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#FoiBomEnquantoDurou: Chris Paul e o surpreendente Thunder

Todo dia eu acordo preparado para algum anúncio repentino do Adam Silver. Ou dizendo que a temporada foi definitivamente cancelada ou que volta em uma data específica, num local específico ou com algumas equipes específicas na disputa. Ou seja, tudo pode mudar a qualquer instante.

Resolvi abrir a minha colaboração com o Blog do Souza arriscando: falando de histórias que chamaram a atenção durante a temporada e que, por um motivo ou outro, talvez não sejam tão fáceis de reproduzir em outras circunstâncias, seja numa continuação da atual edição ou num novo certame.

Posso ser atropelado pelo sr. Silver a qualquer momento com uma novidade que coloque tudo sob outra perspectiva? Posso. Porém, como tanto falamos do arremesso de três do Ben Simmons, o fato de tentar já altera completamente a percepção que as pessoas têm de nós. Por isso, começo hoje com a série chamada #FoiBomEnquantoDurou.

Abro voltando a algum dia no meio de 2019, quando Chris Paul, ainda no Houston Rockets, trocou uma ideia com o general manager Daryl Morey.

A conversa teria sido mais ou menos assim:

– Chris, você toparia ser mandado para Oklahoma? – perguntou Daryl Morey.

– Não – respondeu, assertivo, o armador.

– Pode ficar tranquilo. Não vamos te trocar para lá, porque você aceitou deixar Los Angeles para vir jogar aqui – completou Morey.

Chris Paul revelou que esse, em linhas gerais, foi o diálogo na offseason passada, após a eliminação do Rockets pelo Golden State Warriors nos playoffs pelo segundo ano seguido. O Oklahoma City Thunder tinha acabado de dar início ao processo de reconstrução com a troca de Paul George, que foi formar o superduo com Kawhi Leonard no Los Angeles Clippers. Um veterano de (então) 34 anos em busca do primeiro anel de campeão indo se aventurar em uma equipe juntando os cacos para recomeçar? Não pareceu atraente para o armador, mas ele foi trocado mesmo assim. O que poucos imaginavam é que time e jogador fariam tão bem um ao outro.

Antes da pausa forçada por causa da COVID-19, em 11 de março, o Oklahoma City Thunder era o quinto colocado na Conferência Oeste, com 40 vitórias e 24 derrotas. Antes da temporada, o plantel remontado do Thunder fez as casas de apostas estipularem uma média de 31.5 vitórias na temporada INTEIRA como uma previsão do que iria acontecer. A razão do sucesso passa pelo fato de Paul ter bebido da fonte da juventude do resto do elenco para se motivar e o elenco ter absorvido a experiência do medalhista olímpico e futuro hall of famer para encontrar o caminho das vitórias. É brega, mas é verdade.

A julgar por uma visão superficial dos números individuais de Chris Paul, não parece que essa é uma das melhores temporadas da carreira dele. Em outras nove oportunidades, a média de pontos do armador foi maior do que a atual (17.7 por jogo). As médias de assistências e roubos de bola, estatísticas cujas tabelas Paul liderou por várias vezes, agora são as menores desde que ele entrou na liga (6.8 e 1.6 por jogo, respectivamente). Porém, ele voltou a indiscutivelmente ser O cara do time, não porque é o que mais pontua ou arremessa, mas porque é nas mãos dele que a bola fica – e depois sai – no momento mais importante do jogo.

Chris Paul é o jogador mais clutch da liga na temporada. FOTO: Alex Goodlett/Getty Images

Sempre é possível debater, mas por vários ângulos, Paul foi o jogador mais decisivo da temporada. No chamado clutch time, ou seja, nos cinco minutos finais do último quarto ou prorrogação de jogos cuja diferença no placar era de cinco ou menos pontos, ninguém brilhou mais que ele. Em termos absolutos, foram 146 pontos nessa situação, mais do que qualquer outro jogador. Em média de pontos (considerando apenas jogadores que atuaram em pelo menos 20 partidas que se encaixam nessa descrição), ele foi o quinto, com 3.8, mas quem ficou acima dele (Trae Young, Joel Embiid, Terry Rozier e James Harden) não jogou tantas partidas apertadas ou teve um aproveitamento de vitórias pior.

