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#FoiBomEnquantoDurou – O bis do Toronto Raptors

Para encerrar a série, vamos voltar ao normal. Afinal, ninguém aqui deseja o mal ao Warriors, como pode ter ficado parecendo pelo último texto. O derradeiro #FoiBomEnquantoDurou traz uma das histórias de campeão mais estranhas que já vimos. Em um intervalo de dois anos, o Toronto Raptors foi isso tudo, na ordem:

1) Time amaldiçoado que não podia ver um LeBron James pela frente;

2) Campeão da liga depois de trocar por Kawhi Leonard; 

3) Time que merece a simpatia de todos depois de o fun guy ser o primeiro MVP de finais a mudar de time na temporada seguinte; 

4) Uma das surpresas da NBA quando, mesmo sem Leonard e com seis dos oito principais cestinhas ficando de fora de pelo menos 11 partidas por lesão, não apenas se manteve nas cabeças do Leste, como ainda melhorou a campanha em relação à temporada passada. Se 2018-19 foi o show, 2019-2020 foi um bis que saiu melhor que a encomenda.

A principal explicação para que a receita não tenha desandado sem o ingrediente mais importante foi a competência e criatividade do chef. Nick Nurse já tinha se mostrado mais consciente das limitações e capacidades do próprio time e mais propenso a fazer as mudanças necessárias para sair vencedor do que o atual detentor do prêmio de técnico do ano, Mike Budenholzer, do Bucks. Foi o que se viu na final da Conferência Leste de 2018-19. 

No ataque, sem a peça mais potente, Nurse conseguiu carregar Toronto sem maiores brilhantismos ao 12º melhor desempenho na liga. Mas foi do outro lado da quadra que o técnico deixou uma marca inconfundível. Kawhi e Danny Green, outro que saiu do time após o título, são defensores de respeito. Subtraindo os dois e adicionando uma série de jogadores novos, com pouca experiência na carreira e pouco entrosamento entre si, o esperado era que houvesse uma queda. Nada feito: o Raptors tem a segunda defesa mais eficiente da liga, fruto de um trabalho primoroso de Nurse.

A cara do Nick Nurse é a gente vendo a defesa do Raptors

Ele adora táticas pouco convencionais e uma delas foi aplicada no momento de maior risco possível: as finais da NBA. Com o Warriors reduzido a Steph Curry ofensivamente, depois das perdas de Kevin Durant e Klay Thompson, Nurse apostou na chamada “box-and-one”, que consiste basicamente em uma defesa por zona com quatro jogadores, com o quinto fazendo uma marcação individual no melhor jogador adversário. Não sou lá um especialista em tática, mas essa estratégia é conhecida por ser usada nos níveis mais elementares do basquete, quando aquele time colegial só tem basicamente um jogador bom e o resto só completa o cinco. Se der problema, ninguém perdeu muita coisa na vida. Nurse apostou o campeonato mais importante que existe nisso:

Para essa temporada, o técnico mostrou que o time tinha soluções – emergenciais ou não – muito bem treinadas. O Indiana Pacers viu uma liderança evaporar nos últimos minutos com a marcação cerrada do Toronto. Não pontuou nos últimos 2:25 de uma derrota em fevereiro. O Sixers teve Joel Embiid zerado em uma partida (pela primeira vez na carreira, diga-se de passagem) e na outra quase entregou a paçoca depois que o Toronto adotou a pressão quadra-inteira e forçou o time a seis desperdícios de bola nos últimos três minutos, conseguindo diminuir uma desvantagem de 18 para apenas seis pontos. Mas nada exemplifica melhor essa disciplina e compreensão tática do que a partida contra o Dallas Mavericks, em dezembro. Na reta final do terceiro quarto, o Toronto perdia por TRINTA pontos e aí Nurse resolveu que era hora de levar mais a sério esse negócio de defender. Deu certo e o time virou, de maneira espetacular:

