Extras

Por que a mulher tem pouco espaço no basquete masculino?

Hoje é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Uma data que possui um histórico de representatividade e luta importantíssima pra todas as mulheres. Para celebrar esse dia, nós poderíamos falar aqui sobre todas as conquistas das mulheres no basquete feminino ou até mesmo exaltar a superação diária de todas as mulheres que jogam basquete.

Porém, não podemos comemorar tanto assim. Não é que eu não queira, mas no dia a dia o espaço da mulher ainda é pequeno no basquete masculino.

Então, no texto de hoje eu gostaria de mostrar para você como é a real presença da mulher na modalidade.

Mulher no NBB é quase raridade!

É comum olhar na principal Liga de Basquete Feminino (LBF) e ver homens comandando as equipes. Para você ter uma ideia, somente o Santo André/APABA tem uma treinadora mulher (Arilza Coraça) entre os 8 times que vão disputar a nova temporada da LBF.

Se na modalidade feminina tem mais homens treinando os times, então no masculino vamos ver alguma mulher no comando. Correto? Errado. Nenhuma mulher é treinadora no NBB. Esse dado não me assusta para ser sincero, o que me incomoda são os números abaixo:

  • Cerca de 260 homens estão inscritos no site do NBB. Entre treinadores, comissão técnica e jogadores.
  • Somente TRÊS mulheres trabalham nos clubes que disputam a competição. São elas: a psicóloga esportiva Mariana Moura (Brasília) e as fisioterapeutas, Marcela Mendes de Almeida Gomide Leite (Minas) e Bianca Yuri Sakai (Pinheiros).
  • Dos 16 times que jogam a competição, somente CINCO possuem assessoras.
  • Nenhum time é presidido ou possui uma mulher em cargo de diretoria.

Olhando os dados acima, é triste saber que as mulheres ocupam aproximadamente 3,1% de espaço no mercado de trabalho do basquete masculino. Mesmo se incluirmos a própria Liga Nacional de Basquete (LNB) nesta conta, o resultado deve se manter o mesmo ou até mesmo ficar pior. Olha que eu nem quero fazer as contas de quantas mulheres negras trabalham no basquete masculino, porque deve ser um número devastador.

Machismo e a falta de oportunidade para as mulheres

Com os dados do tópico anterior em mãos, me faço algumas perguntas: por que poucas mulheres trabalham no basquete masculino? Será que elas não almejam estar na modalidade?

Para responder essas perguntas, nada melhor do que conversar com mulheres que vivem isso no dia a dia. Então, eu enviei esse questionamento para a psicóloga¹ Mariana Moura do Brasília, a assessora Julia Abrão do Sesi Franca e a ex-assessora do Flamengo, Raiana Monteiro.

A duas primeiras foram bem objetivas nas respostas. Na visão da Júlia, ela acredita que falta oportunidade para as mulheres. Já a Mariana disse: “falta de espaço e conhecimento do que tantas mulheres fazem pelo esporte atrapalham a inclusão de novas profissionais no mercado. Para não dizer diretamente, machismo.”

Mariana Moura ao lado dos atletas do Brasília (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas foi a Raiana que nos trouxe uma visão mais profunda para o questionamento. Confira a resposta abaixo:

“Eu acho que a profissionalização da gestão do esporte olímpico, no geral, é relativamente recente. Equipes multidisciplinares, profissionais de atividades meio, trabalho de comunicação e marketing, especificamente para esporte olímpico, ficavam em segundo plano. Acho que muito por conta do orçamento ser menor não era prioridade que as equipes tivessem um assessor ou profissional de comunicação.

Isso fica claro se você olhar pra trás. No Rio, por exemplo, se falarmos em assessoria de esporte, que não seja futebol, eu conto nos dedos (e não completo uma mão) quem foi referência na década passada.

Junto a isso, é cultural o preconceito com mulher no ambiente esportivo, e aí você potencializa o fato quando as equipes que elas atendem são formadas exclusivamente por homens.

Nos últimos anos as mulheres têm remado contra a maré e mudado pouco a pouco esse cenário. Eu fiz parte do movimento #DeixaElaTrabalhar e sinto que as mulheres estão usando mais a voz e reivindicando o que lhes é de direito. E batalhado mesmo por seus espaços. Quando eu entrei no Flamengo, em 2013, o Flamengo era o único time do NBB com assessora, se não me engano. Se olharmos o NBB hoje, já conseguimos enxergar uma evolução. Mas eu tenho certeza que todas as profissionais trabalhando hoje nessa posição tiveram que passar uns bons bocados para “defenderem o seu”.

Mas eu também não acredito em um motivo. Existem diversos fatores que contribuem para essa mudança. O maior investimento em Comunicação, desde que as redes sociais tornaram-se ativo fundamental de todas as equipes, por exemplo, é uma outra razão. A gente hoje ainda vê times sem assessoria por viajar, por exemplo, com equipes enxutas.

Como te falei antes, mulher em viagem é encarado por alguns gestores como custo extra, e não investimento, já que é um quarto a mais pra delegação (assessora não divide quarto com outro companheiro de time).

Enfim, estamos falando apenas de Comunicação. Fora as outras áreas que compõem uma comissão técnica, equipe de marketing, etc.

Ao meu ver, o cenário começou a mudar, mas ainda há muito a que se caminhar.”

Raiana Monteiro (Foto: Arquivo Pessoal)

Então, fica evidente que ainda estamos longe do ideal na busca pela igualdade e valorização da mulher no basquete masculino. Espero de coração, que em um futuro próximo eu possa escrever sobre o aumento exponencial da presença da mulher na modalidade.

Enquanto isso, sigo na torcida por todas essas guerreiras que lutam diariamente para trabalhar no esporte que nós amamos.

Antes de fechar esse texto, desejo um feliz Dia Internacional da Mulher para todas mulheres que eu conheço. E como a minha mãe sempre diz: “não existe um dia da mulher, o dia dela é todo dia.”

Seja um assinante do Blog do Souza por somente 7 ou 10 reais por mês:

 

 

 

 

Siga o Blog do Souza nas redes sociais:

 

 

 

 

Felipe Souza é o criador do site HSBasketballBR, Blog do Souza e é co-criador do Live College BR. Ele escreve para o site americano D1Vision, para a Liga Super Basketball e tem textos no Bala Na Cesta. Faz trabalho de Scout nas horas vagas e acredita que o estudo diário do basquete, faz dele um profissional melhor.

0 comentário em “Por que a mulher tem pouco espaço no basquete masculino?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: