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Exclusivo: Elena Delle Donne, atual campeã e MVP da WNBA, fala sobre a sua carreira, livros e muito mais

Matéria feita com colaboração do Renan Ronchi

Atual campeã da WNBA com o Washington Mystics, multicampeã com a seleção americana e dona de uma carreira digna de Hall da Fama, Elena Delle Donne definitivamente vem fazendo história no basquete feminino.

Mas antes de chegar a ser a jogadora que nós conhecemos atualmente, vamos voltar para 2004 e relembrar o inicio da carreira dela.

Nascida em 5 de setembro de 1989, Elena é a filha caçula de Ernest e Joan Delle Donne. Ela tem uma irmã mais velha que se chama Elizabeth (Lizzie) e o irmão chamado Gene.

Elena com a sua irmã Elizabeth e o seu irmão Gene. Foto: Arquivo Pessoal

Antes da jovem brilhar nas quadras do colégio, ela precisou lidar com a sua altura herdada pelos pais e não foi nada fácil. Em uma das história que a Elena conta sobre o trauma do seu tamanho, acontece já na terceira série. Em que a sua turma tinha que se medir usando pedaços de papel e foi quando nas palavras dela se sentiu humilhada. Pois o trabalho dela se estendia muito além do de seus colegas de classe. Dois anos depois desse incidente, um médico queria iniciá-la com injeções para atrapalhar seu crescimento; sua mãe recusou. Na época em que estava na oitava série, ela já tinha 1,83 m.

Além disso, Delle Donne teve que aceitar “ter um corpo que pudesse fazer muitas coisas que o corpo de sua irmã mais velha, Lizzie, não poderia realizar”. Lizzie nasceu surda e cega, é incapaz de falar e também tem paralisia cerebral e autismo. Foi uma infância que ela teve que lidar com muitos contratempos, mas em quadra vimos o quando ela é especial.

No ensino médio, Elena jogou pela Ursuline Academy (Delaware) e levou a equipe para três títulos consecutivos no Delaware State Championship e foi classificada como a número 1 da classe pelo Scout.com e também se tornou uma McDonald’s All-American.

Ela era a primeira e única aluna da Ursuline até agora a marcar mais de 2.000 pontos durante sua carreira no ensino médio e também estabeleceu o recorde nacional do basquete feminino no ensino médio em acertos de lances livres consecutivos (80) em 2005-2006.

Ela também participou do time de vôlei da sua escola e conduziu a equipe ao título da DIAA State Championship em 2007.

Voltando ao basquete, Delle Donne foi uma All-American da WBCA (Women’s Basketball Coaches Association) e participou do WBCA High School All-America Game, onde marcou 17 pontos e ganhou o MVP para a equipe Red.


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A jovem atleta também ganhou três vezes o prêmio de melhor atleta do ano pela Gatorade em Delaware. A Sports Illustrated a comparou com Diana Taurasi e Dirk Nowitzki. Com um bom currículo no High School, foi o momento dela escolher por qual universidade iria jogar. Ela se comprometeu com UConn, escolha óbvia pelo momento que vivia a universidade.

Mas dois dias depois de chegar em Connecticut, ela deixou a universidade. Ela sentia falta da família.

Então, Delle Donne foi transferida para a Universidade de Delaware, a apenas 15 minutos de carro de sua casa. Mas ela fez uma pausa no basquete e se juntou ao time de vôlei, onde ela também era incrível. Delle Donne ajudou as Blue Hens a vencer 19 jogos e conquistar um título da CAA. Eles apareceram no torneio da NCAA, mas caíram para Oregon.

Na conquista do título da CAA sobre a Northeastern, Delle Donne fez 15 pontos e deu três bloqueios. Ela acabou sendo selecionada para a equipe All-Rookie da conferência.

O voleibol não ficaria muito na vida de Elena Delle Donne. O basquete voltou a chamar e ela não resistiu, juntando-se à equipe de Tina Martin em Delaware para a temporada 2009-10.

Em toda a sua carreira em Delaware, Delle Donne foi três vezes All-American, três vezes CAA Player of the Year e ganhou o prêmio Honda Player of the Year no ano de 2013.

Ela simplesmente terminou sua carreira na universidade como a quinta maior cestinha da da primeira divisão da NCAAW com 3.039 pontos e ela é a maior pontuadora de todos os tempos da universidade, em ambas categorias.

