. Aquilo ali muitas vezes é um personagem, é uma caracterização vamos dizer assim, naquele momento, porque tem muita a questão de gladiador eu vejo, sabe. Você entrar dentro de uma arena para enfrentar seu adversário, seu oponente.

Tem atleta que você pode berrar, gritar, fazer escândalo que o cara não vai sentir nada. E tem atleta que você vai pegar um pouco mais pesado e o cara já sente para caramba. Então depende muito de equipe para equipe também. Tem equipe que você pode se sentar e ficar falando, administrando o jogo. Tem equipe que você tem que estar o tempo inteiro ali, jogando junto com os caras. Não sei se você viu meu sub-13 esse ano do Mackenzie. Se eu não tivesse lá da quadra jogando com eles, não iam.

Tem que fazer seu personagem um pouco.  Obviamente que cada um tem um perfil, eu sou um pouco mais exigente, um pouco mais participativo, sei lá, um pouco mais na parte motivador dentro da quadra que do que comprar outra coisa.

Caro leitor, respire! Ainda não terminamos e logo mais sai a segunda e última parte dessa grande conversa!

Deixe seus comentários e, principalmente, compartilhe alguma história que teve com o coach.

Já já voltamos com mais!

É isso, pessoal. Um abraço e até a próxima!

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Apenas alguém querendo dar espaço para nosso querido basquete de base.

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