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Quatro jornalistas esportivos falam sobre a mudança na produção de conteúdo e suas carreiras

Todos os dias você acorda e provavelmente vai acessar o Twitter ou algum site para saber o que acontece no mundo esportivo. Talvez você já tenha até alguns perfis favoritos sobre determinados esportes. Mas já reparou como a produção de conteúdo mudou nos últimos anos?

Antigamente o jornalista esportivo via o jogo, fazia uma entrevista no final da partida, recebia as fotos do fotojornalista da empresa, ia até a redação e escrevia a matéria que seria postada no dia seguinte. Atualmente, muitos jornalistas fazem isso tudo sozinho e em menos tempo. Até fotografar, é necessário para o jornalista hoje em dia. Claro que estamos falando de um jornalista que supostamente trabalha em um jornal de uma grande mídia, mas as redes sociais trouxe ao leitor uma nova opção de conteúdo.

Vou me colocar como exemplo a seguir. Eu não trabalho para um jornal e sim, tenho um blog. Cubro jogos de basquete e como o meu público basicamente está nas redes sociais, a minha comunicação precisa ser rápida, direta e que tenha algum diferencial. Então, atualmente estou mais presente no Twitter, o que já me obriga a ter uma comunicação objetiva, pois lá tem um limite de caracteres. Além disso, ao invés de fazer o famoso tempo real, eu prefiro focar em vídeos de lances das jogadas e entrevistas pós-jogo, isso tudo utilizando um celular. Para o conteúdo do meu blog, eu foco em trazer materiais diferentes ou entrevistas exclusivas.

Viu como a produção de conteúdo mudou? A quantidade de opções que agora você tem em mãos? Mas acredite, a mudança não foi só para o leitor. O jornalista esportivo também teve que se adaptar a essas evoluções na produção de conteúdo.

E para poder falar sobre essas mudanças e situações que acontecem na carreira de um jornalista esportivo, eu tive a honra de conversar com um seleto grupo de jornalistas. São eles:

Felipe Souza – Quantos anos de experiência no jornalismo esportivo você tem?

Demétrio Vecchioli – Estou no décimo ano no esportivo, direto. Mas fiz outras coisas antes, principalmente na faculdade.

Bibiana Bolson – Oficialmente, eu comecei a fazer reportagens esportivas em 2012, mas acredito que essa história começa muito antes. Eu sempre acompanhei muito esporte, todas as competições e modalidades. Cresci no estádio! Aos 9 anos, fazia recortes de todas as matérias relacionadas com a Copa de 98. Era uma forma de “edição” (risos).

Gustavo Hofman – Eu entrei na faculdade em 1999 e no primeiro ano comecei a fazer estádio. O primeiro emprego foi escrevendo cruzadinha esportiva, que eram publicadas em um jornal em Campinas, onde eu cresci e me formei. Então comecei a trabalhar na prática já no meu primeiro ano de faculdade, 1999. Me formei em 2002, desde então trabalhando quase sempre com esporte, mas nem sempre. Eu trabalhar com outras editorias, em outras áreas também, revista de comércio exterior, agência de comunicação. Já ralei bastante, fiz um pouco de tudo que você possa pensar. Efetivamente só esporte, agora, desde de 2009 ou 2010.

Fábio Balassiano – Comecei em 2006, fiquei em redação até 2009 e depois fiquei “apenas” com o blog. O começo foi bom porque me deu uma base bacana, e logo depois foi ainda mais legal porque passei a escrever como quero, quando quero, sobre o que quero e sem dar satisfação a ninguém.

Felipe – No atual cenário da cobertura esportiva, o que melhorou e piorou desde o tempo que você começou?

Demétrio – Acho que melhorou a consciência do papel do jornalismo e dos meios de comunicação em geral. Até quatro anos atrás tinha musa da torcida no UOL, tinha matéria de “gostosa”, tinha muito machismo na redação. Não que as coisas tenham se resolvido, mas melhoraram muito. E isso se reflete na cobertura, que é muito mais diversa e muito mais politicamente correta. E isso influi na sociedade. Piorou o tamanho das redações. Quanto menos gente, menos atenção ao que supostamente é supérfluo: esporte olímpico.