A influência de um jogador que já decidiu jogo 7 de playoffs com cesta faltando um segundo não foi vista necessariamente convertendo arremessos da vitória. Oferecer a segurança de contar com o midrange infalível dele quando a defesa é mais dura já é clutch por si só.

A inspiração de Chris Paul pode ter a ver com o fato de ter rolado uma química com o elenco desde o começo. O armador tem fama de ser meio mala, aquele cara que cobra tanto dos colegas que muitos acabam não gostando de dividir o vestiário com ele. Rajon Rondo – que nunca foi companheiro dele, diga-se de passagem – já o chamou de um colega de time “horrível”, embora a gente saiba que ele é meio suspeito. Bom, eu acho que tem algum motivo para ele ter sido eleito presidente da associação dos jogadores. Ele pode até ser chato, mas nada diferente do que se espera de alguém super competitivo E talentoso.

O ano começou duro para o Thunder, que perdeu uma série de jogos apertados, mas conforme as coisas foram melhorando, vimos que ele entrou na brincadeira. Virou costume ver aquelas zoeiras entre jogadores, na entrevista na quadra, depois de vitórias.

O clima bom tem muito com a ver com o fato de o Thunder (à imagem e semelhança do seu líder) ter se tornado a equipe mais clutch da NBA. O time continuou sendo mestre em deixar para decidir os jogos no fim, só que começou a ser bom nisso. Fazendo um recorte a partir do dia 1º de dezembro, o Thunder é, disparado, o time com melhor aproveitamento nesses jogos apertados (e foram muitos!). Com o time vencendo e a bola indo sempre para as mãos do Chris Paul, não tinha como ele não ficar feliz. Ele resolveu compensar os colegas de time mandando preparar ternos customizados para cada um dos companheiros. Os próprios jogadores disseram como preferiam que fossem as peças e o trabalho ficou nas mãos do estilista Davidson Petit-Frère, que já deixou famosos como Jay-Z, P.Diddy e Michael B.Jordan na beca.

Elenco do Thunder com os ternos bancados por Chris Paul. FOTO: Bob Metelus Studios

Resumindo: o Thunder tem sido uma das principais surpresas da temporada-que-nunca-acabou. A equipe vence, joga um basquete agradável de assistir, adora adicionar uma dose de drama nas partidas e ainda foi autora de uma das minhas jogadas preferidas do ano!

A verdade é que, como eu disse lá em cima, o resto do time também está sabendo aprender e melhorar com Chris Paul. Um dos principais exemplos é o armador alemão Dennis Schröder, que nunca foi conhecido por ser um exímio pensador como alguns filósofos conterrâneos dele. Schröder tem combinado algumas das melhores médias da carreira com uma eficiência inédita nos arremessos e um afinco na defesa louvável. Assim, é um dos favoritos ao prêmio de melhor sexto homem, que costuma celebrar quem contribui com muitos pontos saindo do banco, coisa que ninguém fez mais do que ele nessa temporada (19.0 por jogo). Ele certamente teria meu voto, se a NBA não tivesse me privado da possibilidade de votar.

A boa performance do time – que, é bom destacar, também teve ótimas temporadas do italiano Danilo Gallinari e do neozelandês Steven Adams – também pode ser atribuída a uma outra figura, aquele que é considerado o futuro do Thunder. O também armador Shai Gilgeous-Alexander foi a grande joia adquirida na troca com o Clippers. Aos 21 anos e apenas na segunda temporada dele na liga, Shai se tornou, sem alarde, o principal cestinha da equipe. (É bem verdade que os 19.3 pontos de média dele são acompanhados bem de perto pelos 19.2 de Gallinari e pelos já citados 19.0 de Schröder).

Um dos trunfos do Thunder é justamente a possibilidade de usar os três armadores ao mesmo tempo. O técnico Billy Donovan não exagera na dose – o trio é apenas a 17ª combinação de três jogadores mais utilizada no time -, mas o saldo é extremamente positivo, um dos melhores da liga. Isso acontece porque, na defesa, Gilgeous-Alexander, de 1,96m de altura e 2,11m de envergadura, consegue cobrir os “baixinhos” (com todas as aspas do mundo) Chris Paul e Dennis Schröder, ambos de 1,85m. No ataque, a fórmula é simples: ter muitos jogadores fazendo o papel de playmaker nunca é demais. A hierarquia é claramente Paul, depois Schröder, depois Gilgeous-Alexander. Todos armam e todos pontuam.

