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#FoiBomEnquantoDurou – A nova geração do Grizzlies

Recomeçar um projeto na NBA não é exatamente uma ideia inédita. Não acontece toda temporada, mas é relativamente comum vermos franquias que percebem que o estado atual das coisas não vai levar a lugar algum e que talvez seja melhor fazer tudo de novo e ver se o resultado muda.

Então, que tal contratar um novo executivo para trazer ideias renovadas? Ótimo. Um técnico diferente para tocar o projeto desde o primeiro dia? Perfeito. E uma garotada cheia de vontade de aprender e sem medo de errar? Sem problemas. O Memphis Grizzlies de 2019-2020 fez isso e chamou a atenção por dois motivos: 

1) Eles realmente levaram a sério esse negócio de renovar. Realmente

2) Contrariando a lógica, ao invés de piorar, eles melhoraram.

A franquia de Memphis é uma das mais jovens da liga, com 25 anos de fundação. Por consequência, ainda não construiu muita história e não foi particularmente muito vencedora. Dá para afirmar sem problemas que até agora teve apenas uma geração mais memorável, a chamada Grit n’Grind, que foi uma constante nos playoffs na segunda década do milênio, com um jogo old school, de ritmo mais lento, fisicalidade no volume máximo e defesa acima de tudo. Uma equipe que assumiu o papel de patinho feio, com jogadores rejeitados por outros times que se encontraram por lá e que teve quatro pilares: a armação discreta e correta de Mike Conley, a parceria no garrafão entre Zach Randolph e Marc Gasol e a defesa maníaca de Tony Allen no perímetro, que muitas vezes era anulada pela limitação quase hilária do outro lado da quadra. Pode parecer pouco, mas a solitária ida à final da Conferência Oeste na temporada de 2012-13 foi o grande feito do time, que acabou aposentando as camisas 50 de Zach Randolph e 9 de Tony Allen.

 Ali pelo meio da temporada 2018-19, quando Randolph e Allen já haviam ido embora e a (pouca) saúde de Gasol e Conley tornava a equipe no máximo uma candidata ao meio de tabela, foi quando aconteceu o click para os proprietários da franquia. Gasol foi trocado para o Toronto Raptors na trade deadline. Ao fim da temporada, mais mudanças na comissão técnica, na diretoria e no elenco, com destaque para a negociação do último remanescente dos anos de Grit n’Grind, Mike Conley, que foi trocado para o Utah Jazz.

Para começar, Zach Kleiman, à época com 30 anos, assumiu como presidente de operações de basquete, que na prática é o general manager da franquia, o responsável pela montagem do time. Kleiman, além de começar a nova era se desfazendo do antigo armador, trouxe um novato para a posição de técnico: Taylor Jenkins, que tinha 34 anos e era auxiliar técnico de Mike Budenholzer no Milwaukee Bucks, onde se destacou por um ótimo papel evitando brigas em quadra.

Percebeu? O técnico da equipe é só um pouco mais velho que os medalhões que estavam lá um pouco antes. O GM da equipe é mais novo que aqueles caras! Achou pouco? A sorte de ver a escolha número 2 no draft cair no colo rendeu como fruto a chegada do armador sensação Ja Morant, que se juntou ao ala-pivô Jaren Jackson Jr., escolhido no draft de 2018. Os dois têm 20 anos. Não satisfeita, a equipe, após trocas realizadas ao longo da temporada, chegou à reta final do ano com um plantel em que ninguém tem mais de 30 anos. Ninguém. Se você quer definir renovação, utilize o Memphis Grizzlies atual.

Ao centro, o técnico Taylor Jenkins. À direita, o presidente de operações de basquete Zach Kleiman. À esquerda é só o Tayshaun Prince, que por acaso trabalha no time também. Foto: Justin Ford/Getty Images

O esperado era que essa equipe fosse um saco de pancadas da temporada, mas, independente do que acontecer no pós-pandemia, o resultado foi muito acima disso. Você pode estranhar ao olhar a classificação e ver o Memphis em oitavo no Oeste, com mais derrotas do que vitórias, mas pensa bem. Se você já chegou à véspera de um feriadão de sol achando que ia ficar em casa e ficou super feliz quando conseguiu pelo menos ir para aquela casa de praia pela milésima vez, sabe que nem toda vitória precisa ser o jogo 7 das Finais de 2016. 

