Botafogo

Jamaal Smith fala sobre a sua carreira, família e o Botafogo

Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo

Quando essa temporada começou para o Botafogo, era esperado que o ala-armador americano Jamaal Smith tivesse mais ajuda e menos pressão para ser o “cara” das partidas. Isso por que o Glorioso reformulou praticamente todo o seu elenco e trouxe ótimos jogadores, que vem colocando o time carioca como uma das equipes fortes a chegar longe no campeonato.

Mesmo sem a responsabilidade de ser o único jogador com poder de decisão nesta temporada, o que estamos vendo nessa fase dos playoffs é o americano chamando as jogadas para si e sendo fundamental para o Botafogo fazer uma ótima campanha até aqui. Nesta temporada ele vem tendo médias de 14.2 pontos e 4 assistências em 26 jogos, e isso já mostra o quando ele é importante para o time.

O filho da lenda de UNLV Robert Smith, ex-jogador norte-americano que atuou por 8 temporadas na NBA, já fez peneira no Cleveland Cavaliers, já foi co-MVP do GBSL Las Vegas em 2015 e quando esteve na universidade de New Mexico Lobos terminou o seu ano como sênior em 2007-08 com médias de 8.85 pontos e 1.85 assistências em 33 jogos.

A lenda de UNLV e pai do Jamaal Smith, Robert Smith

O Jamaal tem uma história longa com o basquete e após a partida contra o Pinheiros eu pude conversar com ele um pouco sobre a sua carreira, família e muito mais.

Confira abaixo como foi a entrevista com o americano.

Foto: Paula Reis

Felipe Souza: – Jamaal, quando começou a temporada o time mudou totalmente. Muito se esperava que talvez você tivesse menos responsabilidade em quadra, por ter vindo novos jogadores. No final, você volta a ser o grande destaque dessa equipe, não só você, mas foi você quem chamou o jogo hoje. Tem algum peso diferente essa vitória de hoje?

Jamaal Smith – Pra mim, não. Eu jogava do mesmo jeito. Hoje foi um jogo que eu joguei pelo meu amigo lá nos Estados Unidos, Chris Davis, foi um momento difícil. Hoje, tudo foi para ele. Meu motivo foi ele, não estava pensando em chamar o jogo, eu faço qualquer coisa para ajudar o meu time, mas, hoje, foi para ele (Chris Davis).

Felipe – A vitória de hoje foi muito importante, começa muito bem a série. Mas o que você espera do resto da série?

Jamaal – Com certeza eles vão dar um jeito de melhorar o jogo, vão assistir o vídeo e definir onde podem melhorar. Eu acho que vão me marcar com mais pressão, tirar as bolas que eles me deram. Mas nosso jogo não foi perfeito hoje, tiveram muitos erros, eu tive muitos também. Mas é continuar e fazer o mesmo.

Felipe – Você viu esse clube na Liga Ouro, pegou quando muitos torcedores do clube não apoiavam. A mídia não apoiava. Hoje, vencer o Pinheiros, chegar em uma quartas de final, abrir a série com 1-0. Você consegue pensar nessa sua trajetória de sucesso até aqui?

Jamaal – Pra mim é algo muito especial. Não só para os jogadores, mas para os torcedores também que cresceram junto com a gente. Até esse momento esteve junto com a gente, no ano passado sofreram bastante, mas agora os diretores colocaram um time muito forte, então acho que é algo grande. Temos que relembrar que agora temos que ir na casa deles, que não é algo fácil, esse clube é grande e forte.

Felipe – Você faz preparação de pré-temporada nos Estados Unidos. Em que você acha que te ajuda a preparação nos Estados Unidos para esses momentos de “clutch time”, de arremessos contestados?

Jamaal – Eu tenho meus técnicos, os caras que ficam em cima de mim todos os dias. Meu treinador também na academia não me deixa nenhum dia pra descansar. Todos os dias é alguma atividade. Então é isso, eles me preparam para momentos assim, quando estou cansado. Nos nossos treinamentos são quase assim, o companheiro me marcando forte, até por que eu não treino sozinho, estou com outros jogadores que estão jogando na Euroliga e em outras ligas desse patamar.

Então eu tenho que subir, tenho que melhorar. Todos os dias eu estou pensando em melhorar. Em momentos assim é por causa disso. Tem dias que eu quero ficar em casa, deitado, e eles me ligam e dizem que eu tenho cinco minutos pra chegar. Então foi assim, em momentos como esse você não precisa pensar, só fazer o que já foi treinado.

Felipe – Você tem uma grande ligação com o basquete desde o seu pai e por sua passagem na NCAA, tem algum jogador que você se identifique?

