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Magic e Bird: histórias de uma rivalidade

Earvin “Magic” Johnson e Larry Joe Bird salvaram a NBA. Quando chegaram nos profissionais, a liga estava perto da falência. A percepção pública, apoiada no racismo, era de que os atletas da NBA em sua maioria absoluta pretos, tinham salários muito altos, usavam muitas drogas, eram marginais. Assim, tiveram suas carreiras interligadas desde cedo. Juntos, alavancaram a liga para outro patamar de importância na história dos esportes.

Torneio Internacional de Basquete em 1978
Antes da famosa final da NCAA de 1979, Magic e Bird jogaram no mesmo time por uma seleção americana de universitários. O torneio organizado pela Associação de Basquetebol Amador dos EUA (ABAUSA, que coordenou as seleções americanas até 1989) contou com a Iugoslávia, a União Soviética, Cuba e, claro, os americanos. A competição fez parte da preparação dos EUA para os Jogos Pan Americanos de 1979. 

Joe B. Hall, então treinador de Kentucky, quase não colocou os dois em quadra, dando preferência para seus jogadores. Isso não quer dizer que, no primeiro encontro das futuras lendas, eles não impressionaram.

Um lance particular ilustra o que Magic e Bird mais tinham em comum, e foi contado no livro When the Game Was Ours, de Jack MacMullan, Bird e Magic. Enquanto a bola saía do aro, Magic já corria para o contra-ataque. Foram apenas seis dias de treinos e jogos com Bird, mas parecia que o entrosamento era de anos. Magic sabia que o rebote seria de Larry, Bird sabia que o armador estaria puxando o ataque.

Magic correu pela direita, Bird iniciou o ataque pelo centro da quadra. Johnson pediu a bola, só para ver Larry olhar para o outro lado. “Bom, acho que ele não vai passar para mim”, pensou Earvin, segundo MacCallum. Foi pensar isso e Magic recebeu um passe pelas costas de Bird, bem na mão direita do armador. Ela ficou tempo o suficiente para Johnson passar pelo defensor soviético com um drible e devolver para Larry, sem olhar. 

Bird, longe de ser fominha, deu um passe de tapa para Magic, que só teve o trabalho de fazer a bandeja. O defensor nem viu o que aconteceu. Johnson correu para comemorar com Bird. E, assim, começou a história dos jogadores que salvaram a NBA.

Final da NCAA em 1979

Os dois não poderiam ser mais diferentes. Magic, um garoto preto que amava a atenção que suas habilidades lhe proporcionavam. Bird, um pouco mais velho, branco, que fugia de entrevistas e fãs sempre que possível. Ao mesmo tempo, tinham tanto em comum.

Durante todo o ensino médio, os dois ouviam de seus respectivos treinadores, “treine bastante, em algum lugar tem alguém tão bom quanto você, que se esforça tanto ou mais que você”. Até se conhecerem, os dois duvidavam da existência dessa pessoa mítica. Assim que se conheceram, o respeito mútuo foi imediato. A amizade não.

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Enquanto Magic começava a jogar para Michigan State, Bird se encontrava perdido. Após desistir da Universidade de Indiana, ele arrumou um emprego cortando árvores, pintando o meio fio, recolhendo lixo e desentupindo esgoto na sua pequena cidade de French Lick. Mas ele não abandonou o basquete.

Apesar de longe dos olhos do basquete universitário, Bird ainda chamava atenção. Entre as pessoas de olho no ala estava Bob King, treinador de Indiana State. Uma noite, King foi ver uma partida de Bird contra um time de estrelas de Indiana. Bird havia carregado 1300 fardos de feno, e chegou sujo e arranhado. Ao ver isso, King perguntou, “você estava levantando feno?”, “sim senhor”, respondeu Bird, segundo MacCallum. “Você deve estar bem cansado”, afirmou o treinador. “Quase não consigo levantar os braços”, foi a resposta.

Naquela noite, o exausto ala terminou com 43 pontos e 25 rebotes contra alguns dos melhores jogadores do estado. “Ei, Larry”, gritou King, “temos que te levar para Terre Haute (local onde fica Indiana State)”.

