LBF

Precisamos falar sobre Ariadna Capiró

A LBF voltou! Antes que a pandemia de coronavírus forçasse a paralisação do principal torneio de basquete feminino do país, tivemos três partidas que já apontaram algumas das histórias que devem permear a edição de 2020 da competição. Podemos apontar a excelente estreia da nova estrangeira a jogar no Brasil, a armadora argentina Ornella Gonzalez, na virada do Santo André sobre o ótimo Ituano da dupla Alana e Mari Dias, jovens que já figuram na seleção brasileira e devem ser dois dos destaques da liga.

Também é possível citar o potencial do núcleo jovem da equipe de Sorocaba, que mostrou sinais de ter alto potencial mas que não foi páreo para o forte Vera Cruz Campinas de Patty, arremessadora que vive seu auge técnico.

Por fim, houve a estreia do incrível Sampaio de Meli Gretter e Tainá Paixão, ainda desfalcados da pivô Erika dos Santos mas que iniciou confirmando seu favoritismo atropelando a equipe de Araraquara.

Entre todas essas histórias, no entanto, há uma que merece um destaque especial. A rodada também marcou a reestreia da ala cubana Ariadna Capiró pelo Santo André na LBF, time que atuava quando explodiu no cenário nacional e conquistou a primeira edição do torneio em 2010/11. Aos 37 anos e vivendo a fase final da carreira após uma série de títulos, recordes e prêmios individuais, a sua atuação na vitória da equipe andreense foi uma lembrança de que a jogadora continua sendo decisiva e um dos principais nomes do basquete brasileiro. Um nome que precisava ser mais exaltado e capitalizado pela liga que a consagrou.

Mas você entende o tamanho de Ariadna no basquete brasileiro? Nos acostumamos a exaltar as gerações anteriores pelo óbvio alto nível apresentado e os resultados nas competições internacionais. Mas quando se trata dos tempos atuais, em especial a última década, poucas atletas conseguiram chegar onde a cubana chegou. Vamos relembrar.

Origem

 
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Ariadna nasceu em Havana em uma família já reverenciada no âmbito esportivo. A atleta é filha de Armando Capiró, jogador de baseball e um dos maiores atletas da história de Cuba, que chegou a receber ofertas da MLB (Major League Baseball, liga dos EUA que concentra a elite dos atletas na modalidade) mas que recusou pois não queria perder o caráter de amador e ter complicações legais no seu país, visto que o esporte cubano até hoje vive um contexto diferente dos demais.

A ala logo se apaixonou pelo basquete e frequentou as seleções de base cubanas, estando no time que foi campeão do Pan-Americano de 2003, na República Dominicana. Eventualmente, a jogadora precisou tomar a decisão de ficar em seu país ou se profissionalizar, onde teria de jogar por equipes em outros países e não ser mais convocada pela sua seleção. Diferente do pai, escolheu a segunda opção.

Chegou ao Brasil em 2006, antes mesmo da existência da LBF, defendendo o Marília depois da indicação da também cubana Lisdeivi Pompa, que já atuava no Brasil. Logo passou por Catanduva e Ourinhos, onde pela primeira vez se sagrou campeã nacional, mas em um papel limitado, vindo do banco e jogando poucos minutos. Foi em outra cidade que sua carreira começou a mudar.

Explosão sob o comando de Laís Elena

 
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Foi com Laís Elena que Ariadna conseguiu transformar o potencial que demonstrava em alta performance e em resultados. A técnica e formadora de Santo André conseguiu trazê-la após sondá-la por um período e o resultado foi o melhor possível. Com uma atípica combinação de força e velocidade, altura e envergadura acima da média da posição e capacidade de pontuar de todos os pontos da quadra, a cubana se consolidou como uma das principais jogadoras do país. Chegou a atuar como “point forward”, a denominação de alas que conseguem armar o jogo devido à sua facilidade em encontrar buracos nas defesas e aproveitar sua vantagem física para explorá-los nas infiltrações.

O encaixe da equipe também ajudava – com a forte pivô Simone ajudando a abrir espaços e contribuindo nos rebotes e Micaela e Êga – jogadoras com bom arremesso e movimentação sem bola – complementando o sistema ofensivo, o Santo André de Ariadna conseguiu se consolidar como uma potência novamente e se tornar o primeiro campeão da história da LBF, além de conquistar o campeonato Paulista de 2011 – o primeiro que a cidade conquistava desde 1995.

A partir dali, Ariadna não parou mais.

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A carreira de Ariadna deslanchou. Sem poder atuar em torneios de seleções e com estaduais inconsistentes, foi na LBF onde ela pôde demonstrar o tamanho de seu jogo. Os resultados ficaram para a eternidade. Entre passagens por Santo André, São José, América e Americana/Campinas, foram quatro títulos, três MVP’s, quatro aparições no jogo das estrelas e a alcunha de maior cestinha da história da competição.

Nos playoffs seus números são ainda mais profundos: lidera o torneio em pontos, rebotes, lances-livres convertidos, bolas de 2 pontos convertidas e duplos-duplos. Atuando ao lado de outras jogadoras com passagens históricas como Clarissa, Damiris, Paola Ferrari e Meli Gretter, Ariadna sempre soube como executar um basquete vencedor, convertendo sua capacidade de pontuar em vitórias expressivas e recorrentes. Os recordes individuais foram consequência desse trabalho.

No primeiro jogo da LBF de 2020 – transmitido pela TV Cultura e reestreia da cubana pelo time que conquistou o primeiro título no torneio – Ariadna mais uma vez foi fundamental no resultado. Com o Santo André perdendo por 14 e a jogadora errática nos arremessos de média e longa distância, foi necessário um ajuste que a colocou jogando mais tempo debaixo da cesta, explorando o pick-and-pop com Ornella. O resultado foi quase instantâneo. Ariadna cresceu no jogo e o Santo André cresceu junto. Não haveria a virada sem que a cubana tivesse subido de produção e dado arremessos fundamentais para a vitória, mostrando outra parte pouco comentada de seu jogo – a capacidade de acertar arremessos decisivos quando necessário.

Ariadna não tem mais a explosão física de outrora. Mas ainda figura entre as protagonistas da Liga de Basquete Feminino. Mantendo-se saudável, deve ser a principal jogadora andreense, como foi em 2010. São dez anos seguidos jogando em alto nível e construindo um legado que não pode ser esquecido. Precisamos respeitar, enaltecer e desfrutar enquanto há tempo o basquete da jogadora.

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