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O Philadelphia 76ers e a fina linha entre a genialidade e a imbecilidade

FOTO: David Liam Kyle/NBAE via Getty Images

Imagina que alguém chegasse com as seguintes questões para mim:

– Igor, qual você acha que pode ser a maior surpresa dessa NBA dentro da bolha? E quem pode acabar decepcionando?

Minha resposta para as duas perguntas seria a mesma. O Philadelphia 76ers. E digo o motivo: por mais que o Sixers seja uma das equipes de maior visibilidade na liga, as constantes mudanças que partem da direção e do comando técnico do time fazem com que a gente não saiba exatamente quem eles são. 

O general manager Elton Brand e o técnico Brett Brown mais parecem o Pinky e o Cérebro, que toda hora têm uma ideia brilhante que vai fazer com que eles dominem o mundo (ou a NBA). A ideia não dá certo e eles vão e aparecem com uma nova. Assim como no desenho, até agora não tem funcionado, mas pode ser que nessa terra das imprevisibilidades que é a bolha da NBA na Disney, o mais imprevisível dos times acabe surpreendendo a todos. 

O curioso é que o Sixers muda muito porque parece querer atropelar os processos – sim, referência proposital ao “Processo” – e atingir os resultados logo. E se a mais recente mudança não der certo, são eles, Brand e Brown, o Pinky e o Cérebro da Filadélfia (resta saber quem é o gênio e quem é o imbecil) que podem ser as próximas peças a se mudarem de lá.

Brett Brown vê o cargo a perigo há muito tempo. FOTO: Eric Hartline/USA TODAY Sports

Vamos voltar no tempo. A derrota na semifinal da Conferência Leste em 2018-19, numa série que foi a sete jogos contra o eventual campeão Toronto Raptors, foi digna. Só que, além de representar uma estagnação em relação ao ano anterior, ela também mostrou que o que Phila tinha à disposição talvez não fosse suficiente. Não preciso dizer o que isso causou…

Depois de uma temporada em que seria possível dividir a trajetória do Sixers em três eras (antes de Jimmy Butler/ com Jimmy Butler e sem Tobias Harris/ com Jimmy Butler e Tobias Harris) por conta do monte de mudanças que aconteceram, o time foi lá chacoalhar tudo de novo. Vinte e seis caras entraram em quadra por Philadelphia em 2018-19. Gente demais.

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Pois é. Do elenco da temporada 2019-2020, dez caras não estiveram na anterior. Jimmy Butler foi embora. J.J Redick também. 

O front office da equipe resolveu ir na contramão de todo mundo. Se a onda agora é o small ball, eles pegaram o pivô Al Horford e investiram no giant ball. Com a chegada do Josh Richardson vindo do Miami, o quinteto inicial da equipe seria o mais alto da liga, com três jogadores com altura de pivô: Ben Simmons, Joel Embiid e o próprio Al Horford. 

Simmons e Embiid, embora absurdamente talentosos, sempre carregaram uma dinâmica muito complexa. Assista a um trecho desse vídeo. Agora, vê um pouquinho desse. São os dois no que eles fazem de melhor. Se você reparou, um não tem nada a ver com o outro. Um tem jogadas em velocidade, com a quadra livre. O outro mostra um jogador que domina o jogo lento, de costas para a cesta, no garrafão congestionado.

O que os dois têm em comum é a necessidade quase inescapável de jogar junto com jogadores que sejam gatilhos não só certeiros, mas confiantes da linha de três pontos. Estamos falando de uma dupla em que o melhor arremessador dos dois acerta 32% nas bolas de três. O outro…bom, o outro é tão relutante que um acerto no primeiro quarto de um jogo contra o NEW YORK KNICKS vira um acontecimento (favor assistir ao vídeo abaixo com som):

Entra Horford, que não é um mau chutador de forma alguma, mas também não é tão afiado nem arremessa tanto assim. A bola de três é um recurso para ele, não uma arma frequente. Como era de se esperar, na defesa o time ficou monstruoso, mas no ataque pontuar era um parto com tanta gente embolada. Junte-se isso às lesões de Simmons e Embiid e praticamente todas as outras peças do elenco e o Philadelphia, ao invés de desafiar o Milwaukee Bucks no topo do Leste, ficou quase o tempo todo ali sambando entre o quarto e o sexto lugares da conferência.

Em março, quando as expectativas já tinham ido para o espaço e o experimento de laboratório da vez era colocar Horford no banco, surgiu o inesperado. Ben Simmons agravou uma lesão nas costas em um jogo contra o Bucks e agora a coisa parecia séria. No lugar dele, entrou Shake Milton. Nunca ouviu falar? Normal, muita gente também nunca tinha ouvido.

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Até aquele dia, Milton tinha atuado em apenas 23 das 56 partidas do Sixers na temporada. Em 13 dessas partidas, ele tinha ficado menos de 15 minutos em quadra. Dos 33 jogos em que o “Miltão” não atuou, por 19 vezes ele estava disponível, só que o Brett Brown simplesmente julgou que não precisava dele, então ele nem saiu do banco. Dois jogos antes desse contra o Bucks em que o Simmons se lesionou, Shake Milton ficou exatos 42 segundos em quadra contra o Clippers.