Jamaal – Não tem somente um, mas eu adoro o estilo do Allen Iverson. O cara era mais baixo que todos e não teve medo de ninguém, foi um cara duro dentro de quadra. Eu cresci assistindo-o e o Michael Jordan, os caras que tiveram uma mentalidade muito diferente de outros. Pra mim, não que eu não respeite a NBA agora, mas tem muita amizade na Liga, eu cresci em um tempo que não tinha amigos dentro de quadra como hoje. O Dawkins e o Dennis são caras que fora de quadra eu vou bater papo, mandar mensagem, mas dentro de quadra se você não está no meu time eu não gosto de você.

Então eu cresci com isso, além de eu ter muitas coisas que já passei na vida, então eu uso todos os tempos difíceis, quando eu nem sabia se ia jogar mais, que não tive dinheiro pra comprar comida. Eu passei por esse momento e quero passar isso pra quem está me marcando, por que eu não sabia se ia jogar mais, eu fiquei sonhando nessa época. Fiquei orando pra Deus por uma chance. Agora, se tem alguém em quadra na minha frente eu quero passar tudo que eu senti, pra eles.

Eu tenho uma família, meu pai me ajuda me tranquilizando, por que eu sou um cara agressivo. Toda vez eu fico em cima de alguém, parece que eu quero brigar, quando eu era jovem já aconteceu. Mas agora, como já estou crescendo, ele me ajuda todos os dias, me dá alguns conselhos. Ele já jogou na França, jogou na NBA. A parte ruim é que não lembram quando não ganham dinheiro, mas ele jogou. Teve médias na França de 19 pontos e 7 assistências por jogo. É algo que, pra mim, é incrível, até hoje não consegui fazer. É algo grande.

Felipe – Jamaal, para conseguir passar um contexto para o torcedor. Normalmente o torcedor quando vem torcer, não tem a mínima noção do que vocês passam. O que passaram lá atrás, justamente as dificuldades, de comprar um tênis, de ir para o treino. Você poderia contar alguma dificuldade que te faz recordar até mesmo nas vitórias?

Jamaal – Uma história que eu sempre conto pros meus amigos foi a minha primeira filha. Eu estava de carro lá nos Estados Unidos e estávamos no Mc Donald’s, ela disse que estava com fome e eu também estava com fome. Não tinha serviço, eu queria uma oportunidade, mas não tinha. Eu olhei no Mc Donald’s e ela disse que queria comer. Então, eu olhei e um hambúrguer pra ela era 1 dólar e eu não tive como dar pra ela. Foi algo que eu não tive na minha vida, que eu não pude dar pro meu filho. Não é algo triste, pra mim é motivação. Eu fico pensando nesse momento agora que a vida mudou, mas sempre eu tenho comigo esses momentos que foram difíceis.

Às vezes eu nem sabia se ia jogar, a minha família dizia que eu tinha que parar. Eu treinava, mas não sabia se ia conseguir, se ia pra algum lugar. Diziam que eu tinha que pegar algum serviço pra trabalhar. Mas tinha um sonho e um pai que sempre esteve do meu lado, que dizia que momentos como esse iriam passar, como aconteceu com ele. Eu disse que iria parar várias vezes, por que meus amigos estavam trabalhando, conseguindo dinheiro, e eu estava “quebrado”. Então foram momentos difíceis, por isso eu cheguei aqui. Eu sempre após a temporada gosto de entrar em comunidades, falo com as pessoas, por que às vezes você vê os jogadores pela televisão e acha que a vida deles é de uma maneira, mas não é assim. Nossa vida parece muito mais do que realmente é, então acho que, pra eles, é muito especial.

Felipe – Nos Estados Unidos você chegou a trabalhar como o que?

Jamaal – Eu trabalhei com crianças que tinham problemas. Esse foi meu último trabalho. Eu sei que às vezes você tem problemas, cometeu um erro, mas sempre pode melhorar. Por isso tento ajudar.

Felipe – Se pegarmos um gancho em toda essa sua história incrível, qual peso que o Botafogo tem pra você em sua vida?

Jamaal – Pra mim o Botafogo é algo muito especial. Eu não sei se as pessoas sabiam o meu histórico, mas eu fiquei 10 meses parado sem ter um time. Depois que eu sai do São José, eu liguei para todos os times do NBB. Disse que o dinheiro não era importante, mas que eu queria jogar. Todos os times não quiseram, quase fechei com o Bauru, mas não consegui. Com o Paulistano idem. Então eu fiquei em casa triste demais, última coisa que eu lembro é que meu agente ligou pra Sorocaba e disseram que esse ano não dava, mas que poderíamos conversar no ano que vem. Isso me deu motivação, minha última oportunidade foi aqui no Botafogo.

Um amigo meu de São Paulo que jogou comigo, Aguirre, me disse que tinha um contato de um amigo no Instagram. Eu conhecia alguns que estavam lá e consegui fechar com os que estavam aqui. Eu estava triste de voltar pela Liga Ouro, mas estava feliz também pela oportunidade, agradecendo a Deus. Então, pra mim o Botafogo é algo muito especial no meu coração.

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Categorias:Botafogo, NBB

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