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#FoiBomEnquantoDurou – O calvário do Warriors

Já sabemos que só 22 dos 30 times da NBA seguem na disputa pelo título dessa temporada anormal a ser decidida na Disney. Os oito restantes, então, oficializaram as férias e se encaminham para uma parada que pode durar mais de nove meses no total. São assunto do passado. Um deles é o Golden State Warriors, que num espaço de 12 meses saiu de ser finalista da liga pela quinta vez consecutiva para acompanhar os playoffs de casa depois de fazer a pior campanha da NBA.

Você pode estar pensando: Ué, mas a ideia não é falar de algo que foi bom enquanto durou? Como pode alguém considerar que foi bom enquanto as derrotas não paravam de se acumular? Igor, você é hater do meu Warriorzão? Vem que eu te explico: quando uma equipe domina uma competição por anos, por mais que o seu estilo de jogo seja agradável de ver, aquilo vai desencantando muita gente. Os torcedores do Warriors amaram. Provavelmente, lamentaram que não rolou o three-peat. Mas todo o resto da liga cansou de tentar simplesmente ganhar deles. Muito torcedor passou a odiar o time que não deixava (quase) ninguém ganhar. O exercício de analisar o que iria acontecer na temporada em questão perdeu o sentido. Os próprios executivos passaram a montar seus times pensando em quando o Warriors acabasse. 

Nesse sentido, muita gente respirou de certa forma aliviada quando o time do Warriors que teve a honra de inaugurar a nova casa da equipe em San Francisco se mostrou uma baba. Não importa que para isso tenha sido necessária uma série de lesões, incluindo mão quebrada do Steph Curry e torção do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo do Klay Thompson. Era o fim do domínio de um time sobre os outros e o começo de uma era de fascinantes incertezas ao invés de uma certeza modorrenta.

Ainda vou chegar ao motivo de isso possivelmente não ser duradouro, me dá só um minuto. 

Bom, aquele estilo não apenas cool, mas vencedor do Warriors passou um pouquinho do ponto principalmente para adversários. Ok, legal ver um jogo com velocidade, muita movimentação e troca de passes e cestas do meio da quadra. Parece divertido conviver com o Klay Thompson, um cara que pode pegar fogo a qualquer instante e que se prepara para uma partida lendo jornal. Ou ser treinado pelo Steve Kerr, que até deixa os jogadores serem os próprios técnicos por um período. Mas quando quem está do outro lado tem que lidar com dancinhas provocativas, trash talk e uma larga dose de derrotas, perde a graça. 

Nessa temporada, Klay Thompson só foi visto em quadra nesses trajes. FOTO: Jose Carlos Fajardo/Bay Area News Group


Em dezembro do ano passado, quando a temporada do Warriors já tinha ido para o saco havia muito tempo, o Bleacher Report soltou um artigo sobre como aqueles mesmos adversários agora não tinham pena de passar por cima deles. Um jogador não identificado disse que agora que o time voltou à “realidade”, o que todo mundo quer é dar uma bela sova neles. O mesmo atleta reconheceu que estava punindo outros jogadores por coisas que Curry e Draymond Green tinham feito. No mesmo texto, Rudy Gay, do San Antonio Spurs, deixou claro que ninguém tem pena do Green e que todo mundo tem a sua vez na liga. Dá para ler o artigo aqui.

Esse sentimento lembra um pouco o que aconteceu com o Chicago Bulls logo após a debandada geral no fim da temporada 1997-98 (sem maiores explicações, né, Last Dance tá fresquinho ainda). O Bulls saiu da melhor campanha (empatado com o Utah Jazz) para uma das piores da liga. Mesmo com um elenco completamente diferente daquele que foi um pesadelo para os adversários por anos, ninguém se comoveu com as dificuldades enfrentadas pela equipe. Sam Mitchell, à época no Minnesota Timberwolves, mandou: “Ninguém liga que eles não têm mais Jordan e Pippen. Tudo o que as pessoas veem é uma camisa do Bulls e se eles não levarem de 50, vão levar de 60”.

O Miami Heat simplesmente não deixou os caras pontuarem. Foram só 49 pontos. 49!

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Assim como aquela, essa foi uma temporada em que o Warriors só fez história e chamou a atenção pelos motivos errados. Que tal ver um jogador superar um time inteiro sozinho em pontos, rebotes e assistências em um quarto? O Warriors permitiu:

Por sinal, no mesmo jogo, o Dallas Mavericks de Luka Doncic passou por cima do time de San Francisco por 48 pontos de vantagem, a maior margem de derrota do Golden State desde 1973! 

Ver a equipe jogar só foi divertido porque a qualquer momento podia acontecer algo que ia parar no famoso quadro de trapalhadas do Shaquille O’Neal, Shaqtin’ a fool. Draymond Green estava com a cabeça tão longe do basquete que até esqueceu uma regra básica:

Os números não escondem, pelo contrário, escancaram o quão ruim foi a participação da equipe. Procure uma tabela com dados de eficiência da temporada e veja o Warriors estar entre os últimos em basicamente tudo que é bom (ou primeiro em tudo que é ruim, questão de perspectiva!). Quando o sofrimento é grande, a gente se agarra em qualquer fio de esperança. Depois de jogar as quatro primeiras partidas da temporada, fraturar a mão e ficar de fora das 58 seguintes, Curry voltou no início de março e fez os olhos de muita gente brilharem:

Claro que o time perdeu o jogo para o Toronto Raptors, Curry chegou a levantar suspeitas de que estava com o coronavírus e menos de uma semana depois a temporada foi suspensa. 