No dia 25 de Março de 1979, Magic e seus companheiros de Michigan State treinavam para a final do campeonato universitário quando, de repente, a porta do ginásio abriu. Do outro lado da quadra entravam Bird e seus companheiros de Indiana State, 20 minutos antes do treino dos adversários terminar, todos de jeans, botas e chapéus de caubóis. 

A próxima vez que os dois se viram foi na quadra. No final, Magic levou a melhor na primeira de muitas finais entre os dois. Bird não iria esquecer tão fácil.

Bird arremessando melhor ainda?

Após a temporada da NCAA, Magic foi falar com o Los Angeles Lakers. O dono, Jerry Buss, queria o armador, mas ainda não contava com a aprovação do gerente geral e lenda dos Lakers, Jerry West. 

Buss convenceu West e os Lakers escolheriam Johnson. Mas, antes, o time deveria vencer o cara ou coroa contra o Chicago Bulls, para ver quem ficaria com a primeira escolha. Os Bulls aproveitaram o evento para promover sua marca com os fãs. Os torcedores que votaram que lado da moeda Chicago deveria escolher. A torcida escolheu cara. Deu coroa e Earvin “Magic” Johnson acabou nos Lakers.

Enquanto isso, Bird, que havia sido escolhido pelo Boston Celtics no ano anterior, como a regra permitia na época, aproveitava o tempo para terminar alguns estágios que necessitava para se graduar. Em um momento de folga, ele foi jogar beisebol com amigos. Uma noite, enquanto seu irmão Mike rebatia, Larry estava no campo esquerdo. Mike rebateu, a bola subiu, subiu e começou a cair perto de Larry. O futuro Celtic se ajoelhou para pegar a bola, mas ela pegou em seu dedo indicador da mão direita, sem luva. Quando ele foi devolver a bola, seu dedo dobrou para o lado errado. “Olhei para baixo e meu dedo estava torto para o lado errado”.

A lesão era tão horrível que Mike vomitou ao ver o irmão. Bird foi ao pronto socorro, os médicos tiraram raio-x e colocaram uma tala no dedo dele. No outro dia, com a mão inchada e roxa, Bird foi caçar cogumelos.

Quando voltou, um médico procurava por Larry. O resultado dos exames foi terrível, Bird estilhaçou as juntas do dedo. Necessitava de cirurgia imediatamente para colocar diversos pinos na mão. “Quanto tempo para minha mão sarar?”, perguntou o ala dos Celtics para o médico. “Sarar? Filho, não sei se vai”, foi a resposta.

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Quando Red Auerbach, ex-treinador dos Celtics e gerente geral da época, ficou sabendo da lesão de seu ala, chamou Bird para Boston. Larry já treinava, mas não foi sem medo ver o todo poderoso dos Celtics. “Eu não sentia a mesma coisa quando segurava a bola”, contou Bird ao autor. “Tinha certeza que Red notaria”.

Quem não gostou mesmo foi o médico do time. No entanto, Auerbach levou Larry para quadra e entregou a bola para ele. Bird converteu um arremesso, e outro, e mais outro. Quando terminou, Auerbach estava convencido, “não estou preocupado com isso”, declarou.

“Avisa o Chambourcy que tem Danone à vontade”

Nos anos 70 e começo dos 80 o time da casa era obrigado a deixar uma ou duas caixas de cerveja no vestiário dos visitantes para depois da partida. Normalmente, sobrava cerveja, mas não quando os Celtics estavam na cidade. Bird levava uma fronha dos travesseiros do hotel e recolhia todas as cervejas que seus colegas de equipe não bebiam.

Os dois lados da festa do campeonato de 1984

Bird estava obcecado com um título. “[Magic] já tem dois (1979 na NCAA e 1980 na NBA), ele está me humilhando!” A primeira chance de diminuir a diferença veio em 1984, quando os Lakers e os Celtics se encontraram nas Finais da NBA. Quatro vezes a revanche entre os dois foi adiada. Pelo Philadelphia 76ers em 1980, 82 e 83 e pelo Houston Rockets em 1981. 

