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Vale a pena ver diferente: clones que eu pagaria para assistir

FOTO: Nathaniel S. Butler NBAE via Getty Images

Antes de tudo, um alerta. Se eu fosse colocar esse texto em alguma categoria, seria a de “viagens da quarentena”. Surgiu do mais puro ócio da vida em isolamento social, de uma sequência única de acontecimentos ocorridos de frente para a televisão.

Enfim, vamos lá. Dia desses, eu e minha esposa assistimos a mais um capítulo de O Clone, uma das novelas mais marcantes de todos os tempos, que está sendo reprisada nesse período. Logo depois, liguei meu PlayStation 1 para jogar um NBA Live 2001. Na ocasião, fizemos uma partida amistosa entre duas equipes criadas pelo próprio game: a seleção de all-stars dos anos 90 e a seleção de all-stars dos anos 80. Acontece que colocar jogadores de diferentes épocas para se enfrentarem como se todos eles estivessem no auge da forma física ao mesmo tempo é impossível no mundo real. Todos nós, inclusive o Cléber Machado, sabemos que uma lenda do passado não conseguiria competir com os astros do presente por um simples e singelo motivo: já passaram da idade. LeBron, atualmente com 35 anos, sempre vai enfrentar um Michael Jordan 21, quase 22 anos mais velho. A não ser que…o doutor Albieri conseguisse clonar o Jordan, claro!

Sendo assim, pensei em alguns jogadores que eu “gostaria” de ver clonados para que jogassem na época atual. As aspas são porque isso é apenas uma brincadeira, eu jamais incentivaria que desafiássemos a ética científica. Só para não ficar dúvidas: na vida, siga sempre o que a ciência diz. Não inventa.

Essa brincadeira não tem nenhum objetivo de provar por A + B que fulano marcaria 50 pontos todo jogo ou seria MVP todo ano. Tem a ver com a curiosidade de ver como algumas características seriam traduzidas para o basquete atual, sim. Mas tem muito mais a ver com fatores psicológicos e a percepção.

Vamos aos clonados.

FOTO: Stephen Dunn /Allsport

MAGIC JOHNSON

O primeiro impacto real de um Magic Johnson que crescesse atualmente é que ele provavelmente faria um melhor uso do Twitter. Não que as opiniões super embasadas (vale ver as reações) ou as listas de 60 melhores coisas em várias categorias não sejam entretenimento. Mas vocês entenderam, né. 

Nada garante que o clone de Magic, criado num ambiente diferente, seria tão criativo como o original.

Mas vamos supor que a genética tenha carregado isso até o novo Magic. Um armador com altura de pivô, que pode criar jogadas praticamente de qualquer lugar da quadra, inclusive embaixo da cesta. Quem não quer? Ao mesmo tempo, um arremessador relutante. Será que vale a pena ter alguém com essas características num basquete que precisa de gente espaçando a quadra? Não seria melhor deixar outro cara armando e ele joga de pivô? Não estranhe, parece muito mesmo com o papinho que ouvimos sobre Ben Simmons.

É claro que, durante boa parte da carreira, Magic não foi um bom (nem frequente) arremessador da linha de três muito por conta da atmosfera. A linha foi introduzida justamente na temporada de novato dele, em 1979-80. Durante muito tempo, a imensa maioria dos times e dos jogadores da NBA não fazia exatamente grande uso da bola de 3. Até a temporada 87-88, ele havia tentado no máximo 56 bolas de três em uma temporada. O aproveitamento costumava ser de menos de 20%. Em 81-82, nenhum acerto em 21 tentativas. Mas é bom lembrar que o Lakers de Magic não precisava dessa arma para ser bom, afinal, foi campeão cinco vezes e vice outras quatro com ele de armador. O time do Showtime abusava dos contra-ataques que geralmente terminavam em cestas fáceis perto do aro. De 83-84 em diante até se acostumou a estar entre os times que mais arremessavam de três, mas era outra época. Em 85-86, por exemplo, foi o segundo que mais tentou, com cinco por jogo. Hoje, o Houston Rockets chuta 44 bolas de três por jogo e o Harden sozinho, em um dia inspirado, arremessa essas cinco bolas de três em um quarto, tudo com stepback. No auge da aversão à bola de três, em 82-83, o Lakers foi o time que menos tentou (1.1 por jogo) e o que teve pior aproveitamento (10.4%). Ou seja, eles convertiam um arremesso de três a cada dez jogos praticamente!

Enfim, seria interessante ver o que seria dito de um armador que em tese tem o que um jogador da posição deve ter – a capacidade de criar e pensar jogadas – mas não tem o que atualmente facilita o jogo para todo mundo, que é a desenvoltura para arremessar de média e longa distância. Já sabemos o que se diz de Simmons, mas e se ele viesse numa embalagem idêntica à de um dos maiores jogadores da história?

