Europa

Vasilije Micic: Do Prospecto ao Craque

Antes de chegar ao Anadolu Efes Istanbul na temporada 18-19, Vasilije Micic perambulou na Europa entre Mega Vizura, Bayern Munich, Crvena Zvezda, Tofaş Bursa e Zalgiris Kaunas, até então com 23 anos e 5 clubes nas costas, todos em contextos bem diferentes. Na base da Sérvia, disputando os europeus e mundiais das categorias jovens, era o grande destaque da seleção local, acima mesmo de um tal Nikola Jokic. No Mundial Sub-19 de 2013, no qual a Sérvia foi vice-campeã contra os Estados Unidos de Aron Gordon, Montrezl Harrell, Marcus Smart, Justise Winslow, Jahlil Okafor e Elfrid Payton, Micic foi o principal destaque de seu país, com 12.9 pontos, 3.8 rebotes e 4.8 assistências por jogo de média, cestinha da equipe e líder em assistências da equipe. Naquela época, seu chamariz era o jogo de pick-and-roll, instintos como passador, altura para um armador (1,97 metros de altura), jogo de pés e controle de bola, como conta Jonathan Givony no DraftExpress

Desde aqueles tempos, Micic saiu da central de prospectos que é o Mega Vizura (o mesmo Mega Leks e, atualmente, Mega Bemax), foi selecionado pelo Philadelphia 76ers em 2014 no Draft penou para render no alto nível europeu pelo Bayern e Zvezda. Teve que ‘rebaixar’ para o mediano clube turco Tofaş Bursa para ganhar cancha, onde era o principal jogador da equipe e começava a dar sinais de melhoras em seus principais defeitos – habilidade de finalizar ao redor do aro e a capacidade de arremesso. Suas limitações como pontuador foram o principal empecilho para um sucesso profissional mais cedo. Além do mais, sua tomada de decisões era um tanto questionável, nos dois lados da quadra, sejam por arremessos esquisitos, passes forçados em ângulos improváveis, decisões defensivas esdrúxulas, que custavam até vitórias de seus times. Logo cedo, recebeu um rótulo de jogador frustrante de se assistir, inconsistente, que mais fazia mal do que bem e deixava a torcida louca com suas inconsistências.

Até aí, essa deveria ser a história natural dos jovens atletas, fazendo a transição para o profissional e se acostumando as novas exigências de um basquete mais veloz, organizado, físico e exigente. Mas quanto mais precoce e brilhante enquanto adolescente, maiores são as expectativas que podem lhe vitimar. Poucos davam a Micic, depois de suas primeiras passagens pela Euroliga, um fio de esperanças de que poderia justificar aquilo que suas atuações na base davam de status.

Sair do basquete turco e ir para o Zalgiris Kaunas foi um passo importante para o armador sérvio, que ali ganhou um contexto diferente. Agora estava em um dos clubes de menor orçamento da Euroliga e que recém tinha trocado de técnico para Sarunas Jasikevicius, um dos maiores armadores da história do basquete europeu, multicampeão pelo Panathinaikos, Maccabi Tel Aviv e Barcelona na Euroliga, mas que apenas começava sua primeira experiência como técnico, ex-assistente do demitido Gintaras Krapikas. Saras é um treinador exigente, reativo e professor para os playmakers. Contudo, o Zalgiris também é uma equipe extremamente estruturada, com ginásio gigante e torcida apaixonada, com um centro de treinamentos de referência e uma cultura de desenvolvimento e investimento em atletas de mercados alternativos, muitas vezes, apostando em jovens em busca de uma primeira grande oportunidade ou chance para se expor.

