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Tudo o que você queria saber sobre o Arremesso Final mas não tinha para quem perguntar – Vol. 1

WHAT TIME IS IT!? GAME TIME, UH! O tão familiar grito de guerra do Chicago Bulls dos anos 90 é onipresente no documentário Arremesso Final (The Last Dance, no original. Uma parceria entre a ESPN e a Netflix). O último ano de Michael Jordan, o melhor de todos os tempos, é costurado com sua carreira até então, relação com companheiros de time, sua vida fora das quadras e tudo de maneira magistral.

Ao final de tudo, serão 10 horas de histórias sobre uma das maiores dinastias da NBA. O dobro de horas se você tiver a falta de sorte de morar comigo, como minha esposa Laís  já sabe, e ter que aguentar histórias e histórias que não foram contadas.

Um pouco disso que eu quero trazer para vocês nesses primeiros artigos no Blog do Souza. Usar o Arremesso Final como gancho para explicar um pouco de como o triângulo ajudou Jordan e seus Jordanários virarem o Chicago Bulls, mais sobre porque Scottie Pippen recebeu tão pouco pelos Bulls, entre outras coisas que a Laís não aguenta mais ouvir sozinha.

The Jordan Rules

“Arremesso Final” falou um pouco sobre The Jordan Rules, as regras do Jordan. Um conjunto de táticas defensivas usadas pelo Detroit Pistons para diminuir a efetividade de Jordan. No fundo, a coisa era bem simples, sejam físicos com ele. Não deixem que MJ passe sem levar uma cutucada, um empurrãozinho, toquem nele de alguma maneira. E, se tudo falhar, coloquem ele no chão.

Talvez, pela primeira vez na NBA, um time fez tanto esforço para deter um jogador só. Ignorem o restante da equipe, foquem no Michael. “Deveria ser a defesa mais fácil de quebrar”, Jordan disse, em 1989, para a Sports Illustrated. “Mas a gente não conseguiu. Funcionou. Eles fizeram o que planejaram fazer”.

The Jordan Rules surgiu no dia 3 de Abril de 1988. Os Bulls derrotaram os Pistons na TV por 112 a 110 e Jordan marcou 59 pontos. Chuck Daly, treinador dos Pistons, não aguentava mais. Ele jurou, ali mesmo, quase como uma Scarlett O’Hara jurando nunca mais passar fome, que Michael não derrotaria os Pistons sozinho novamente.

Até essa noite, MJ tinha médias de quase 36 pontos por jogo contra o time de Detroit. Nas próximas 19 partidas Jordan fez por volta de 28 pontos em média, e os Piston venceram 14 delas. Umas das derrotas nesse período chegou quando Daly pediu para o time não empregar as regras do Jordan. MJ respondeu com 46 pontos.

Joe Dumars, infelizmente bastante esquecido no documentário, e Dennis Rodman eram essenciais para que o sistema funcionasse. Dois dos melhores defensores da história do basquete, eles eram os principais responsáveis por Jordan. Com dois estilos muito diferentes, Dumars mais fundamentalmente sólido, Rodman com sua energia maníaca, os dois eram os pinos de segurança da defesa.

A visão de Dumars para marcar Jordan era simples, não entregar nada sem que o ala-armador dos Bulls tivesse que trabalhar duro para conseguir. “Não dê nada sem contestar. Alguns jogadores ficam com medo de que Jordan faça um movimento espetacular, ou enterre na cara deles”, disse uma vez Dumars, “mas quer saber? Isso só quer dizer que ele teve que gastar mais energia”.

O primeiro princípio das regras do Jordan é “nunca deixe o defensor de Michael sozinho”. Detroit sempre tem alguém pronto para ajudar o defensor principal. Seja dobrando a marcação ou na “ajuda e recuperação”, ou seja, ajudar na defesa só para parar o ataque à cesta e voltar para seu homem. 

Armadilhas constantes. Mesmo se Jordan estiver com a bola perto do meio da quadra os Pistons querem que ele largue ela. Não as vezes, SEMPRE. Quando Jordan tem a bola nas laterais, afunilar seu drible para a ajuda defensiva, de preferência forçando Jordan a ir pela esquerda. Daly acreditava que Michael era menos propício a passar e acabava forçando mais arremesso quando ia pela esquerda.

Pick and roll? Os Pistons dobram a marcação. Como o defensor que dobra normalmente vai ser um cara alto, o odiado Bill Laimbeer muitas vezes, isso dificultava a visão para o passe. Jordan recebe no post up? A dobra vinha de cima. Um corta-luz perto da linha de fundo? Dumars tinha a missão de grudar em Jordan, tentar evitar que ele cortasse para a cesta. O Piston marcando o Bull que fez o corta-luz forçava Michael a receber o passe o mais longe possível da cesta. 