Bibiana – Prefiro ver sempre o lado positivo. Melhorou muito! Por exemplo, o acesso à informação…Temos ferramentas que possibilitam que as notícias cheguem até nós muito mais rápido. Da mesma forma, temos a oportunidade de informar com a mesma velocidade.

Vejo que apesar de lenta, a profissionalização dos clubes também é algo para destacar: há um entendimento muito melhor da importância de divulgar informações (ainda que muitas assessorias mediem bastante o que querem divulgar).

Em outro patamar, também os produtores de conteúdo foram “redefinidos”, aconteceu uma “democratização” maravilhosa, mas que de certa forma pode ser arriscada, porque em alguns momentos compromete a qualidade. Temos muitos conteúdos excelentes feitos por não jornalistas, mas igualmente muito conteúdo produzido por torcedor sem qualquer responsabilidade com a verdade- e aí surge uma avalanche de fake news de muitos deles especulando chegada e saídas de jogadores.

Hofman – Mudou muito a cobertura por conta das redes sociais, a velocidade da informação, a internet mudou radicalmente. A cobertura que eu fiz na Copa de 2018 já foi muito diferente da Copa de 2014, por exemplo. Justamente por causa dessa velocidade da informação e as redes sociais. Então isso é o que mais mudou e melhorou, por que você consegue ter uma interatividade maior e consegue passar mais rápido a informação.

Eu vejo isso como um aspecto positivo, mas o lado negativo para mim, de tudo que mudou, principalmente a forma como o jornalismo é tratado, as pessoas exageram demais na brincadeira, na piada, confundem muito o entretenimento com o jornalismo. Então essa é a maior crítica que eu faço de mudança negativa nesses últimos anos.

Gustavo Hofman

Balassiano – Piorou demais a perspectiva da profissão, cada vez mais confundida com o lance dos influenciadores e da produção barata de conteúdo. Produzir conteúdo é difícil. De qualidade, como o que você faz, ainda mais. Isso dá trabalho, demanda esforço, esmero, tempo, paciência. Hoje em dia muita gente procura o produto enlatado, pronto, o RT de um vídeo, uma tradução de um vídeo pra dar audiência. Isso é mole. Melhorou, muito, a parte do acesso e o entendimento, por parte do público, de algumas dificuldades da profissão. Não muito, mas melhorou.

Felipe – Antigamente era comum a grande imprensa dominar a cobertura de um jogo. Como você vê o crescimento do número de blogs e influenciadores nesse segmento? Acredita que atrapalha ou ajuda?

Demétrio – Tenho poréns. Porque o jornalismo se aprofunda e muitas vezes os influenciadores não conseguem fazer isso. Acompanho pouco o NBB para poder dizer como é isso no basquete, mas posso tomar como exemplo futebol internacional. Os mil blogs sobre os clubes grandes não apresentam muita novidade na comparação com o que produz a grande mídia. Há pouca ou nenhuma tentativa de diversificação de pauta, apenas uma reprodução em menor escala. No esporte olímpico é a mesma coisa.

Os perfis que escrevem sobre esporte olímpico (como um todo, especialmente os amadores) basicamente reportam resultado, fazendo quase um papel que a inteligência artificial faria (resultado de jogo, comparação com outros resultados). Há pouco jornalismo, de servir de referência para a grande imprensa. Nada que faça a leitura desses blogs ser fundamental numa “ronda”.

Bibiana – Ver um aumento de pessoas envolvidas com a cobertura é algo que gosto demais. Você não precisa mais pertencer a uma grande emissora para produzir conteúdo e isso abre portas para muitos que ficavam excluídos dessa “cadeia”. E tem MUITA gente boa nessa categoria de “fora da grande mídia”.