Depois de uma boa temporada no college, Delle Donne foi bem ranqueada para o draft da WNBA e acabou sendo selecionada pelo Chicago Sky na 2ª escolha geral do draft de 2013.

Ela chegou na WNBA em um momento complicado pra liga. A primeira geração de estrelas que brilharam no torneio estavam quase em sua totalidade aposentada (lembrando que a liga teve sua primeira temporada em 1997), a situação financeira da maioria dos times era crítica e a reclamação das atletas sobre a ausência de visibilidade constantes. Foi nesse contexto que a jogadora se consolidou como um dos maiores nomes de sua geração.

Delle Donne caiu como uma luva no Chicago Sky, equipe localizada em um mercado grande e pouco tradicional no basquete feminino e que já contava com um bom núcleo de jogadoras. Jogando ao lado de boas arremessadoras como Swin Cash e Epipphany Prince, com a inteligência da armadora Courtney Vandersloot e o jogo interno de Sylvia Fowles, EDD floresceu como uma das jogadoras mais completas da liga e transformou uma equipe que mal havia ido aos playoffs em um contender na briga pelo título.

O Chicago Sky terminou a temporada no topo da conferência, indo aos playoffs pela primeira vez em sua história com Delle Donne conquistando o prêmio de caloura do ano, estando entre as cinco concorrentes ao prêmio de MVP e, principalmente, conquistando os fãs de basquete de todas as equipes.

Seu carisma aliado ao alto nível de seu jogo veio em boa hora pra WNBA. Delle Donne liderou o voto popular para o jogo das estrelas da WNBA – até hoje a única caloura a conquistar esse mérito. Delle Donne passou a ser convidada para eventos da NBA, a dar entrevistas e aparecer em veículos de Chicago representando o basquete feminino – coisa que ninguém em Chicago ainda havia conseguido fazer.

Elena conseguiu levar o Chicago Sky para as finais da WNBA logo em seu segundo ano, em 2014. Mas uma lesão obtida nos playoffs daquele ano prejudicaria sua performance. Lesões que, infelizmente, foram recorrentes na passagem da ala por Chicago. A ala ainda conquistou o prêmio de MVP da temporada em 2015, o primeiro de sua trajetória, mas não conseguiu trazer o desejado anel de campeão para a cidade de Chicago.

Em 2016, Delle Donne atuou pela seleção dos Estados Unidos nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Era a primeira vez que atuava pela seleção adulta após a consagração como estrela do basquete, visto que em outras oportunidades lesões haviam atrapalhado. Saindo do banco em todos os jogos, teve participação importante na manutenção da dominação americana no contexto do basquete de seleções.

Foi no começo de 2017 que Delle Donne, agora já consolidada como uma das estrelas da liga e expoente de uma geração, anunciou que havia sido trocada para o Washington Mystics. Descontente com o relacionamento da diretoria da equipe com as jogadoras e querendo ficar mais próxima da irmã, a ala solicitou uma troca e foi para o time de Mike Thibault, que também contou com a chegada da armadora campeã pelo Sparks Kristi Toliver e parecia pronto para vôos maiores.


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A combinação da ala com a belga Emma Messeman mostrou resultados imediatos. Jogando ao lado de outra ala alta, inteligente e com bom arremesso, Delle Donne mais uma vez superaria seu histórico de lesões para fazer o Mystics ir aos playoffs e passar do segundo round pela segunda vez em sua história. Mas ainda não seria naquele ano que o título viria.

Delle Donne jogou muito tempo como ala-pivô em Washington, devido a ausência de Messeman em função do Mundial de 2018. Ainda assim conseguiu levar o Mystics para as finais da liga, onde perdeu para o também histórico Seattle Storm de Breanna Stewart.

Em 2019, contudo, EDD voltou a atuar mais minutos em sua formação de origem e o que se viu foi uma das equipes mais eficientes da história da WNBA. Uma equipe que quebrou diversos recordes estatísticos liderados por uma Elena que mais uma vez fazia história na liga: terminou a temporada no clube dos 50/40/90 (jogadores com 50% de aproveitamento nos arremessos de 2, 40% nos arremessos de 3 e 90% nos lances-livres) – a primeira vez que uma atleta fazia isso na história da WNBA – e o segundo prêmio individual de MVP.