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Jenkins conseguiu fazer a equipe surpreender empregando conceitos bem estabelecidos no basquete moderno. Com um elenco cheio de garotos, botou o time para correr. O Grizzlies tem o sétimo pace (média de posses de bola por jogo) mais intenso da liga, correndo e arremessando sempre que possível. Também é o segundo em média de assistências por partida, com 27. Juntando a quantidade com a qualidade, o time aparece entre os 10 melhores em aproveitamento de quadra e número total tanto de arremessos convertidos quanto de arremessados tentados. 

Tudo isso foi possível porque muita coisa deu certo. A equipe soube escolher, é claro, mas a performance do novato Brandon Clarke, por exemplo, não deixa de surpreender. Parece que ele veio com um chip de fábrica que o impede de errar arremessos. Seja qual for o recorte que se faça, o desempenho dele em termos de aproveitamento de arremessos é um dos melhores que já se viu para um novato na NBA. Jaren Jackson Jr. é o protótipo do ideal de pivô contemporâneo: móvel o suficiente para ser um jogador da posição 4 no ataque e 5 na defesa, fechando o garrafão de um lado e criando jogadas e arremessando de três do outro (o que o torna também um reboteiro abaixo da média, deve-se dizer).

Jaren Jackson Jr. na partida contra Milwaukee, em que acertou nove bolas de três. Foto: Brandon Dill/AP

Do começo da temporada até o ponto da pausa, Memphis seguiu no propósito de juntar peças em ascensão que já possuía, como Jackson e o ala-armador Dillon Brooks, a outras que foi adquirindo conforme a oportunidade aparecia, casos de Clarke e do também ala-armador DeAnthony Melton. Se o “Processo” do Philadelphia 76ers ficou famoso pelo acúmulo de jogadores jovens e ruins, o do Grizzlies, digamos, ficou só nos jovens.

Mas é claro que a equipe se tornou o monstro que é por causa de Ja Morant. Demorou pouquíssimo tempo para o armador, vindo da universidade de Murray State, mostrar que veio para abalar. No terceiro jogo da temporada, já apareceu para um toco decisivo em Kyrie Irving:

Ao longo do tempo, Morant solidificou a campanha para novato do ano, combinando capacidade de pontuar com talento para armar o jogo. Ele vinha repetindo o que Carmelo Anthony e Donovan Mitchell fizeram, liderando uma potencial equipe de playoffs em pontuação mesmo sendo novato. E Morant fascinou a todos não apenas por fazer algo, mas pelo modo como ele faz. Se as opções eram “com estilo” ou “sem estilo”, Morant preencheu no automático: sempre “com estilo”. As enterradas dele são um evento em si:

Na verdade, as enterradas que dão errado também. Se é moda pular por cima de um outro jogador no concurso de enterradas do All-Star Weekend, Morant tentou fazer isso num jogo à vera mesmo. Ok, não deu certo, mas a própria vítima em potencial reconheceu a arte em tentativa:

As enterradas (e quase enterradas) de Ja Morant impressionam não só pela beleza e dificuldade, mas também por serem bastante perigosas. Morant, assim como a quinta série, não tem medo de morrer. Mas ele também é bem criativo na hora de criar oportunidades para os companheiros. Nesse caso, alguns passes são tão inesperados que também acabam não produzindo o efeito desejado:


Com tudo isso, Memphis se tornou um dos assuntos da temporada. Uma equipe com o talento e a insolência dos jovens, o que ficou evidente no episódio da troca de Andre Iguodala. O veterano, que caiu de paraquedas no elenco antes da temporada, resolveu que, depois de frequentar as finais da liga por cinco anos seguidos, não ia se misturar com a pirralhada do Grizzlies, preferindo divulgar o livro dele recém-lançado a entrar em quadra. Pela imprensa, os garotos de Memphis mostraram a insatisfação com o veterano, Morant saiu curtindo posts bem ofensivos a Iguodala e reafirmando que esse é o Memphis da nova geração. Iguodala foi enviado para Miami.