Por outro lado, como eu falei, vejo também que a facilidade em acessar e produzir, fez a qualidade cair bastante. Há superficialidade de conteúdos, falta de comprometimento com a apuração também, bem como um belo “copia/cola” em muitos blogs. Esse é o lado negativo. Mas também com o tempo, a própria audiência vai saber selecionar melhor o que quer consumir. De forma mais consciente fará a escolha pela qualidade e não necessariamente pelo influenciador com “maiores números”

Bibiana Bolson

Hofman – Eu entendo como algo natural, acho que todo mundo precisa ter uma formação mínima para trabalhar nas áreas, pode ser de vivencia, escola ou faculdade, tanto faz. Tem que tomar cuidado para separar os curiosos das pessoas que realmente entendem e colabaram com a cobertura de um grande evento. Mas eu não vejo nenhum problema, acho só que todo mundo tem que ter qualificação para trabalhar na área, mas existem vários tipos de qualificação.

Balassiano – Gosto muito da ideia. Não vejo nenhum problema em ter blogs e influenciadores. Eu só não gosto da confusão entre uma coisa e outra. Jornalismo é jornalismo, uma profissão como outra qualquer e que segue algumas “regras”. Jornalismo é senso crítico, oposição, independência.

Qualquer coisa diferente disso é amizade, bater mãozinha com jogador, tentar ser querido pelos outros, fazer piadinha ao invés de informar. Entendo que dá pra fazer jornalismo bem humorado, com qualidade, pendendo pro lado mais informal da coisa. Entendo e gosto. Mas é preciso diferenciar o que é jornalismo do entretenimento. De todo modo, e respondendo à sua pergunta, zero problema na proliferação de blogs e influenciadores. O público escolhe o que quer consumir e tem espaço pra todos.

Felipe – Qual foi o seu maior aprendizado na carreira?

Demétrio – Acho que são muitos. Não sei pontuar um assim. Mas acho que com o tempo aprendi mais a valorizar fontes. Sem elas não tem furo. E sem furo não tem jornalismo.

Bibiana – Como em outras carreiras, há aprendizados diários. Talvez no jornalismo em específico eu tenha aprendido que ao contrário do que pensava inicialmente, que meu trabalho seria guiado pelas histórias que eu conto, eu tenha descoberto que as histórias que me contam tem grande valor. Ou seja, é a profissão que ouvir e observar são dois verbos essenciais. Há também uma batalha diária com a humildade, a sensação de que as pessoas te reconhecem deve ser deixada de lado. O jornalista não é o protagonista! O jornalismo é. As histórias são….

Hofman – Experiência te ensina muita coisa, sabe? Eu vejo demais essa ‘molecada’ saindo da faculdade hoje e achando que já sabe tudo, garotos e garotas que saem da faculdade de jornalismo achando que estão prontas para trabalhar como repórter da ESPN, para apresentar um jornal, escrever uma coluna. O que eu insisto demais é que não pode ter pressa, a experiência faz muita diferença. Hoje, eu tenho certeza que sou muito melhor do que quando sai da faculdade, há 4 anos. Então acho que a experiência é fundamental, é o maior aprendizado que nós podemos ter na carreira. Por isso que eu falo muito para os jovens, não tenham pressa, o crescimento vem com o tempo.

Balassiano – Nada compra a sua transparência. Perdi muita coisa porque escrevi o que escrevi. Grana, oportunidade de comentar jogo em TV, exclusivas. Nada, porém, que vale o fato de que durmo bem todos os dias e não tenho um “ai” pras pessoas falarem de mim. Durante 10 anos sempre estive nas “guerras” que o bom jornalismo de basquete precisava estar. Se nem todo mundo foi, azar de quem não foi porque as batalhas foram boas, viu…

Fábio Balassiano

Felipe – Você poderia contar alguma história que te marcou na carreira como jornalista?

Demétrio – Também são muitas. Acho que ter derrubado o presidente da confederação brasileira de atletismo. Eu sabia que eu tinha bom material em mãos e agi de forma inteligente. Revoltei os atletas, mostrando que eles haviam sido usados. No fim, é um jornalismo que faz a diferença.

Demétrio Vecchioli

Bibiana – São muitas. Dos momentos mais felizes aos mais tristes. Já estive em vários deles e por acaso também. Sem planejar, tive a chance de cobrir a seleção alemã na final da Copa. Fui escalada para ficar no hotel em que eles estavam hospedados para cobrir as movimentações da manhã. Foi uma experiência fantástica, que era para ter terminado por volta das 13h.

