Liga Ouro

Cláudio Mortari fala sobre o São Paulo, o cenário dos treinadores no Brasil e conta um pouco da sua história

Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Com mais de 40 anos trabalhando com basquete, Cláudio Mortari abandonou cedo a carreira de jogador e se tornou um dos treinadores mais vitoriosos do país. Foram cinco títulos nacionais, dois sul-americanos e o Campeonato Mundial de 1979 com o grande time do Sírio, que contava com simplesmente Oscar e Marcel. O desempenho no clube fez ele assumir o comando da seleção brasileira que terminou em quinto lugar nas Olimpíadas de Moscou, em 1980.

Em 2013,, Mortari conquistou a Liga das Américas e chegou ao vice-campeonato da Copa Intercontinental com o time do Pinheiros. O treinador também tem dez títulos estaduais por oito equipes diferentes.

Isso já mostra a grandeza que é o mestre Mortari, mas ele não quis parar por aí e assumiu nesse ano o comando do São Paulo para a disputa da Liga Ouro. Em seu primeiro ano a frente do tricolor paulista, o treinador já consegue chegar a uma final e está próximo do acesso ao Novo Basquete Brasil.

Para poder contar melhor como foi assumir o cargo de treinador do São Paulo e contar um pouco da sua história, eu tive a honra de entrevistar o Cláudio Mortari recentemente e a entrevista você confere a seguir. Espero que gostem.

Felipe Souza – O senhor é muito vitorioso no basquete. Como foi aceitar o desafio de treinar o São Paulo no primeiro ano do clube na Liga Ouro? 

Mortari –  Eu não costumo dizer a palavra desafio, acho que a minha profissão não existe desafio e você ir pra uma equipe do tamanho do São Paulo é um prêmio pelo meu trabalho. Você vai acumulando pontos ao longo dos anos, tem confiança, realmente isso me envaideceu bastante, pela confiança depositada no meu trabalho. Eu completo esse ano, 50 anos de carreira de efetivo exercício, não é nada com falhas.

Meu primeiro ano como treinador foi em 1969 como treinador de equipe mini, que foi o primeiro campeonato da categoria mini com tabela baixa. Eu era o técnico. Então você receber esse convite do São Paulo, o convite da Fox, que deu o microfone pra que eu possa emitir minhas opiniões, com a responsabilidade de pertencer a este grupo. Acho que estou coroando o meu trabalho, se é que ele foi positivo, de uma maneira bem agradável.

Felipe Souza – Sabemos que a Liga Ouro é um campeonato muito disputado, mas mesmo o São Paulo estando no seu primeiro ano de competição, mostrou que não sentiu o peso de ser um “novato” na competição. O que o senhor acha que foi diferencial para o time chegar à final logo no primeiro ano? 

Mortari – Acho que houve uma série de detalhes, conseguimos reunir alguns garotos bons, algumas promessas que vem se destacando, e tem com certeza um futuro brilhante. Alguns jogadores experientes, que é o caso do Drudi e do Ted. O fator decisivo foi o apoio da diretoria, nós estamos tendo um tratamento lá incrível e estamos fazendo um trabalho de Liga Nacional. Podemos até não nos classificarmos, mas de qualquer maneira aquilo que recebemos merece ser louvado, que em nenhum momento nos faltou nada. Até na reforma do ginásio, tudo que o clube poderia ter feito para que a essa equipe vingasse, foi feito. Acho que isso é fruto de todo esse trabalho, não depende só de uma pessoa, é um conjunto que participam desde o “cara” que limpa a quadra. Não adianta você ter um capital enorme se o “cara” quebra o vestiário inteiro, chega atrasado, tudo precisa funcionar. Acreditando naquilo que a gente traz de experiência de outros locais, de outros trabalhos que nós fizemos.

O São Paulo é uma força crescente, se nós nos classificarmos será muito positivo pra Liga, não só por ser um clube de futebol, mas pelo tamanho e a grandeza do São Paulo que vai entrar no mesmo grupo de Flamengo, Vasco, Botafogo. Essas equipes tem uma responsabilidade de público, de motivação e até social bem grande. 

Felipe Souza – O senhor falou de trabalhar com jovens promessas. Você tem o Lucas Brito no elenco, que é um garoto que se fala muito em São Paulo, e o João, que passou pelo Flamengo. Eu conversei com o João recentemente e ele falou que quando você diz para ele entrar em quadra, fala para ele fazer o que sabe de melhor. O senhor que tem tanta experiência no basquete, me fala como é trabalhar com esses garotos? 