Os playoffs de 2019 coroaram a temporada mágica de 2019 de Elena. Após eliminar com propriedade o Las Vegas Aces nas semifinais, mais uma vez lesões tentaram atrapalhar a jogadora nas finais contra o Connecticut Sun. Mas dessa vez não atrapalharia. Após cinco jogos altamente disputados, Delle Donne finalmente conseguiu alcançar o objetivo final e conquistou seu primeiro anel de campeã da liga. Elena entra em 2020 como a atual campeã, MVP e membra exclusiva do clube dos 50/40/90 na liga que fez história e se tornou embaixadora.

Além das conquistas marcantes dentro da quadra, ela também mostrou talento fora delas. Mas precisamente com a caneta na mão.

Delle Donne entendeu cedo seu papel de embaixadora não só de uma geração de atletas que busca a igualdade de oportunidades no esporte, mas também de todos que possuem a doença de Lyme. Em função disso, uma de suas formas de se comunicar com as pessoas para expôr as causas trazidas por esses grupos foram através de livros que a atleta escreveu.

No livro “My Shot: Balancing it All and Standing Tall”, Delle Donne escreve uma autobiografia contando em detalhes sua história de vida e tudo que passou para chegar no ponto de estrela do basquete. As dificuldades em lidar com seu corpo quando criança, como precisou recusar uma bolsa em UConn para ficar próxima da irmã, o preconceito machista de uma mulher se destacando em esportes, dentre outros pontos são desmembrados no livro. A biografia foi muito bem avaliada por especialistas e é uma grande fonte de inspiração, especialmente para jovens mulheres que se interessam por esporte.

Foto: Divulgação

Na série ‘Hoops Series‘, Delle Donne escreve uma série de livros infantis fictícios contando a história de Elle Deluca, uma menina de 12 anos que é muito mais alta que a média de sua idade e precisa lidar com as mudanças no seu corpo durante essa idade, a relação com as outras crianças da escola e, claro, com seu time de basquete. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Agora que você conheceu um pouco da estrela Elena Delle Donne, o blog tem a honra de apresentar um papo exclusivo com jogadora americana. Ela falou sobre a sua carreira, vida pessoal, livros e muito mais. Vale lembrar que se você for assinante, vai poder ler com exclusividade quatro perguntas respondidas pela Elena.

Sem mais delongas, vamos para o papo.

Blog do Souza – Como foi sua infância quando criança? Além do talento natural, você teve que superar o preconceito por causa da sua altura e a condição de sua irmã. Como tudo isso ajudou você a se tornar o jogadora que é hoje?

Elena Delle Donne – Todas as lições que aprendi ao crescer, definitivamente me tornam a jogadora e a pessoa que sou hoje. É também a fonte da minha inspiração. As pessoas nem sempre vêem a beleza nas diferenças dos outros. Eu me diverti por ser alta e as pessoas olhavam ou estavam distantes de Lizzie por causa das suas deficiências. À medida que envelheci, aprendi a confiar no que me diferencia e a aceitar e celebrar as diferenças dos outros. É uma grande parte de como vivo minha vida hoje e espero usar minha posição como jogadora para espalhar essa mensagem.

Elena com a sua irmã Lizzie. Foto: Arquivo Pessoal

Blog do Souza – Antes de falarmos sobre sua bela carreira no basquete adulto, eu gostaria de voltar um pouco nos seus dias de escola. Você foi vitoriosa e quebrou alguns recordes ao jogar no time de basquete da Ursuline Academy. Porém, você jogou vôlei e foi muito bem. Acabou vencendo o campeonato estadual da DIAA. Você imaginou que em algum momento jogaria vôlei e não basquete? Você se lembra de algum momento ou história em que foi o momento decisivo para você decidir escolher o basquete?

Delle Donne – Eu nunca imaginei que jogaria vôlei e na verdade só fiz parte do time porque eles precisavam de alguém para substituir uma companheira de equipe machucada e eu era alta, mas o momento foi perfeito naquele ponto da minha vida.

Eu gostava de voleibol, mas aos poucos comecei a sentir falta de basquete. Então, um dia eu fui no ginásio da escola com a ajuda de uma amiga que estava no time de basquete. Fomos tarde da noite para que ninguém me notasse, e eu comecei a arremessar. Esse foi o meu ponto de virada – depois de algumas sessões noturnas, eu queria competir e sabia que havia me apaixonado pelo basquete novamente.

Blog do Souza – Você tem uma carreira incrível e sempre te vimos no topo como uma das melhores jogadoras da WNBA, mas você até pouco tempo não tinha um título na liga. Essa conquista veio no ano passado e você terminou com a MVP. Quando você ganhou o título que perseguia tanto, qual foi sua primeira reação? O que passou pela sua cabeça naquele momento?