FOTO: Barry Gossage/NBAE via Getty Images

STEVE NASH

Nash é o terceiro maior assistente da história da liga. É também o terceiro jogador com mais temporadas com média de 10 ou mais assistências. Mas é lembrado por muita gente como o cara que tem dois trofeus de MVP e nenhuma aparição nas finais da NBA. 

Ao longo da carreira, Nash não pareceu mostrar desgosto excessivo com isso. Mas é difícil dizer que ele não se importa. Depois de fazer parte (como consultor) da equipe técnica campeã da NBA em 2016-17 com o Golden State Warriors, Nash relutou, relutou, relutou até aceitar o anel de campeão. Quando aceitou, postou um vídeo em que não pareceu lá muito animado.

Muita gente diz que Stephen Curry é uma boa aproximação do que seria Steve Nash no basquete contemporâneo. Colocando-se os dois lado a lado, percebe-se muitas coisas reincidentes. Médias de aproveitamento de quadra parecidas, tempo de quadra parecido, dois MVP’s consecutivos para cada. Curry tem o melhor aproveitamento da história na linha do lance livre. Nash vem logo atrás. As diferenças? Curry tem três títulos da NBA e, em média, dá quase sete arremessos a mais do que Nash na época dele. 

É bem verdade que o canadense não chegou na liga já como estrela. Pelo contrário, batalhou pelo lugar e só foi titular pela primeira vez na terceira temporada. De qualquer forma, mesmo com os ajustes de pace, chama a atenção de que a temporada em que Nash mais arremessou (2002-03, com 13.6 por jogo) seja superada por qualquer uma de Curry, com exceção de 2011-12 (11.4 por jogo).

Lembra dos números absurdos de assistências? Nash só passou da marca de 40 pontos três vezes na carreira. Don Nelson e Mike D’Antoni, dois treinadores essenciais na carreira do armador, já deram declarações dando conta de que imploravam para que Nash arremessasse mais. Nelson, inclusive, teria multado o jogador por não arremessar, algo que ele fazia extremamente bem. 

Essa não era a natureza de Nash, que gostava de simplificar a vida dos outros mais do que qualquer coisa. Penso em como um clone de Nash, numa era em que a tarefa de criar é dividida por vários jogadores, liberando os armadores para serem mais pontuadores, se sairia. 

FOTO: Nathaniel S.Butler/Getty Images

MICHAEL JORDAN

Mil desculpas, leitor. Eu fui previsível. Mas quem não quer ver Jordan de novo? (Documentário não vale). Mas vou nadar um pouco contra a corrente. 

Em quadra, não resta muita dúvida de que a carga genética de Jordan com a preparação física de 2020 seria capaz de produzir um homem atleticamente invejável. Não vou nem entrar no mérito sobre se ele arremessaria mais de três ou passaria mais a bola para os coleguinhas (o que, aliás, ele fez aqui e aqui, momentos de extrema tensão em que é preciso confiar para ceder a bola).

 Minha curiosidade é ver quem o novo Jordan usaria como inspiração. Aquele do qual ele foi criado à imagem e semelhança, cujo estilo de liderança foi tão questionado e gerou tantas histórias que teve até ex-companheiro tendo que desmentir que chorou depois de tomar uma bronca dele? Será que ele se manteria tão competitivo que se negaria a se juntar a outras estrelas, mesmo numa era em que isso é até matematicamente inviável? E se o Jordan clonado preferisse seguir o exemplo do líder da atual geração? O cara que não tem tantas vitórias quanto o primeiro camisa 23 super famoso, mas que mudou muitas das percepções sobre o papel que um jogador desempenha dentro e fora da quadra. 

Eu queria ver um Jordan fora da caixa na qual nos acostumamos a vê-lo.

FOTO: Paul Sancya/ AP Photo

RASHEED WALLACE

Esse é o único da lista que não está no hall da fama do basquete e possivelmente nunca vai estar. Outros alas de força se tornaram mais conhecidos do público, como Tim Duncan, Kevin Garnett, Charles Barkley e Karl Malone. Escolhi Rasheed por dois motivos, ambos bem subjetivos:

1) Ele foi a peça-chave no título de 2003-04 do Detroit Pistons. Para quem não sabe, sou torcedor do Pistons por causa desse título.

2) Rasheed tem uma personalidade extremamente singular.

Um recorde pertence a ele e provavelmente nunca vai ser alcançado. O de faltas técnicas. Sheed foi autuado nada menos que 41 vezes em 2000-01. Muito disso é porque ele realmente era esquentado e perdia a cabeça. Mas muito também era reputação. Só lembrar da vez em que ele tomou a técnica simplesmente por seguir encarando o árbitro.