Mortari – Eu trabalhei muitos anos com seleção brasileira juvenil e lógico que tem esses jogadores, apesar de ter dirigido na maioria das vezes equipes experientes, é salutar para mim e para esses jovens. Mas é necessário que eles acreditem. Se eu xingar você, acredite que foi bem xingado, por que eu não xingaria se não tivesse motivo. Pior seria se eu não xingasse, não tentasse o seu melhor. A realidade que eles precisam entender, é que o lucro disso tudo é deles, eu não tenho participação nenhuma no futuro da carreira deles, quero que sejam felizes. O meu objetivo é só de orienta-los, por que hoje o atleta jovem recebe muita informação de agregados, empresários, que nem sempre dizem a verdade ou procuram o melhor a nível futuro. Então, eles tem que acreditar, por que estão vindo em uma pessoa sem nenhum interesse.

E é muito difícil fazer esse trabalho, por que você pega o caso do João, que teve uma experiência no Flamengo, não foi tão boa. É um jogador que precisa se reajustar, tem um potencial físico e técnico que só ele não sabe que tem. O futuro dele é muito promissor, desde que ele não jogue só com as pernas, tem que jogar com a cabeça também, mas isso vai levar algum tempo. É difícil você conviver com isso por que, de repente, esses agregados só elogiam, só falam bem, mas muitas vezes não falam a verdade. Eu trato os “caras” como eu trato meus filhos, de vez em quando precisa de um “puxão de orelha”. Hoje o principal problema é esse entorno dos jogadores, é realmente muito complicado de se administrar.

Felipe Souza – Ultimamente fala-se muito na necessidade de renovação dos treinadores brasileiros e nós estamos vendo muitos técnicos surgindo. Mas eu vejo que às vezes nós acabamos não dando valor ao treinadores que hoje não estão trabalhando, mas que tem o seu valor. Como você vê esse cenário nacional em relação aos treinadores? 

Mortari – Eu acho muito bom. Gustavinho inclusive chegou a ser jogador na seleção paulista. Esse é o futuro. Não tenho dúvidas disso. Esta tendo esse tipo de trabalho, o que precisa é uma atualização, nós tivemos desfalques nessa geração, por conta do intercâmbio para o exterior. Nós (treinadores da geração passada) nos aproximamos demais da Europa, dos Estados Unidos, essa geração não está tendo esse tipo de oportunidade. As oportunidades estão sendo dadas só a quem dirige a seleção brasileira, que a gente sabe que está sujeita a alternâncias que nem sempre correspondem ao ideal. Então, está muito local, tanto é que nós estamos tendo dificuldades em disputas sul-americanas ou pan-americanas. Nós estamos muito isolados do resto do mundo em termos de basquete principalmente. Seria importante que esses treinadores tivessem a oportunidade de viajar, conhecer e ver que nós não estamos com essa bola toda.

Felipe – Além de ser vitorioso nos clubes em que passou, o senhor pode me falar como foi a sua passagem pela seleção brasileira?

Mortari – Eu sempre encarei a seleção brasileira como um objetivo na minha carreira e não como um fim. Eu fui técnico da seleção brasileira por pouco tempo na minha carreira, passei por todos os grandes clubes brasileiros praticamente, então a seleção não me fez falta. Mas, pelo basquete, eu devo tudo que tenho na minha vida, minha família, minha forma de ser, eu devo tudo a essa bola de basquete, não tenha dúvidas disso.

Felipe Souza – Eu principalmente falo muito sobre trabalho de base no Brasil, acho que é algo que precisa ser evoluído ainda no Brasil. A parte tática, técnica, do jogador mesmo para ele saber como funciona, entender uma jogada, o chifre ou qualquer outro tipo de jogada. Você também vê dessa forma, o trabalho de base pode evoluir nesse sentido? 

Mortari – Tem que evoluir em todos os sentidos se você não tem nada, é simples. A conta não bate. Se você não tiver base ou, pior, se não tiver uma base bem feita, o “cara” chega lá no adulto sem saber o que é o jogo. O jogador de basquete no Brasil, em sua grande maioria, joga como ninguém, tem uma condição individual fantástica, mas isso no jogo tecnicamente. Taticamente ele carece dessas informações que poderiam ser um fator a mais para aprimora-lo, não tenho dúvidas disso. Falta esse tipo de informação, o que é o basquete, quais são as situações que eu tenho, como eu preciso reagir nesses momentos. 

Felipe – Para finalizar, além de ser treinador do São Paulo e comentarista, como é ser visto como uma referência para os outros treinadores?

Mortari – Chega o momento em que você pode colaborar para as pessoas que tem curiosidade, que querem saber mais. Não tem isso de ‘a minha regra é a perfeita’, ela pode ser uma que deu certo, mas possivelmente pode ser uma que não seja a ideal. Essa é a rotina, saber quando você conseguiu, tentar fazer igual ou ter suas próprias ideias, sua filosofia. Mas eu sinto que falta esse tipo de ‘aproach’ entre os treinadores mais jovens, por ciúmes, que é uma bobagem grande, mas faz isso. Não de ensinar nada, mas de transmitir experiência. E você escuta, aquilo que for bom para você, guarda. O que não for, despreza. Esse ‘aproach’ tem que ser constante, talvez falte humildade em nós transmitirmos e talvez humildade dos mais jovens em receber as informações.

Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

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