Bom, esses são os números do glorioso Shake nos nove jogos que se seguiram desde então: 17.8 pontos por jogo, 4.1 assistências, 57.4% de aproveitamento de quadra e 60.4% nas bolas de três.

De uma hora para outra, todo mundo queria saber quem era o tal do Shake. Aliás, esse não é o nome dele (junto com o Bam Adebayo, do Miami Heat, tem um dos melhores apelidos que viraram nome). Shake demonstrou muita desenvoltura armando o jogo e, principalmente, arremessando com confiança da linha de três. Tem que ter muita confiança mesmo para assumir a posição de titular e dois jogos depois botar 39 pontos na cabeça do Clippers, do Kawhi e do Pat Beverley. Recomendo que você assista a essa bela performance abaixo com essa trilha sonora de fundo. Casa muito bem:

Bom, aí veio a pandemia, todo mundo ficou parado, a NBA decidiu criar a bolha lá em Orlando. Ben Simmons se recuperou da lesão e, dizem, aproveitou para sair da jaula e ganhar mais massa muscular. Joel Embiid, dizem, manteve a forma e brilhou ao embarcar para a Flórida preparado para o apocalipse e seguro até contra radioatividade. Chegando lá, depois dos primeiros treinos, qual foi a novidade?

Brett Brown, o Pinky (ou o Cérebro, não sei) teve uma ideia genial! Agora, sim, o Sixers decola! E se a gente pegasse a 54ª escolha do draft de 2018, um cara que só tem 52 jogos na carreira até agora e fizesse dele o novo titular na posição de armador, deslocando o Ben Simmons para a posição 4?

Antes dos treinos, Brown andou dizendo que ficava meio nervoso de dar muita responsabilidade para jogadores jovens na hora dos playoffs, mas foi exatamente o que ele fez. O sucesso recente de Shake, Shake, Shake Milton garantiu a ele uma vaga no time titular aos 23 anos. 

Shake Milton, a peça que pode fazer todas as outras se encaixarem. FOTO: Jayne Kamin-Oncea

Pode dar certo? Pode, claro. E se der, o Sixers pode ser um baita pesadelo para qualquer time. Mas também pode, mais uma vez, dar muito errado. O propósito da mudança é colocar mais um bom arremessador em quadra e aproveitar Simmons de um jeito diferente enquanto ele estiver jogando junto com Milton e, possivelmente, Embiid. Ao invés de ter a bola nas mãos o tempo todo e ter que encarar defesas preparadas para defendê-lo (no caso, ignorando o arremesso dele), Simmons vai fazer um papel mais, digamos, sujo, realizando corta-luzes e usando o espaço que surgir para atacar a cesta ou encontrar alguém livre. É importante que ele se movimente bastante e principalmente de forma inteligente, evitando trombadas com Embiid, que também vai estar ali nas redondezas do garrafão. Vale lembrar que, no basquete universitário, a posição de Simmons era justamente essa.

A dinâmica Embiid-Simmons atingiu um momento decisivo. FOTO: Kim Klement

Nesse esquema, Milton, que não precisa tanto da bola nas mãos, pode ser também uma boa válvula de escape se o Sixers quiser jogar dentro do garrafão. Simmons e Embiid vão receber defesa dupla ou até tripla e um cara que vai acertar os arremessos sem marcação é imensamente valioso. Nos momentos em que Simmons for o armador, sem Embiid em quadra, aí é o parque de diversões para ele. Correria nos contra-ataques e todo mundo atento porque a qualquer momento pode vir um passe genial.

Acontece que tem a parte ruim também. O quinteto inicial de agora nunca jogou junto. Digo, literalmente. Por conta das lesões, o grupo formado por Milton, Richardson, Harris, Simmons e Embiid não esteve em quadra ao mesmo tempo por nem um segundo sequer. Por mais que no papel pareça promissor, nunca se deve subestimar a importância dos treinos e do entrosamento. Ainda mais num esquema em que os jogadores principais da equipe vão ter que sair da zona de conforto.

Além disso, quão arriscado é apostar que um jogador com pouquíssima experiência e qualidade ainda não comprovada vá ser a solução no momento de maior pressão? Complicado.

No melhor dos mundos, as mudanças fazem do Sixers um time muito difícil de ser decifrado pelos adversários. São dois astros com perfis muito diferentes, os dois excepcionalmente talentosos. O time tem bons coadjuvantes e bons especialistas no banco de reservas (atenção no novato Mathisse Thybulle, infernal na defesa). Não acharia absurdo esse time ser campeão. Depende de quem aparecer pela frente.

Mas se não der certo e o time não sair da segunda rodada dos playoffs mais uma vez, pode acreditar que vêm mais mudanças. Pode ser na forma de uma troca de um dos pilares da equipe. Volta e meia, Embiid dá declarações que dão a entender que já está perdendo um pouco da paciência com a pouca inclinação de Ben Simmons a consertar suas fraquezas (leia-se, arremessar e querer arremessar). A corda muito provavelmente deve estourar para o lado do técnico Brett Brown mesmo. Mas será que, com o elenco imperfeito que o Philadelphia tem, a culpa é realmente dele?

Só sei de uma coisa: não me faça dar palpites sobre esse time. Pode acontecer qualquer coisa nesses meses na bolha. Da mais sublime surpresa até simplesmente…o nada.

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Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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