 

Chris Paul, Dennis Schröder e Shai Gilgeous-Alexander, o trio mortal de armadores do Thunder. FOTO: Alonzo Adams/USA TODAY Sports

Obviamente, não é apenas por causa do trio, mas nessa temporada o Thunder tem usado o talento dos três e uma criatividade tática maior para quebrar uma tendência. Nas outras quatro temporadas em que Billy Donovan esteve à frente do time, o Thunder sistematicamente acabou a temporada como a equipe que menos trocou passes em toda a liga (Russell Westbrook é um dos meus jogadores preferidos, mas certamente teve dedo dele nisso). Nesta temporada, com um jogo de movimentação da bola mais compatível com as ideias do técnico, o Thunder é o 16º no quesito (bom, não ótimo).

Mas por que talvez esse sucesso e química tenham sido um fenômeno difícil de repetir? A primeira questão é a saúde. Alguns dos pilares do time, como Danilo Gallinari e Chris Paul, têm um histórico extenso de lesões. Paul, que só jogou as 82 partidas da temporada regular uma vez na carreira e que ficou de fora de pelo menos dez jogos em 8 das 14 temporadas completas que disputou, esteve surpreendentemente saudável. Ele só não atuou em uma partida e não foi por lesão, mas sim porque se afastou em luto pela morte do amigo Kobe Bryant. Antes de a temporada começar, Paul divulgou que passou a adotar uma alimentação vegetariana e que já se sentia completamente diferente. Mas é aquela coisa: acredito, mas prefiro esperar mais um pouco para ver.

O outro fator é que os bons resultados acabaram ofuscando um pouco a realidade do Thunder. O time não deveria ser tão bom agora. As peças se encaixaram, todo mundo se deu bem e evitou lesões, mas o general manager Sam Presti, conhecido por saber esconder o que está pensando – o chamado poker face ou Kawhi face -, montou um time com um botão de detonar e uma saída de emergência muito bem preparados. Chris Paul, com mais dois anos de um contrato gordo que vai garantir a ele 85 milhões de dólares, foi tão bem em quadra que muito time já passou a salivar pensando em trocar por ele.

Já até vi um singelo caso de rumor de troca para a próxima temporada para o New York Knicks. Outros bons colaboradores, como Gallinari e Nerlens Noel, vão ter os contratos encerrados assim que essa temporada acabar (tenho fé que vai acabar).

Já Schröder e Steven Adams se tornam expirantes em 2020-21 e, depois do ano fenomenal que tiveram, vão despertar interesse de muita gente. Para concluir, o próprio técnico Billy Donovan tem contrato apenas até o fim da atual temporada. Sam Presti tem em mãos o futuro de Shai Gilgeous-Alexander e um total de QUINZE escolhas de primeira rodada de draft até 2026. Lembrando que ele foi o responsável por draftar três MVP’s seguidos de 2007 a 2009 – Kevin Durant, Russell Westbrook e James Harden. Reposicionar a franquia para daqui a alguns anos se aproveitando de um sucesso inesperado no presente parece uma possibilidade bem viável pensando nisso.

De qualquer forma, o Thunder mostrou que, assim como na vida, muitas coisas boas acontecem simplesmente porque ninguém surtou no começo. A falta de expectativa também pode fazer bem às vezes. Com esse meu texto, acabei de decretar que talvez agora haja até muita expectativa em cima desse time. Se isso vier a derrubar a equipe, já valeu pelo que vimos até aqui.

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Igor Santos Ver tudo

Formado em Jornalismo pela UFRJ, tenho passagens pelo Jornal dos Sports e por O Globo. Desde 2013 estou na TV Brasil, onde sou repórter e apresentador do programa Stadium. Também escrevo umas palavrinhas sobre basquete pra Agência Brasil desde 2019.

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