EuroLeague

O Poder da Continuidade na Euroliga: CSKA

A Euroliga é a competição mais importante a nível continental e de clubes na Europa, o segundo melhor campeonato de basquete do mundo, que funciona em um modelo fechado, independente da FIBA desde o começo do século e que costuma certa alternância de poder em sua história recente, a depender de como os clubes mais importantes do continente usam seu dinheiro para construir um elenco coeso.

Dentro desse contexto, já passamos por grandes fases de clubes italianos, uma era de ouro do Maccabi Tel Aviv, o maior Olympiakos da história com Vassilis Spanoulis, o supertime de armadores do Panathinaikos e alguns bons anos em que o Barcelona fez sentido. Mais uma coisa é certa nessa nova era da EL: o CSKA vai estar no Final Four. São 16 aparições nos 18 anos de rompimento com a FIBA.

Isso só é possível, antes de tudo, por um orçamento gigante, que permite fazer grandes investimentos, para sempre ter os melhores russos do mercado e contratar estrelas de times um pouco menores para serem atletas de rotação. Por vezes, conseguem até segurar jogadores com mercado na NBA, por conseguir manter um nível salarial alto, que os clubes da liga americana eram tímidos em pagar, como para Milos Teodosic (que saiu tarde e logo se lesionou) e Nando de Colo, recentemente.

Entretanto, não é todo clube que aproveita de sua estrutura milionária e poder de oligopolizar para manter as coisas funcionam bem, com continuidade e sem passar por fases tenebrosas de incertezas e maus resultados, como tem sido os casos do Barcelona, Milano e Maccabi. Por vezes, ter recursos gera ímpeto por mudanças drásticas, por poder mexer em tudo de uma hora pra outra, na sede de se manter por cima.

Mas para construir uma equipe de basquetebol é preciso química, tempo para os jogadores se conhecerem, entrosar e construírem um grupo, junto da equipe técnica, para alinhar as peças em um mesmo plano, traçar objetivos claros e que todos entendam e se engajem, além de entender a mescla de características dos atletas para elaborar um esquema tático que faça sentido. Isso não é fácil, até pelos recursos humanos de equipes desse nível serem multi étnicos, com experiências e expectativas diversas. É um verdadeiro desafio, que necessita ser pensado com muito rigor.

Andrey Vatutin, presidente e CEO do CSKA, que sucedeu Sergey Kushchenko a partir de 2009, mente pensante por trás da construção do CSKA moderno.

O esforço do CSKA em manter ao menos a uma base dos principais jogadores (ou role players chave) não é de hoje. JR Holden, que acabou de assumir a função de Director of Player Personnel do Brooklyn Nets, uma das mentes por trás da reconstrução da equipe de Nova Iorque enquanto olheiro internacional por anos (e essencial no recrutamento de Didi Louzada pelo New Orleans Pelicans, em sua estadia por lá), jogou no clube russo entre 2003 e 2011, em que foi um dos principais cestinhas de Europa de sua geração, com agressividade e capacidade de criação. Victor Khryapa, um dos atletas mais não-ortodoxos a jogar basquete nos últimos 20 anos fora da NBA, atuou por lá entre 2008 e 2018, onde mostrava seu pacote versátil na defesa e no ataque, sem aparecer muito como pontuador, mas um passador fantástico e um defensor cheio de timing, desses atletas que preenchia todas as estatísticas possíveis, mas raramente alcançando 15 pontos em um jogo. Theo Papaloukas, um dos grandes expoentes da Grécia dos anos 2000 junto de Spanoulis e Diamantidis, ficou por lá de 2003 a 2010, onde mostrava sua versatilidade, inteligência e técnica. Segurou também o pacote refinado do australiano David Andersen entre 2005 e 2008, em seu auge. O fantástico Strecht Four Matjaz Smodis permaneceu lá entre 2006 e 2011, com destaque para os 4 primeiros anos, mesmo tempo que ficou Trajan Langdon por lá, um grande arremessador e pontuador, desafiador para as defesas adversárias. O lituano Ramunas Siskauskas viveu seu apogeu na equipe de 2008 a 2010, permanecendo em Moscou até 2012. Milos Teodosic cedeu a tentação americana de 2012 a 2017.