Delle Donne – Muita coisa passa pela sua cabeça, é bem impressionante. Só me lembro de me sentir tão grata por minhas colegas de equipe, meus treinadores, pela organização Mystics, minha família e amigos. Para realizar o que fizemos, com um grupo de pessoas talentosas, fortes, engraçadas e incríveis, o tornou muito mais especial.

Blog do Souza – A WNBA está crescendo cada vez mais, mas as jogadoras ainda precisam disputar campeonatos europeus para obter uma renda salarial mais alta. Sobre isso, qual é a sua perspectiva para o futuro do basquete feminino e você acredita que os salários do basquete feminino serão mais justos? Se assimilar aos salários do masculino?

Delle Donne – Com o novo CBA, acho que é uma prova de que estamos caminhando na direção certa. Ainda há muito trabalho a ser feito, mas esperamos que ao usar nossas plataformas para falar sobre igualdade no basquete feminino, dessa forma vamos ajudar a promover a igualdade em todos os esportes.

Blog do Souza – Você claramente tem uma carreira brilhante, mas qual foi a coisa mais difícil de superar no basquete e fora dele?

Delle Donne – No basquete, são as lesões e a força mental para voltar de tempos difíceis. Como atleta, você dedica sua vida para treinar e melhorar para competir em alto nível. As lesões impedem que você faça o que ama. Naqueles tempos, manter-se positivo e focar-se na meta maior ou objetivo final, ajuda você a passar por isso.

Fora do basquete, acho que a coisa mais difícil de superar foi tomar decisões melhores para mim, independentemente da pressão externa.

Blog do Souza – O que mais você deseja realizar em sua carreira antes que termine?

Delle Donne – Eu adoraria jogar outras Olimpíadas e ganhar outra medalha de ouro. Ganhar mais um título da WNBA (consecutivo!) para o Mystics também seria incrível.

Blog do Souza – Poucos brasileiros sabem, mas você também lançou uma biografia e vários livros para a educação infantil. Como essas ideias surgiram?

Delle Donne – Me lembro de crescer e não ter conseguido encontrar nenhum livro que tivesse histórias semelhantes às que eu estava passando. Então, escrevi meus livros esperando que eles alcançassem crianças e jovens adultos que pudessem se relacionar com a minha história e encontrassem inspiração em como eu lidei com os obstáculos, para que eles pudessem aplicar na própria vida.

Blog do Souza – E os livros estão tendo uma boa repercussão. É possível que você não pare por aí e publique mais livros?

Delle Donne – Eu com certeza não vou parar! Adoro todo feedback positivo sobre os meus livros e definitivamente vejo isso como motivação para um dia escrever mais.

Blog do Souza – Como você se sente sabendo que várias garotas no mundo têm você como inspiração para continuar jogando basquete?

Delle Donne – Na verdade, isso me inspira a continuar trabalhando e dando um bom exemplo dentro e fora da quadra de basquete para aqueles que estão me admirando. Essas meninas são a minha inspiração.

Blog do Souza – Existem muitos fãs brasileiros da WNBA, mesmo com a pouca publicidade da liga no país, que mensagem você poderia mandar para eles?

Delle Donne – Acho que posso falar por todos as jogadoras quando digo que estamos muito gratos pelo seu apoio. O que é mais surpreendente na WNBA, é que temos fãs em todo o mundo e agradecemos a cada um deles. Espero que você continue assistindo e acompanhando. Encontre alguma inspiração no jogo ou nas jogadoras.

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Sou o criador do site HSBasketballBR, Blog do Souza e fui co-criador do Live College BR. Fui o primeiro brasileiro a escrever sobre high school para um site americano, o D1Vision. Trabalhei para a Liga Super Basketball como repórter e assessor de imprensa. Também escrevi para os blogs como Jumper Brasil e TimeOut Brasil, tive textos publicados pelo Bala Na Cesta. Trabalho de Scout nas horas vagas e acredito que o estudo diário do basquete, me faz um profissional melhor.

2 comentários em “Exclusivo: Elena Delle Donne, atual campeã e MVP da WNBA, fala sobre a sua carreira, livros e muito mais

  1. Do Blog do Souza a gente sempre espera qualidade, e o cara nunca decepciona. Baita entrevista. E que lenda!

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