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Acredito que nada é tão ruim que não possa piorar, mas no caso do Warriors a crença por dias melhores é até bem racional. Para começar, os dois principais jogadores têm tudo para retornar saudáveis. Obviamente, sozinhos, Curry e Klay Thompson não garantem sucesso, mas a equipe tem cartas na mão para voltar a apavorar muita gente.

Curiosamente, muitas dessas fichas estão no draft. Depois de anos passando longe das primeiras escolhas, dessa vez o Warriors vai estar nas cabeças. Opinião minha: beleza, Curry e Klay têm estilos de jogo que não precisam de altos níveis de atleticismo e podem envelhecer bem (embora corram loucamente para poderem se desmarcar e tenham se acostumado a estar no top 20 de jogadores com maiores médias de distância percorrida por jogo). Mas não dá para pensar no futuro tendo essas peças à disposição. A hora é agora.

Depois de perder Kevin Durant na última free agency e sair com D’Angelo Russell como prêmio de consolação, o GM do Warriors, Bob Myers, até tentou enganar alguém e disse que não tinha feito a negociação com a ideia de trocar o jovem armador mais tarde. Foi exatamente o que ele fez e a troca deu ainda mais capital para a equipe barganhar o futuro em troca do presente.

Vamos lá: por ter feito a pior campanha da liga nessa temporada, a franquia da Califórnia tem as maiores probabilidades de ficar com a escolha número 1 no draft de outubro. São 14% de chances, mesmo número de Cleveland Cavaliers e Minnesota Timberwolves. Como as quatro primeiras escolhas são sorteadas e as seguintes seguem a ordem da pior para a melhor campanha, o Warriors tem garantida uma escolha entre as cinco primeiras. Acontece que nem sempre a estatística favorece os que mais sofreram na temporada anterior. Como mostra esta bela tabela feita por mim no Word, nem sempre a equipe com maior probabilidade fica de fato com a primeira escolha:

Ok, nos últimos dez anos foram quatro drafts em que deu a lógica. Mas isso na época em que a pior campanha garantia 25% de probabilidade, quase o dobro do atual. Nos cinco drafts anteriores, isso não se repetiu, então foram 4 vezes em 15 anos, ou seja, mais ou menos um quarto mesmo. Foi mal se essas contas foram desnecessárias, mas isso foi para dizer que, para o Warriors, ter a primeira escolha ou a quinta não faz muita diferença. Talvez não seja provável e mesmo que aconteça é difícil ver um jovem ganhando espaço numa equipe que quer ganhar agora. O Warriors DEVERIA pensar em usar essa escolha como moeda de troca, porque o valor dela é inegável.

Além disso, na troca de D’Angelo citada acima, o Warriors adquiriu o ainda jovem Andrew Wiggins e a escolha de primeira rodada do Timberwolves no draft de 2021. Essa escolha é protegida, ou seja, se cair entre as três primeiras ela permanece com a equipe de Minnesota, mas no ano seguinte obrigatoriamente vai para as mãos do Warriors. Considerando que o Timberwolves tem sido notoriamente fracassado por anos, essa escolha pode ser uma segunda mina de ouro. 

Por último, o Warriors tem no bolso uma trade exception no valor de US$17.2 milhões por conta da troca de Andre Iguodala no início da última temporada para o Memphis Grizzlies. Para quem não sabe, essa trade exception é como se fosse aquele vale-troca que você ganha quando não gostou do presente de alguém. Só que ao invés de ir na loja trocar por um livro ou uma roupa nova, o time vai lá e troca por um jogador cujo contrato se encaixe nesse valor. Não dá para encontrar nenhum craque com esse dinheiro, mas um bom contribuidor, quem sabe. Evan Fournier, do Orlando Magic, é uma boa.

Muita gente especula que o Warriors vai atrás do astro Giannis Antetokounmpo quando ele se tornar um agente livre em 2021, mas isso não parece provável. A folha salarial inchada da equipe tem grandes despesas que impedem que o time assine com mais um grande nome sem ter que abrir mão de peças importantes como Klay Thompson e Draymond Green. Além disso, com todo o dinheiro que certamente a liga e por consequência as equipes perderam com a pausa pela COVID-19, o teto salarial projetado para as próximas temporadas vai ser afetado, o que tira ainda mais espaço para grandes contratações. Por mais que corra pelos bastidores da NBA há algum tempo, o flerte da franquia em direção ao atual MVP parece que vai ficar mesmo na friendzone. Curry até lançou um charme, mas parece que foi só para jogar videogame juntos:

Sendo assim, o caminho mais viável para o renascimento da equipe é por meio de trocas. Duas possíveis escolhas top-5 em anos seguidos podem ser bastante atraentes. Ou as duas combinadas com um jogador ainda jovem como Wiggins. Ou quem sabe tudo isso mais algum outra promessa a custo baixo, como o armador Ky Bowman ou o híbrido Eric Paschall, um dos destaques da atual classe de novatos. Jogadores insatisfeitos surgem a todo instante. Franquias desesperadas também. É saber jogar o jogo.

Draymond Green teve que mostrar paciência com os jovens Marquese Chriss (à esquerda) e Eric Paschall (direita). FOTO: Santiago Mejía/The Chronicle


O Warriors como as pessoas conheceram surgiu justamente assim. Golpes de sorte, como o desabrochar de Curry quando tinha um contrato pequeno ainda por conta das incertezas pelas lesões no tornozelo. Ou o fato de Green ter sobrado na escolha 35 do draft de 2012. Ou as regras salariais que permitiram que TODO MUNDO tivesse grana para assinar com Kevin Durant. Mas tudo isso também mostrou muita competência do núcleo pensante da equipe. Se ela se manifestar novamente, o caos da temporada 2019-2020 pode ter sido bom enquanto durou. Para os adversários.

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Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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