Magic já tinha dois títulos da liga, Bird um. Vencer o arquirrival era tudo o que eles queriam. A pressão era tanta que, quando os Lakers chegaram em Boston os funcionários do hotel vestiam camisetas dos Celtics. “Até as cortinas dos quartos eram verdes”, contou tempos depois Magic. 

No Jogo 2, Magic cometeu erros primários nos últimos segundos, algo nada comum para ele. McHale errou dois lances-livres com 20s para o final, Johnson pegou o rebote e os Lakers lideravam por dois pontos. Pat Riley havia solicitado para que os jogadores pedissem tempo, contando com o acerto de McHale, que converteu 78% dos chutes livres na temporada. Mas Riley esqueceu de dar instruções caso algum lance-livre não fosse convertido. Magic pediu tempo. “Foi um erro meu”, contou Riley no livro When the Game Was Ours, “estava tão focado dando instruções que nem vi se McHale havia convertido os arremessos, presumi que ele havia convertido. Mas meu melhor jogador pegou o rebote e ele só tinha que levar a bola para o ataque e a partida terminaria”. Worthy recebeu a bola na reposição e deu um passe horrível para Byron Scott. Henderson interceptou e empatou o jogo.  Com a partida empatada em 113 e 7s para o final do tempo regulamentar, Johnson perdeu a noção do tempo e acabou driblando até o final do relógio.

Na prorrogação, o time da casa venceu e empatou a série em 1 a 1, mas toda confusão foi o suficiente para acabar com a confiança dos Lakers, que perderam a série. Em 84, o relógio de 24s do Boston Garden não ficava acima da tabela, mas em um quadrado no chão. Bird tem certeza, até hoje, que isso ajudou no erro do então apelidado de Tragic Johnson. “Parecia que alguém sempre estava sentado no relógio”, Larry contou. “Aposto que Magic não conseguiu ver quanto tempo faltava. Eu nunca conseguia”.

Após a última partida, Magic não falou com a imprensa e ficou horas, chorando no banho. Mas nem toda a água do mundo lavaria a dor do fracasso. Eventualmente, ele foi para o hotel com seus amigos Isiah Thomas e Mark Aguirre. Magic apreciou o gesto dos amigos, mas queria ficar sozinho. Quando ficou, desabou mais uma vez em choro. 

Magic deveria ter fechado as janelas e ido para a cama. Mas sua vontade masoquista de ver a celebração das pessoas verdes, apelido que os Lakers haviam dado aos torcedores do Celtics, celebrando era maior. Centenas de milhares de pessoas ocupavam as ruas de Boston, comemorando mais um título da franquia. “Eu me obriguei a olhar. Fiquei me sentindo horrível, mas merecia me sentir miserável”, falou, para MacCallum, Magic. “Perder para o Larry”, continuou, “essa foi a pior parte”.

Há 5km do hotel de Magic, Bird e Quinn Buckner estavam presos no tráfego. Eles iam pegar seus carros no bairro de Brookline e ir para a festa do time, mas o trânsito não ajudou. Finalmente, Bird e Buckner desceram da van dos Celtics e saíram correndo na direção oposta. Foram segundos até serem reconhecidos por torcedores em um carro. “Larry Bird!?”, gritou surpreso o motorista. Sabendo que teria problemas com tantas pessoas em volta, os dois pegaram carona até o restaurante.

Aposentadoria

Quando chegaram na liga, a NBA não conseguia transmitir jogos das Finais ao vivo por falta de prestígio da liga com o público. Eles deixaram a NBA como um fenômeno mundial. Desde antes da NCAA seus destinos estavam entrelaçados. Décadas depois, nunca nos esqueceremos de quando o jogo era deles.

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Rubens Borges Ver tudo

Rubens Borges entrou no jornalismo esportivo em 2005, no BasketBrasil. Tempos depois, se juntou ao Blog Squad do site da NBA no Brasil. Entre os dois trabalhos, ele iniciou o blog e Twitter do Hit the Glass. Nas quadras, jogou em times como o Petrópole Tênis Clube e PUCRS.

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