Tudo muito bom, tudo muito bonito, mas tempo de quadra é algo finito. Então, alguém sairia prejudicado. Acabou que o brasileiro Bruno Caboclo, que achou um espacinho na equipe na temporada passada, chegou tarde e perdeu a cadeira. Caboclo, que fez sucesso unindo qualidades de ala e tamanho de pivô, foi sendo empurrado cada vez mais para a posição 5 e no fim, para fora do time. Agora, espera pela chance do “estrelato” bem longe de Memphis.

Mas por que o Grizzlies de 2019-2020 pode ter sido one-hit wonder? Eu poderia ir por um caminho de divagação. Afinal, já tivemos equipes que surgiram jovens com o pé na porta, aparentemente prontas para ditar as regras nos anos seguintes e que viram o sucesso evaporar tão rápido quanto apareceu. Shaq’s e Penny’s se separam, porque às vezes não há espaço para todos, os planos são diferentes, as agendas são diferentes. Atividades que exigem um certo grau de inspiração e alinhamento estão sujeitas a isso. Quando um grupo por algum motivo se desconecta, talvez não haja talento que salve. Não só no esporte.

Mas na realidade meu ponto é outro. Na minha visão, existe sucesso esperando pelo Memphis no futuro. Ele talvez só demore um pouco para se materializar e a temporada recente tenha sido uma ilusão com relação ao patamar que a equipe ocupa no presente. 

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Pelo andar da carruagem, a retomada da atual edição, caso se concretize, vai incluir uma versão reduzida da temporada regular, com as equipes fazendo entre 72 e 76 partidas, ao invés das habituais 82. Ou seja, cada time realizaria ainda, no máximo, entre 9 e 13 jogos antes da disputa dos playoffs. Memphis, no momento, tem uma vantagem de 3.5 jogos com relação a Pelicans, Blazers e Kings. Com isso, é bem provável que se confirme o duelo entre Grizzlies, oitavo e Lakers, primeiro, na rodada de abertura dos playoffs do Oeste. A questão é o que vem depois.

Destinos de Grizzlies e Lakers devem se cruzar na pós-temporada. Foto: Mark J. Terrill/ Associated Press

Como eu já disse, a equipe de Memphis é extremamente jovem, em todos os níveis. É mais do que normal que isso se traduza em dificuldade para vencer jogos. Não foi o que se viu nesta temporada, mas é bom contextualizar. As lesões, como sempre, mexeram com o destino das equipes. Para se ter uma ideia, os dois finalistas do Oeste na temporada anterior (Golden State Warriors e Portland Trail Blazers), sequer ficaram entre os oito e isso se justifica pelo impacto que as ausências por lesão tiveram na performance. Ambos aparecem entre os 5 times que mais tiveram atletas ficando de fora de jogos por conta de contusões.

Além disso, em condições normais de temperatura e pressão, por possuírem elencos com balanço maior entre talento jovem e experiente, New Orleans Pelicans e Sacramento Kings parecem mais à frente na linha evolutiva. O que Memphis exibiu em quadra é prova de que esse é um grupo especial, mas a impressão é que a dimensão do sucesso atual talvez possa ser mais atribuída às circunstâncias do que ao naipe atual das equipes.

Dito isso, se a base da equipe e a ideia central da direção forem mantidas, de fato o futuro é promissor. Obviamente, existe o desafio de conseguir pagar todas as peças com o valor que elas vão pedir quando chegar a hora de renovar os contratos. Mas é muito talento junto. O basquete merece ver no que isso vai dar. É só saber esperar um pouquinho.

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Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

5 comentários em “#FoiBomEnquantoDurou – A nova geração do Grizzlies Deixe um comentário

  1. Como sempre, um excelente texto que vêm com o intuito de apresentar tudo o que foi feito pelo time sensação da temporada regular da NBA, até a parada por conta da pandemia. Concordo que o futuro que se desenha para o Memphis seja brilhante e propenso a causar estragos no futuro da Liga.

    Curtido por 1 pessoa

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