Dentro os atletas de rotação mais recentes, Aaron Jackson, Vitaly Fridzon e Sasha Kaun passaram bons anos de suas carreiras defensivas por lá, como peças complementares essenciais para as ambições do clube. Da base atual, quem está no clube há mais tempo é Andrey Vorontsevich, desde a temporada 2006-2007. Nesses anos todos, se consolidou com um arremessador alto, que poderia jogar nas posições 3 e 4 e combater atletas menores na defesa. Nikita Kurbanov, um caminhão de músculos e um dos grandes defensores fora da NBA, está lá desde 2016, mas esta sendo sua segunda passagem pelo clube, tendo jogado ainda entre 2006 e 2012. Kyle Hines, já um vencedor em seus anos de Olympiakos, chegou em 2013-2014 e nunca mais saiu. Um defensor aos moldes de Draymond Green, mas antes do astro do Golden State Warriors surgir, usa de sua envergadura, extrema inteligência, senso de posicionamento, uma enormidade combatividade e espírito competitivo para superar os problemas que um pivô de 1,98 m teria. Foi eleito duas vezes o melhor defensor da Euroliga e lidera os movimentos de mais direitos dos jogadores no continente, ao lado do italiano Luigi Datome, um jogador muito vocal e articulado fora de quadra também, alguém fácil de se admirar. Também tem seu próprio podcast e um documentário sobre:

Em comum em toda essa lista de atletas, com exceção de Teodosic, observamos tipos conhecidos pelo espírito de grupo, capacidade de jogar em equipe, se doar pelo coletivo e complementar habilidades. Obviamente que nem tudo aí é perfeito, alguns atletas talentosos passaram pela equipe e deixaram a desejar, o clube da capital russa foi conhecido por ser “amarelão” e perder vários títulos nos momentos decisivos (Printezis que o diga), mas isso não pode ser motivo para implodir e perder a continuidade. Não à toa, sempre são considerados contenders, não importa a época. O CSKA é um eterno candidato ao título europeu.

Com dois títulos nos últimos 4 anos, em que jogadores como De Colo, Teodosic, Cory Higgins, Sergio Rodriguez e Will Clyburn estiveram presentes, houve uma constante de muita eficiência, basquetebol jogado de maneira ofensiva e coletiva no ataque, com versatilidade e muitos músculos na defesa. Para esse ano, as mudanças foram um pouco maiores, em que perderam Higgins e De Colo para rivais europeus, além de Chacho não ter sido uma peça que fizeram questão de ficar, em decadência. Sobrou Clyburn, o explosivo ala americano, que foi MVP do Final Four. Para manter a coesão, trouxeram atletas muito sólidos para fazer parte do esquema tático que exige quadra espaçada e sequências de passe: Janis Strelnieks, Darrun Hillard, Kosta Koufos e Johannes Voigtmann. Voigt e Janis, por exemplo, receberam ofertas da NBA. Manter outros jogadores desse estilo, como Daniel Hackett, é parte essencial do plano. O risco fica em Mike James, um talentoso e explosivo armador, capaz de causar o caos como pontuador, mas que pode jogar partidas fora sozinho em sua agressividade e fome. Dimitris Itoudis, ex-assistente do vitorioso Zeljko Obradovic, parece um bom nome para manter tudo sob controle, uma vez que conseguiu controlar, em certas doses, os excessos de charutos e vodka de Milos Teodosic. Seu trabalho na Rússia é praticamente irretocável, outro nome que chegou a ser perguntado para funções técnicas na NBA.

Por conta de toda essa linha constante, o CSKA conquistou 4 títulos de 2002 pra cá da Europa, mesma quantidade que o Panathinaikos, juntos como maiores vencedores da Nova Euroliga. Uma lição de continuidade e uso do orçamento para manter uma equipe no topo, mesmo sob o risco constante de perder atletas para uma liga que monopoliza os talentos esportivos de sua modalidade no mundo. Um exemplo de gestão esportiva a ser seguida por equipes do mundo inteiro.

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