Naquele dia, eu não tinha ingresso para acompanhar a final no Maracanã. Minha credencial não dava acesso também. Decidi arriscar. Peguei carona com uma equipe de reportagem e chegando no Maracanã, consegui o tal ingresso. Assisti diante dos meus olhos uma final de Copa do Mundo!

Hofman – As coberturas de Copa do mundo, principalmente a de 2014, que foi minha primeira Copa in loco, trabalhando efetivamente na competição. Eu cobri, logo de cara, a Alemanha, no caso, a seleção campeã. E fiz uma final de Copa, então foi algo inacreditável, sensacional. Foi uma cobertura muito intensa, é outro aprendizado enorme, fiquei 40 dias na cobertura da seleção alemã viajando pelo Brasil acompanhando a Alemanha, então essa é a melhor história da minha carreira como jornalista.

E aos poucos eu vou escrevendo mais, em 2018 foi uma outra história sensacional. Minha segunda cobertura de Copa do Mundo, in loco também, dessa vez fazendo a cobertura do Brasil. Uma responsabilidade enorme e um público de cobertura maior ainda. Fiquei 58 dias viajando em 2018, então as Copas do Mundo são as grandes histórias da minha carreira.

Balassiano – Cara, tem uma história legal e acho que nunca contei pra ninguém. Houve uma vez que apurei um processo contra a CBB, o banco negou veementemente e eu decidi não ir adiante. Dois dias depois me liga o vice-presidente de comunicação da instituição e diz: “Bala, eu leio seu blog todo dia e não é justo alguém divulgar isso que não você. Desce o ferro nos caras que é isso mesmo. Você é uma referência pra mim e fico orgulhoso que quem tenha ligado pra gente foi você”. Um VP de Comunicação de um banco me dizendo isso eu achei demais e vi que às vezes quando você se coloca uma fronteira o errado é simplesmente você…

Felipe – Para quem está começando no jornalismo esportivo, qual a dica que você daria?

Demétrio – Pensar em furos. Furo, furo, furo. É o furo que vai fazer você ser seguido pelo editor de um jornal, é o furo que vai fazer você ser compartilho, é furo que vai te tornar respeitado. E furo só se consegue de duas formas: fuçando as coisas, olhando documento, desconfiando, e mantendo boa relação com fontes.

Bibiana – A primeira dica é: mesmo que você queira ser um jornalista esportivo, tenha a clareza que primeiro você precisa ser um bom jornalista. Acredito que o erro inicial dos estudantes seja esse, pensar primeiro na editoria, antes de aperfeiçoar o que vai servir como base para sempre: fazer um bom jornalismo é mais do que amar o esporte. Tem que saber apurar, questionar, buscar histórias, personagens…

Para a solidez do trabalho, vejo como importante passar por outras editorias, porque talvez o esporte (infelizmente) te coloque em situações duríssimas. Eu cobri duas tragédias -Chapecoense e incêndio no Ninho, durante dias e por muitas horas falei de assuntos que eram completamente distintos do esporte. Só consegui cumprir a missão, porque anteriormente tinha passado por situações como a tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A editoria “Geral” vai preparar um profissional para todas as situações. Inclusive para essas em que nosso emocional fica completamente abalado. Ninguém quer cobrir uma tragédia, mas situações tão dramáticas nos fazem crescer também. No fim, o que importa de verdade, é o bom jornalismo.

Por fim, tenha sempre em mente que você é um contador de histórias. Busque elas nas situações mais simples!

Hofman – Acho que eu já dei a dica que eu posso dar na outra resposta, né? Para os mais jovens, não tenham pressa, estudem muito, leiam muito, aprendam e, com calma, o crescimento vem. Não adianta ter pressa, a experiência é muito importante no nosso caminho.

Balassiano – Estude muito. Leia muito. Não se fez apenas no jornalismo esportivo. E se puder aprender a usar Excel e Power Point e ferramentas de Marketing Digital você irá mais longe. Quem acha que jornalismo é só escrever matéria está ferrado.

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