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Bandejas da Quarentena #2 – A Dinâmica do Basquete Australiano

Parece que fazem 5 meses sem basquete, não é mesmo, caro leitor? No mundo frenético que é a temporada do esporte da bola laranja, com tanto jogo em tanto lugar da mundo, todas essas semanas de quarentena podem servir, ao menos, para resgatar um pouco da temporada e olhar com mais calma àquilo que vem acontecendo nesse doido 2019-2020. A intenção é trazer notas diversas sobre o mundo do basquete enquanto o tempo recluso nos dá mais tempo e paciência para revisitar essa época.

O midiático LaMelo Ball, genioso armador que compõe a Família Ball de Lonzo, LiAngelo e LaVar, levou a popularidade do Basquete Australiano até outro patamar na última temporada, incluindo transmissões para a TV Americana. Pelo lado brasileiro, tivemos o caso de Didi Louzada, que depois de ser escolhido pelo New Orleans Pelicans no Draft de 2019, foi enviado para o Sydney Kings com o objetivo de ganhar experiência, aprender inglês e desenvolver seu jogo. Essa atenção para a grande ilha da Oceania não se dá por acaso – a NBL (National Basketball League), que reúne clubes da Austrália e alguns da Nova Zelândia (que também tem um campeonato nacional próprio), vem trabalhando há alguns anos para virar um polo de talentos norte-americanos, com destaque para os prospectos.

AUCKLAND, NEW ZEALAND - NOVEMBER 30: LaMelo Ball of the Hawks in action during the round 9 NBL match between the New Zealand Breakers and the Illawarra Hawks at Spark Arena on November 30, 2019 in Auckland, New Zealand

No começo da temporada 2018/2019, a NBL decidiu lançar, em parceria com a NBA, o Next Stars Program, projeto que visava buscar jogadores americanos saídos do High School, mas que não gostariam de seguir a rota do Basquete Universitário por diversos motivos. Os atletas inscritos no programa recebem cerca de 100 mil dólares australianos (80 mil dólares, em conversão aproximada) em um contrato de uma temporada, participando do elenco profissional da equipe que resolveu jogar.

Casos de atletas que preferem buscar o basquete profissional do que as bolsas universitárias não são novidade, como já tivemos Brandon Jennings (Itália) e Emanuel Mudiay (China). Em grande parte dessas questões, temos atletas de origem humilde que já querem/precisam ganhar dinheiro, coisa que o antiquado e hipócrita sistema do NCAA não proporciona legalmente, resultando em esquemas de corrupção recentes. Assim como jogadores estadunidenses buscando a rota americana para ir para a NBA também não tem pioneirismo de agora. Jamis Ennis III, atualmente no Orlando Magic, foi MVP de temporada 2013-2014 da NBL, cestinha do Perth Wildcats. Terrence Ferguson e Brian Bowen também buscaram essa rota alternativa, mas estes como pouquíssimos minutos por lá.

O que atrai os jovens para lá, maior até do que a grana, que seria maior na Europa ou China, é a familiaridade com a língua inglesa, além de uma temporada diminuta, que vai de Outubro até Março. Comparativamente falando, a temporada europeia começa em Setembro e dura até o final de Junho. Essa tempo extra não é descanso, mas sim flexibilidade que permite fazer treinos individuais com as franquias da NBA no processo Pré-Draft e participar de todos os eventos sem restrições, coisa complicada para prospectos internacionais e calendário restritivo das competições na Europa e América do Sul.