Rasheed sempre gostou de quebrar regras. Por vezes, foram as regras do jogo. Outras vezes, as dos bons costumes. Mas Rasheed também desafiou regras relacionadas a estereótipos. Diz-se que ele não encarava o basquete com o olhar maníaco de outros. Nunca quis assumir o papel de superestrela. Altruisticamente ou não, nunca quis ser o centro das atenções, embora acabasse sendo mesmo assim.

Dentro de quadra, se a cópia de Rasheed tentasse emulá-lo, estaria em casa. Nas primeiras 16 temporadas da carreira, ou seja, todas menos a última pelo Knicks em que ele voltou da aposentadoria, Wallace foi o jogador das posições 4 e 5 que mais arremessou de três em toda a liga. Ele foi o tal do stretch 4 ou até stretch 5 bem antes de isso ser um vocábulo manjado. Até lembro de reclamar que ele vivia na linha de três quando devia ir para o garrafão do Pistons (sei nada de basquete). O aproveitamento dele, 33,7%, não era o ideal, mas na época a expectativa era menor.

Na defesa, Sheed sempre se caracterizou por encarar de igual para igual todos aqueles gigantes que eu citei no começo, sem perder espaço. 

Tenho curiosidade de ver um novo Rasheed Wallace que mergulharia nas ferramentas físicas para ser um defensor longo e forte o suficiente para parar tanto um Kevin Durant no perímetro e quanto um Giannis Antetokounmpo embaixo da cesta. Mas outro aspecto que ficaria de olho seria se esse clone, amadurecido em outro ambiente, teria uma personalidade mais maleável, que o deixaria mais tempo em quadra e menos tempo suspenso. E se por acaso o temperamento fosse do gene, será que logo desistiriam dele numa liga em que a punição vem bem mais rápido? 

O que eu queria ver de novo era o carisma escondido do Rasheed. Isso não queria que mudasse.

FOTO: Steve Simoneau/AP Photo

SHAQUILLE O’NEAL

“Antes de você dizer que eu não conseguiria jogar na NBA hoje em dia, deixa eu falar. Eu já estou jogando. Meu nome é Giannis Antetokounmpo”.

Palavras do próprio Shaquille O’Neal. Mas provavelmente não fazem justiça à realidade. Sim, desde Shaq ninguém mostrou tamanho domínio do garrafão quanto Giannis. Mas se estamos olhando puramente para o tipo físico, ele não vai chegar lá. Primeiro que para cima ele não cresce mais. Os 2,11m de Giannis nunca vão ser os 2,16m de Shaq. Em força, no auge dos seus poderes, o grego tem agora 109 kg. O’Neal encerrou a carreira como um muro de concreto de 147 kg. É até bom que o Antetokounmpo não chegue lá. Mas mesmo o Shaq da primeira temporada já era um outro espécime, com 136 kg. E é esse Shaq que eu queria clonar. 

A maioria das pessoas lembra, com razão, do Shaquille O’Neal do Lakers e do Heat, onde ele foi campeão patrulhando a proximidade da cesta de um lado e passando por cima do outro com um biótipo de muita massa e peso e uma mobilidade que foi diminuindo aos poucos. A posição de pivô ditou as normas da liga por muito tempo e Shaq representou isso muito bem. Mas que tal eu te dar as melhores jogadas da temporada de novato dele, ainda no Orlando Magic?

É um festival de contra-ataques puxados e enorme impulsão e condicionamento para completar pontes aéreas. Shaq não era parte da fórmula, ele era a fórmula vencedora do Magic, finalista da NBA ainda no terceiro ano dele na liga. Menos de dois anos depois, ele estava no Lakers, numa outra timeline. Pode parecer difícil de acreditar, mas para encarar melhor as porradas dos Luc Longleys e Arvydas Sabonis da época, Shaq planejou a mudança de estrutura corporal, que depois manteve à base de uma alimentação convenientemente desleixada. 

Manter o físico dos 20 anos não seria problema para o clone. Resta saber se ele faria esse esforço. Vale lembrar que Giannis chegou na NBA parecendo outra pessoa com relação ao que vemos hoje. No basquete atual, pivôs pouco móveis não costumam ter muito espaço, o que é bom para esse Shaq. Mas mesmo os que conseguem começar e terminar o contra-ataque precisam ser mais do que móveis. O próprio Giannis já saiu de uma negação chutando de três para uma negação um pouco menor. 22 arremessos em toda carreira? Não dá. 52% nos lances livres? Tem que melhorar isso aí também. 

Um Shaq mais atencioso com o que come, mais focado em desenvolver o que faz pior do que o que faz melhor poderia atingir um patamar bem distante para o atual Giannis, o que é uma proposta assustadora. Em termos de comportamento, dava até para continuar sendo o palhaço que foi enquanto jogava e continua sendo depois que parou. Eu pagaria para ver o duelo dentro de quadra contra Joel Embiid e as provocações depois no Twitter.

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