Como Jordan não confiava em seus colegas de equipe (Pippen não era O Pippen ainda, nem Horace Grant, por exemplo) a coisa ficava mais fácil. A chegada de Phil Jackson e Tex Winter mudaram a história do confronto para sempre. Pausa para mencionar Tim Grover, o responsável por deixar Jordan mais forte para que pudesse punir fisicamente os Pistons.

Eu prometo que logo logo mergulho mais no triângulo de Tex Winter. Hoje, só vou dar um exemplo rápido de como isso ajudou os Bulls. Ei, não posso entregar tudo de bandeja no primeiro post, quero que vocês tenham motivos para voltar aqui.

Com Jordan mais forte, Scottie e Grant evoluindo bastante e o triângulo, os Pistons não podiam mais focar em Michael. Com um ataque que tem por regra oportunidades iguais para todos, imediatamente Chicago tinha mais opções em quadra. E souberam aproveitar.

Ok, vou começar com o Gif e terminar com o mesmo Gif para que você entenda toda a jogada. Vai ser só uma jogada dessa vez, nem contra os Pistons, mas ilustra bem como os Bulls abriram o leque ofensivo.

Essa jogada, contra o Phoenix Suns nas Finais de 1993, duas temporadas depois dos Bulls derrotarem os Pistons, ilustram um pouco como o triângulo ajudou, como Pippen e Grant cresceram.

B.J. Armstrong, com a bola na ilustração, Jordan e Bill Cartwright formam o triângulo no lado forte.

Olha! Um triângulo!

Enquanto isso, Grant chega para o ataque pronto para interagir com Pip.

BJ coloca a bola no pivô, Grant faz o corta-luz para Pippen que vai cortar em direção à cabeça do garrafão.

Armstrong faz o segundo corta-luz, envolvendo Grant e abrindo caminho para Pippen, e Jordan vai em direção ao aro, chamando a defesa.

Cartwright passa para Pippen, que…

 

… tem o chute livre.

Olhem o .gif de novo.

Caso Pip não tivesse o chute, Grant estaria livre, ou MJ poderia continuar a curva para a linha dos 3. O ponto é, os Bulls tinham opções diversas.

Nike Air Jordan

O documentário explica como Jordan preferia a Adidas mas acabou na Nike ao ser obrigado por sua mãe a ir na reunião da marca novata. Também mostrou como as vendas do Air Jordan I esmagaram as expectativas da Nike. Segundo David Falk, agente de MJ, a empresa esperava vender US$3 milhões nos primeiros três anos. Para isso, a Nike fechou um contrato de cinco anos, US$500.000 com Jordan. No primeiro ano, os tênis de Michael renderam US$126 milhões em vendas para a Nike. O documentário não conta duas coisas. A primeira, uma bobagem, Falk contou essa história entre takes. O valor impressionou tanto Jason Hehir, o diretor, que ele pediu para Falk repetir com as câmeras ligadas.

A segunda, Jordan quase deixou a Nike em 1987. O então vice-presidente da Nike e o homem que assinou Michael Jordan, Rob Strasser, havia pedido demissão. Strasser, conhecendo a lealdade de Jordan, planejava levar o menino de ouro com ele para onde fosse. Peter Moore, o designer dos Air Jordan I e II, também estava com um pé na porta. Entra Tinker Hatfield.

Hatfield era novo no design de tênis. Ele havia completado a faculdade de arquitetura e nunca planejou estar na Nike. Aos 35 anos, o design mais importante da megaempresa caiu em seu colo. Aliás, ele só estava na parte de design da Nike por vencer um concurso dentro da empresa. O desafio era desenhar um tênis que pudesse ser usado tanto para performance quanto com estilo no dia a dia. Inspirado pelo Centro Georges Pompidou, de Paris, ele desenhou o primeiro Air visível e ganhou o concurso.

A primeira coisa que Tinker fez foi pular em um avião e ir conhecer Jordan. Ao conversar, Hatfield fez algo que ninguém havia feita até então, tentou conhecer Michael. Um dos princípios da arquitetura que Hatfield aprendeu foi conhecer o cliente. Pela primeira vez, alguém faria um tênis baseado nos interesses de Jordan.

Jordan queria um tênis mais baixo que os canos altos do I e II. Hatfield pesquisou materiais fora do couro comum. Como Jordan usaria um tênis por jogo, Hatfield pode usar um couro mais maleável, por exemplo. Por dias ninguém dormiu até que um protótipo estivesse pronto.

Jordan chegou de uma partida de golfe com Strasser e Moore, ele não queria estar ali. Tinker começou a lembrar MJ das conversas que tiveram, e mostrar os desenhos dos tênis. Os olhos do astro começaram a brilhar. Hatfield puxou a cortina e lá estava, em sua glória com “couro de elefante”, o Air Jordan III. Michael pegou o tênis, olhou o logo hoje famoso. O resto é história.

Esse é só o começo. Prometo que a gente vai se divertir por aqui. Próximo capítulo? Pippen, Rodman, Dream Team!

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