Com o College cada vez mais questionado e o fato de cada vez os prospectos optarem por uma abordagem de apenas ficar um ano no Basquete Universitário, para já tentar a sorte na NBA, por que não usar essa temporada para fazer dinheiro e ganhar experiência profissional num campeonato maleável? Faz todo sentido. RJ Hampton, que jogou a temporada pelo New Zeland Breakers, foi o primeiro prospecto cotado em loteria que não tinha problema nenhum de elegibilidade, que buscou essa rota. LaMelo, que já não podia optar pelo rota universitária já, depois já ter buscado o basquete profissional no pequeno Vytautas, na Lituânia (uma experiência assombrosa de ruim, para ele), também foi pra lá, mas com uma intenção maior de redenção e afastar a imagem negativa das estripulias de seu pai. E ambos fizeram ótimas temporadas, produtivos e com ótimas impressões para os olheiros da NBA, que colocam Ball como uma possível escolha alta do Draft, talvez a primeira, em todo seu conjunto de criatividade, drible, naturalidade como criador de jogadas e tamanho. Hampton, que joga com uma energia assustadora, é um ala muito bem moldado defensivamente, capaz de complementar muito bem as lacunas de uma equipe.

Didi, nosso querido capixaba que estourou rapidamente por Franca, teve uma temporada com muitos minutos em uma equipe muito competitiva, que conta com o atual MVP do campeonato, o experiente Andrew Bogut, ex-Warriors e Bucks. Entretanto, com problemas de eficiência na pontuação e lesões, não correspondeu as expectativas exageradas criadas pela torcida.

Em termos de estilo de jogo, a Liga Australiana é muito física, com alas e pivôs brucutus, muito fortes, contando com um nível atlético geralmente mais alto do que na América do Sul e China. Com poucas equipes, apenas nove, não existe muito espaço para diluição de elenco, normalmente os times são profundos, com pouco espaço para jovens. Além de LaMelo, Didi e RJ, apenas os jovens Samson e Harry Froling, ambos locais, conseguiram atuar por minutos relevantes.

Como característica, geralmente é uma liga dominada por armadores pontuadores, aqui a maior deficiência da formação de talentos da Austrália, por exceção de Patty Mills e do quanto você gostar de Matthew Dellavedova. Nos anos recentes, Melo Trimble, Casper Ware e Bryce Cotton, com curtas passagens pela NBA e dominância no College, estão entre os maiores pontuadores. Em anos passados, Jerome Randle, rei da meia distância naturalizado ucraniano, Josh Childress (ele mesmo!) e Jordan McRae estão entre os atletas que foram referência no torneio.

Nessa temporada, ainda houveram algumas vitórias da Austrália no mercado de talentos americanos que são consolidados ou estariam em bons clubes na Europa, como John Roberson, um dos melhores arremessadores após o drible do mundo (7 temporadas seguidas com aproveitamento maior do que 40% nos arremessos de três pontos, esse ano em mais de 9 tentativas por jogo), Aaron Brooks (aquele), Scott Machado, Cameron Oliver e Lamar Patterson. Cada vez entra mais dinheiro por lá, incluindo ex-atletas comprando equipes, como Zach Randolph, Josh Childress, Dante Exum, Shawn Marion e Al Harrington. Incapazes de comprar uma equipe de NBA, pois a realidade dos donos de lá são de bilionários, enquanto os atletas, na média, costumem ser milionários “apenas”, surge como uma alternativa para buscar a carreira administrativa e ainda seguir ligado ao basquete.

Todo esse conjunto de dinheiro, jovens prospectos, maior competitividade no mercado internacional e flexibilidade tornam o campeonato australiano uma rota cada vez mais viável para o sucesso. Talvez falte o peso de estar em um torneio mais competitivo de nível continental, mas os melhores times da Oceania são os da própria NBL e participar de torneios asiáticos é de uma logística assustadora e que não vale a pena, que me desculpem os maiores clubes do Irã, China, Japão e Coreia do Sul. Não a toa, Israel e Turquia jogam competições europeias, mas muito melhores localizados para isso.

De toda forma, a tendência é que o campeonato siga ganhando força e seja uma rota constante para o Draft, um exemplo do que sucesso, organização e bom planejando podem te dar de oportunidade para receber talentos e grana. Algo a ser olhado de perto e como benchmarking para ligas tentando ser emergentes, como o NBB no Brasil.

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