Em sua passagem por Kaunas, foi reserva da ex-estrela do College Basketball Kevin Pangos, que fez temporada histórica pelo Zalgiris, como melhor jogador dos lituanos, que voltaram ao Final Four depois de quase 20 anos fora, ocasião que foram campeões. Contudo, gozou de 22 minutos por jogo na Euroliga, em que teve papel importante vindo do banco de reservas, dando gás na criação de jogadas e mantendo uma postura agressiva em quadra. Ainda assim, estava longe de ser unanimidade, seguindo a ser criticado por suas atuações inconsistentes. Ainda sem arremesso e capacidade de pontuar chamativa, começou a ganhar destaque por uma defesa sufocante, usando seu tamanho e força para sufocar oponentes no perímetro, mantendo pressão e contestando o que podia.

Bastou uma temporada em bom nível para ganhar uma oferta gorda, para voltar a Turquia, agora no Anadolu Efes Istanbul, um clube que penava também para mudar de patamar na Europa, ainda que com muito investimento. Então, eis que temos uma temporada fantástica por parte de Micic, com médias de 12.4 pontos e 5.5 assistências, chutando 47.4% de quadra e 37.1% na linha de três pontos, ajudando a levar o Efes para o Final Four da Euroliga na temporada passada, entrando também no Segundo Time Ideal da competição. Caiu nas graças do Coach Ataman. Na atual temporada. subiu ainda mais de produção, com 15.4 pontos e 6.5 assistências, arremessando pela primeira vez na carreira acima dos 40% do perímetro. Agora, trata-se de um pontuador bastante confiável, capaz de fazê-lo de vários lugares da quadra com uma mecânica mais natural, rápida e compacta. Isso sem deixar seu lado passador de lado, ainda a faceta mais brilhante de seu jogo. Ao lado de Shane Larkin, lidera os istambulitas a melhor campanha da Euroliga, com 9 vitórias e 2 derrotas.

Traços do craque que se tornou Micic podem ser vistos nas jogadas abaixo. Começamos com esse passe desmoralizante após perder o equilíbrio todo:

Neste lance, Micic faz uma difícil bandeja no reverso, rente a linha de base após contornar o pivô adversário, que ainda estava contestando a bola:

Também em seu arsenal de passes está o lob com a mão esquerda após receber um handoff. Rápido, aproveitamento o espaço que a cobertura deixou para fazer o passe por cima para Bryant Dunston, que estava de roll man.

Para esta jogada, Vasa chama o pick and roll alto com Dunston, em que a defesa busca direcionar ao lado direito, que está colapsado com três defensores depois de seu marcador primário. Percebendo isso, Micic usa novamente o corta-luz do pivô para ir para o lado esquerdo, agora contra o pivô adversário (o conterrâneo Milutinov), que é ágil e está no lance. Ele consegue o contornar mantendo o drible com a mão esquerda e finge o passe para a zona morta para tirar Koniaris da cobertura, conseguindo bela bandeja de esquerda.

E esse raciocínio super rápido? Deu o tapinha após o turnover forçado pela defesa para deixar Larkin livre em transição.

Na jogada abaixo, Micic recebe o passe do lateral e fica com o garrafão cercado por três atletas. Então, gira e finge o passe para fora, suficiente para ludibriar um dos adversários, que saiu para o perímetro. A partir daí, gira de novo, com o atleta da cobertura indo cobrir um possível arremesso em flutuação, abrindo a brecha para o passe para Dunston, livre.

Neste tempo, ainda ganhou o chute em movimento como arma:

No Final Four da temporada passada, judiou por completo da defesa do Fenerbahçe, com cestas de todo o canto da quadra, usando seu controle de bola e tamanho.

Todo esse nível de atuação poderia justificar um ida para a NBA, com oferta de contrato por parte do Philadelphia 76ers. Mas, para isto, será necessária uma negociação pesada de buyout, uma vez que renovou sem contrato esse ano para mais duas primaveras, até 2021. Ainda aos 25 anos, sua breve carreira nos diz que não devemos desistir tão cedo assim de bons jogadores, dando paciência e tempo para quem tem talento. Sorte do Anadolu Efes, que conta com um grande atleta em seu grupo.

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