O Raptors pré-pandemia já havia garantido a classificação para os playoffs, com uma campanha de 46 vitórias e 18 derrotas. Além disso, a sequência de 15 vitórias consecutivas entre janeiro e fevereiro foi a maior já registrada por um time canadense em qualquer uma das grandes ligas. É difícil medir como a equipe vai ser afetada pela perda do fator casa ao jogar na bolha da NBA em Orlando. Por um lado, com 23 vitórias e 9 derrotas na Scotiabank Arena, no Canadá, o time é o sétimo melhor mandante, além de dono do design de quadra mais irado da liga (dá para ver no vídeo abaixo. Aproveita e acompanha o fofinho retorno de Kawhi a Toronto):

Por outro lado, fora de casa, o Toronto teve as mesmíssimas 23 vitórias e 9 derrotas, qualificando-se como o terceiro melhor visitante (melhor para quem, né? Talvez seja melhor dizer que ele é o visitante mais INGRATO). 

Independente disso, é na pós-temporada que talvez o conto de fadas de um time que superou desconfianças que não paravam de aumentar de tamanho pode chegar ao fim. Para explicar, reproduzo (ou faço uma cópia descarada) de um conceito exposto pelo John Hollinger, colega jornalista que escreve para o The Athletic e foi integrante do front office do Memphis Grizzlies por sete temporadas. Segundo ele, o Toronto Raptors dispõe no elenco de um monte de “pretty good players“.

LEIA TAMBÉM: #FoiBomEnquantoDurou – A nova geração do Grizzlies

Numa tradução livre, seria algo como um monte de caras bons à vera. Na real, o que isso quer dizer é que o time pode botar quem quiser em quadra que o cara vai saber o que fazer e assim contribuir. O problema é que para ser campeão da NBA (não sempre, mas na imensa maioria das vezes), você pode até eventualmente ter que colocar um jogador que compromete um pouco, mas precisa ter uma super estrela e, de preferência, mais algumas outras estrelas de brilho menos intenso para carregar o time e oferecer o máximo possível de minutos, segundos e posses de bola de alto nível. 

Com a saída de Kawhi, o time não tem essa super estrela. Vale lembrar que, na trajetória do título, Kawhi foi basicamente a única coisa que funcionou ininterruptamente no time. Em todas as quatro séries de playoffs na caminhada vencedora (contra Magic, Sixers, Bucks e Warriors), o camisa 2 foi, com certa folga, o jogador que mais arremessou, mais pontuou, mais encerrou posses de bola com a laranja na mão e fez isso sem perder em eficiência. 

A série semifinal da Conferência Leste, contra o Philadelphia 76ers, que Kawhi encerrou com um arremesso para a história…aliás, vamos ver de novo? O que custa colocar esse momento maravilhoso para rodar mais uma vez?

Enfim, naquela série, Kawhi teve média de 34.7 pontos por jogo, mais de 15 pontos a mais que o segundo cestinha da equipe, que foi Pascal Siakam, com 19.4. Ao longo dos sete jogos, deu 53 arremessos a mais que o segundo (também Siakam) e mesmo com uma performance de 16-39 nos arremessos de quadra no jogo 7, ainda terminou com o melhor aproveitamento de arremessos entre todos os jogadores do time, mesmo aqueles com tarefas bem mais simples do que chutar por cima do Embiid faltando alguns décimos de segundo para o fim de uma partida decisiva.

É bem verdade que, conforme a equipe foi avançando, os role players foram subindo de produção, até que nas finais contra o Warriors seis jogadores tiveram médias de pontos na casa dos dois dígitos. Mas Kawhi permaneceu sendo a grande fonte de pontos e válvula de escape quando a coisa apertava.

O espaço de principal jogador da equipe foi herdado pelo camaronês Pascal Siakam, que vive nos dando motivos para amá-lo. Além de ser um poço de carisma que mal sabe as letras do Drake, ele tem uma história de evolução mais rápida do que qualquer Pokémon. Deixou de estudar para ser padre para jogar basquete tardiamente. Aí chegou na NBA e mal jogava. Em 2017-18, segundo ano dele na liga, subiu à condição de um dos reservas favoritos da torcida. Daí pulou para titular e campeão na temporada seguinte e daí para estrela do time. Também saiu de um dos piores arremessadores da NBA, com 22% de aproveitamento da linha de três em 1.6 tentativas por jogo na mesma temporada 17-18, para respeitabilíssimos 35.9% (ali na média da liga) em SEIS tentativas por jogo na atual temporada. Ah, ele também foi votado para titular do All-Star Game em Chicago. Mudança de vida é isso.

Pascal Siakam é agora o principal jogador do Toronto. FOTO: Ron Chenoy

Acontece que Siakam (que, vale lembrar, ainda está na quarta temporada) nunca teve que encarar todo um esquema defensivo voltado para detê-lo, como certamente vai acontecer nos playoffs. Como Hollinger disse, nem todos os PGP (“pretty good players”) do Toronto vão ver a quadra por muito tempo, já que a rotação normalmente diminui quando o bicho pega. Kyle Lowry, Norman Powell, Fred VanVleet, todos eles são ótimos jogadores complementares, mas é difícil imaginar que serão os melhores em quadra ou tão decisivos quanto os principais nomes dos adversários no Leste. Temos aí Giannis Antetokounmpo, Jayson Tatum, Jimmy Butler, Ben Simmons, Joel Embiid, entre outros. Pode esperar alguma genialidade do Nick Nurse, mas talvez nem isso seja suficiente.

Mais uma coisa que o Hollinger disse é que, daqui em diante, não há muito motivo para que o Toronto siga buscando adicionar mais jogadores bons à vera. O time já tem muitos. Eles miram alto. Assim como o Warriors, o Raptors é apontado como um dos principais interessados em adquirir os serviços do MVP Giannis em 2021, caso ele não tenha se comprometido a renovar com o Milwaukee Bucks até lá. O grande trunfo, além dos holofotes da cosmopolita Toronto, única sede de time da NBA fora dos Estados Unidos, é a proximidade de Giannis com o general manager nigeriano Masai Ujiri, que o conhece desde antes da NBA e que, assim como Antetokounmpo, tem raízes africanas e alcançou sucesso de forma até mais pioneira do que o MVP.

Mas sabe aquele ditado de não poder contar com o ovo no orifício da galinha, né? Na NBA, isso significa que um bom plano não pode contar apenas com boas intenções. A ideia de Antetokounmpo deixar o Bucks ainda parece distante e quem depositar todas as esperanças nisso e não tiver um plano B pode acabar voltando muitos anos no processo.

Essa tabela (tirada do basketball-reference.com) mostra como estão os contratos do Raptors para os próximos anos:

Se prestarmos atenção aos contratos que se encerram nesta temporada, vemos que três jogadores importantíssimos ficam livres: Marc Gasol, Serge Ibaka e Fred VanVleet. Os dois primeiros, mais veteranos, são mais substituíveis do ponto de vista ofensivo, mas na engrenagem defensiva monstruosa de Nick Nurse são fundamentais. VanVleet, por outro lado, é ao mesmo tempo um parceiro e possível substituto de Kyle Lowry como comandante do time em quadra, armando e auxiliando Siakam na pontuação. VanVleet é considerado o principal armador que vai estar no mercado ao final desta temporada, então é possível que algum time desesperado chegue com tudo para tirar o armador de Toronto. E se olharmos mais um pouquinho para a tabela acima, vemos que o contrato de Lowry dura apenas mais uma temporada. Ou seja, perder VanVleet pode significar perder também a possibilidade de usar o contrato expirante de Lowry como moeda de troca para buscar outra peça com mais calma. 

Sei que o motivo de ter alguém como Ujiri empregado como o responsável por tomar decisões é justamente para que ele saia disso tudo com uma solução genial. Afinal, foi ele quem jogou tudo para o alto pela chance de ter Kawhi por uma temporada. Ele teve e o resultado foi possivelmente o momento mais doce do esporte canadense. Mas basta que uma aposta em Giannis dê errado e tudo que vai restar ao Raptors é um monte de grana para torrar em uma doceria quando a torta preferida, que te deixaria realmente feliz, já acabou. Bis é bom, mas não dá para viver só disso para sempre. 

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Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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